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Bernardo juntou-se à avó para produzir sapatilhas feitas de cannabis

Marca 8000Kicks é portuguesa e foi criada por Bernardo Carreira e Otília Santarém. Sapatilhas feitas de cânhamo são sustentáveis, impermeáveis e minimalistas.

Bernardo Carreira, de 27 anos, desafiou a sua avó, Otília Santarém, de 77 anos, e juntos lançaram a 8000Kicks, uma startup que produz e comercializa sapatos com tecido de cânhamo — a cannabis industrial, variedade com baixo teor de tetrahidrocanabinol (THC), a principal substância psicoactiva da planta.​ As sapatilhas do modelo The Explorer (para já, o único existente) são sustentáveis, impermeáveis, têm um design minimalista e, diz o criador, adequam-se a todas as ocasiões.​ 

A ideia de criar uns sapatos de cânhamo tem por detrás uma história “muito engraçada”, conta Bernardo, em conversa com o P3. Em 2018, decidiu despedir-se da startup de telecomunicações onde trabalhava, em Londres, mas ficou sempre com o bichinho do empreendedorismo. Voltou para a terra natal, Minde, no distrito de Santarém, e numa noite de copos com amigos teve uma ideia. “Já havia carteiras e malas feitas de cannabis, porque não não fazer um sapato?”, pensou.

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Bernardo e a avó Otília com um dos sapatos da marca. DR

Decidiu então falar sobre o assunto com a avó. “Ia-me expulsando de casa”, diz, entre risos, “mas depois expliquei-lhe que não era nada de droga: era um tecido”. Encomendou-o para lhe mostrar e a avó “percebeu”. A partir daí, Otília tornou-se parceira no negócio e, em Maio de 2019, nasceu a marca 8000Kicks, através de uma plataforma de crowdfunding americana em que a dupla conseguiu angariar cerca de 200 mil euros.

Otília recorda quando o neto lhe falou da ideia que tinha em mente: “Ele explicou-me todas as características [do tecido] e eu disse: ‘Vai em frente, no que puder ajudar, ajudo’.” Depois de 50 anos a trabalhar para fábricas têxteis, a avó era a melhor aliada que o neto poderia ter. “Pediu-me ajuda na escolha e combinação de tecidos”, conta Otília ao P3, acrescentando que teve, e continua a ter, atenção no processo de montagem dos sapatos, porque é “um calçado caro e as pessoas querem qualidade”.

As sapatilhas distinguem-se pela resistência. O cânhamo, a única fibra presente no tecido, tem essa vantagem. “A maioria das pessoas não sabe, mas as velas dos descobridores e as cordas dos barcos das naus eram feitas de cânhamo, mas depois, com o 25 de Abril, a utilização dessa fibra foi banida. Ainda hoje é dos materiais mais resistentes à face da terra”, garante Bernardo. 

A utilização deste material tem também benefícios a nível ambiental, de que o jovem se tem vindo a aperceber. O cânhamo “cresce muito facilmente e naturalmente” e purifica os solos, não sendo necessário usar pesticidas nem herbicidas. Além disso, na produção desta fibra gasta-se cinco vezes menos água do que a necessária para o algodão, por exemplo. As solas, por seu turno, são feitas a partir de algas de lagos onde são nocivas ao ambiente.

A marca portuguesa conta com fornecedores da China, Roménia e França, que, entre outras coisas, providenciam o cânhamo e as solas. É a primeira do mundo a produzir palminhas feitas a partir do cânhamo, com propriedades químicas antibacterianas e antimicrobianas. “A tecnologia que usamos nas palminhas é a mesma que temos na máscara”, diz Bernardo, referindo-se ao mais recente produto da 8000Kicks.

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Por causa da pandemia, Bernardo e a avó estiveram quase cinco meses sem produzir um único par. “Foi péssimo. Foi quase o fim do nosso projecto”, assume o neto. Otília começou então a “fazer muitas máscaras” enquanto as fábricas estavam fechadas. Agora, para evitar novamente uma situação semelhante, os sapatos deixaram de ser feitos apenas em Felgueiras, passando também a ser produzidos numa fábrica na China.

Portugal representa apenas 5% das vendas da empresa — os Estados Unidos são o principal mercado. “Cá ainda há muito o estigma associado ao cânhamo e andamos a tentar explicar às pessoas que não é um bicho-de-sete-cabeças. Antes de ser feita uma droga, foi o cânhamo que nos levou à Índia”, esclarece Bernardo.

Os sapatos custam cerca de 110 euros e estão à venda no site oficial da marca em duas cores (preto e verde seco) com tamanhos do 36,5 ao 48,5. As máscaras custam 12 euros.

Texto editado por Amanda Ribeiro

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