Imagens da polícia a desmantelar campo de refugiados são “chocantes”, diz ministro francês

Violência policial contra migrantes em Paris criticada pela oposição, que se felicita pela existência de vídeos da operação – a lei que proíbe a divulgação de imagens de polícias em muitas situações está prestes a ser aprovada.

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A polícia chegou menos de uma hora depois para esvaziar a praça CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA
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A maioria dos requerentes de asilo são jovens afegãos CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA
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O acampamento foi montado numa acção de protesto e a pedido de uma ONG CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA

Os vídeos da polícia a desmantelar com violência um campo erguido por requerentes de asilo em protesto contra a falta de abrigo em Paris são “chocantes”, afirmou o ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, que exigiu um relatório da operação policial até à hora de almoço desta terça-feira. As imagens mostram agentes a arrancar tendas com pessoas lá dentro, a perseguir gente pelas ruas e a atacar migrantes, jornalistas e activistas com cassetetes, antes de dispersar quem sobrava com gás lacrimogéneo e granadas de atordoamento.

A pedido da organização não-governamental Utopia56, cerca de 450 refugiados montaram na segunda-feira à noite umas 500 tendas na Praça da República para protestar contra a evacuação, à força, de um campo de exilados perto do Stade de France, há uma semana – desde então, muitos migrantes foram deixados a vaguear pelas ruas da capital francesa. Com os requerentes de asilo, a grande maioria homens afegãos, estavam activistas, jornalistas e alguns políticos. A polícia apareceu menos de uma hora depois decidida a esvaziar a praça do centro de Paris.

“Algumas imagens do desmantelamento de um campo de migrantes ilegal na Praça da República são chocantes”, escreveu o ministro Darmanin no Twitter. “Acabei de pedir um relatório detalhado sobre os factos ao chefe da polícia. Assim que o receber vou tomar decisões.”

Advogados, deputados e vereadores que estavam no local tentaram impedir a acção policial, mas sem sucesso.

“O que vimos foi repressão que infelizmente não é pouco comum mas foi completamente desproporcionada. Havia algum risco para os agentes da polícia? Não. Havia risco de danos à propriedade? Não”, reagiu em declarações à televisão FranceInfo Éric Coquerel, deputado do partido de esquerda França Insubmissa. “O que houve foi repressão contra pessoas que só estão a pedir que os seus direitos humanos sejam respeitados, contra activistas pacíficos, jornalistas e representantes eleitos sem discriminação.”

“O Estado oferece um espectáculo lamentável” ao dar “uma resposta policial a uma situação social”, comentou à AFP Ian Brossat (Partido Comunista), adjunto da câmara de Paris que tem a cargo o acolhimento de refugiados. Pensar que resolvemos problemas sociais com cassetetes é de loucos”, disse ainda Brossat. “Enquanto não houver abrigos disponíveis haverá gente na frua, haverá acampamentos. Pensar que isto se resolve com o assédio policial que vimos está noite é patético.”

“Indigno” ou “escandaloso” foram palavras repetidas por vários membros da oposição, por ONG ou organizações sindicais.

O primeiro secretário do Partido Socialista, Olivier Faure, denunciou “uma caça à miséria a golpes de cassetete”, enquanto o porta-voz dos socialistas, Boris Vallaud, deu conta da sua “consternação” e “tristeza” no Twitter. “Este Governo está a falhar em todos os seus deveres, a começar pelo da humanidade.”

A operação policial acontece num momento já delicado para o Governo, que enfrenta muitas críticas pela nova lei da segurança global, que deverá ser votada esta terça-feira à tarde na Assembleia Nacional e que ilegaliza a divulgação de imagens de agentes da polícia em determinadas circunstâncias.

“Felizmente, há imagens”, disse à France 2 Laurent Berger, secretário-geral da central sindical CFDT. “Considero isto escandaloso, alucinante. As pessoas ocupavam pacificamente uma praça com tendas…”, disse. Para outro líder sindical, Philippe Martinez (CGT), o que aconteceu na segunda-feira à noite “é digno de um país que não é a França”. Martinez, como vários dirigentes políticos, também se felicitou por “poder haver imagens”.

Deixados na rua

A Utopia56 tinha divulgado um comunicado a pedir às autoridades que providenciam abrigo para os 3000 estimados migrantes que vivem na rua em Paris e nos arredores da cidade.

Depois da evacuação do campo perto do Stade de France, o município diz que mais de 3000 pessoas foram para centros de acolhimento ou ginásios. Mas dos que viviam nesse campo, entre 500 e mil foram deixados na rua: “Foram deixados na rua e na invisibilidade, mas precisam de alojamento, principalmente em plena crise sanitária”, diz Maël de Marcellus, da Utopia56, citado pelo jornal Le Monde.

As polícias de Paris e da região Ile-de-France defenderam a operação num comunicado conjunto onde afirmam que “a constituição de tais acampamentos, organizados por certas associações, é inaceitável”, pelo que “foi ordenada a dispersão imediata desta ocupação ilegal do espaço público”.