Azeredo Lopes não se recorda de ter pedido a Marcelo para receber director da Judiciária Militar

Ex-ministro da Defesa negou uma vez mais em tribunal ter concordado com alegado plano dos militares para recuperar armamento roubado em troca da impunidade dos ladrões.

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Daniel Rocha

O ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, não se recorda de ter pedido ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para receber o director-geral da Judiciária Militar por causa do roubo de Tancos.

O episódio foi relatado na passada semana por escrito ao Tribunal de Santarém pelo próprio chefe de Estado, que foi chamado a prestar esclarecimentos sobre o caso. Menos de uma semana depois do roubo do material militar dos paióis, a 4 de Agosto de 2017, Marcelo Rebelo de Sousa fez uma visita àquele quartel na qual participaram também Azeredo Lopes e vários representantes das instituições militares. No final do encontro, recorda, o então ministro da Defesa sugeriu-lhe que falasse com o director-geral da Judiciária Militar que falaria com ele – o que de facto prometeu mas acabou por nunca suceder, uma vez que o Presidente decidiria mais tarde ter como único interlocutor neste caso a então procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal.

Questionado sobre o assunto em tribunal esta terça-feira, o antigo governante respondeu que não iria contrariar a versão dos factos do chefe de Estado. Porém, de alguma forma acabou por o fazer: “Não tenho memória de lhe ter pedido para receber o director-geral da Polícia Judiciária Militar. Até porque ele já tinha podido expressar a sua opinião junto do Presidente da República”, uma vez que aquele responsável da PJM também havia participado na reunião em causa, declarou. Perante a quantidade de pessoas presentes na reunião, e que não conhecia, Azeredo Lopes temeu que pudesse ali ter-se infiltrado algum jornalista. “Não fazia ideia se havia jornalistas na sala e rezava para aquilo acabar rapidamente”, confessou. 

Como já tinha feito em fases anteriores do processo, Azeredo Lopes voltou a negar qualquer envolvimento no esquema alegadamente gizado pelos militares para recuperarem a todo o custo as granadas, munições e outros explosivos, mesmo à custa de deixarem escapar os ladrões.

Confrontado com as mensagens escritas que enviou ao deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro no dia do achamento das armas – “Eu sabia, mas tive de aguentar calado a porrada que levei. Mas não sabia que ia ser hoje” -, o ex-ministro garantiu que a única coisa de que teve conhecimento prévio foi do bom andamento da investigação levada a cabo para reaver o material militar, e não da encenação e do encobrimento que alegadamente tiveram lugar. De resto, acrescentou, nesta altura já não estava muito preocupado com as consequências do furto, uma vez que os militares lhe tinham garantido que o material com maior potencial de letalidade levado de Tancos, mísseis anti-carro, se encontrava, afinal, obsoleto.

O ex-governante acusa os investigadores do caso de Tancos de desconhecerem o funcionamento das instituições militares. “Quando quiseram deter o director-geral da Policia Judiciária Militar, a procuradora-geral da República e o director do Departamento Central de Investigação e Acção Penal vieram ao meu gabinete com grande urgência”, para que assinasse a papelada que lhes permitiria fazê-lo, exemplificou. “Mas quem tinha de assinar esses documentos era o Exército”.

Acusado de abuso de poder, favorecimento, prevaricação e denegação de justiça, o arguido deu outros exemplos de como o Ministério Público e a Polícia Judiciária terão, por ignorância, tirado conclusões erróneas sobre aquilo que se passou relativamente ao processo de devolução do armamento militar. Segundo a acusação, o material roubado em Tancos foi entregue pelos ladrões depois de os militares se terem comprometido a deixá-los ficar impunes relativamente ao roubo.

“Encarar-me como uma espécie de chefe de secretaria, como faz a acusação, é de uma total insensatez. É desconhecer as características únicas do Ministério da Defesa Nacional”, observou, num depoimento que se estendeu ao longo de várias horas e em que por mais de uma vez foi advertido pelo juiz que dirige o julgamento para que se focasse nos acontecimentos em causa, sem se dispersar por assuntos laterais.