Como é que a indústria do calçado deu a volta à pandemia? Trocando o estilo pelo conforto

Entre Janeiro e Agosto deste ano, as exportações de Portugal — terceiro maior produtor de calçados da Europa depois da Itália e da Espanha — caíram cerca de 17% em relação ao mesmo período de 2019.

Com os casamentos adiados, os eventos sociais e familiares cancelados e as reuniões de trabalho substituídas por videochamadas, a tendência clara em todo o mundo foi a quebra na compra de sapatos, o que atingiu fortemente a indústria de calçado portuguesa, que se especializou em sapatos de couro de alta qualidade — normalmente reservados para grandes ocasiões e ambientes formais de trabalho —, a que corresponde uma grande fatia da exportação.

“Não há discotecas abertas, não há saídas de casais... tudo isso significa cortes em alguns produtos”, constata João Maia, da  Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS)​.

Algumas empresas passaram a fazer calçado mais confortável ​​para usar em casa ou na ida ao supermercado. Alguns adicionaram máscaras e outros equipamentos de segurança às suas linhas de produção. Mas estas mudanças não vão compensar todas as perdas. Entre Janeiro e Agosto deste ano, as exportações de Portugal — terceiro maior produtor de calçados da Europa depois da Itália e da Espanha — caíram cerca de 17% em relação ao mesmo período de 2019.

Portugal exporta mais de 90% do calçado e o sector cresceu cerca de 50% na última década, tendo facturado 1,7 mil milhões de euros no ano passado, após um pico de 2017 de 1,9 mil milhões de euros. 

Agora, os fabricantes estão a adaptar-se para sobreviver. Paulo Martins, sócio da marca de calçado masculino Ambitious, confirma que durante o primeiro confinamento a empresa passou a focar-se em sapatos para ficar em casa ou fazer jardinagem. “As pessoas que se vestiam e calçavam sapatos formais agora trabalham em casa e querem um produto mais confortável”, justifica o empresário que distribui para cerca de 1500 sapatarias de todo o país. Esta mudança acaba por ter uma “grande repercussão” no negócio, acrescenta.

Tempos “assustadores”

Outras empresas, como a ToWorkFor, fizeram mudanças ainda mais radicais. Especializada em calçado de trabalho para a construção civil e outros sectores, a marca transformou uma das suas linhas de produção para fazer máscaras faciais e está a desenvolver outros produtos. “Se algo positivo saiu desta pandemia, é que nos fez olhar para a realidade de uma maneira diferente, ver um potencial onde não víamos antes porque estávamos na nossa zona de conforto”, aponta Orlando Andrade, chefe de marketing da ToWorkFor.

Mas, apesar da inovação e da flexibilidade, os fabricantes acreditam que as encomendas vão continuar a cair. “O volume de pedidos que temos agora não será suficiente para suportar todo o período de produção”, informa Paulo Martins, acrescentando que a empresa também tem de lidar com os problemas com o pessoal, como as ausências devido à pandemia, que pode forçar a fábrica a fechar uma das duas linhas de produção de calçado.

O designer de sapatos de luxo Luís Onofre, cujas criações foram usadas por celebridades como Naomi Watts e Paris Hilton, avança que muitos dos clientes cancelaram os seus pedidos quando a pandemia apareceu. Este é um “período assustador” para o negócio do calçado de luxo, declara.

Marcas como a Onofre contam principalmente com as feiras no exterior para vender aos clientes, mas a maioria destes certames foi cancelada. E, com menos clientela do que o normal, 70% das fábricas optaram por interromper a produção entre Março e Maio, segundo a APICCAPS. “Será extremamente difícil [sobreviver] para a indústria da moda porque durante o Verão os lojistas praticamente não venderam”, diz Onofre. “Estão com excesso de estoque. Se isto continuar e acumularem mais, pode ser o fim de muitas empresas.”