Covid-19 aumenta risco de se ser diagnosticado com ansiedade, depressão ou insónia

Ter covid-19 está relacionado com um risco maior “de desenvolver problemas de saúde mental” (como ansiedade, depressão ou insónia) e esse risco mantém-se mesmo sem internamento. Mas ter uma doença mental também aumenta o risco de infecção por covid-19: as probabilidades aumentam quase 65%, de acordo com um estudo publicado na Lancet.

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Paulo Pimenta

Quem foi diagnosticado com covid-19 tem uma probabilidade maior de ser diagnosticado também com doença mental – sendo a mais comum o transtorno de ansiedade, mas também a depressão e a insónia. Ter um diagnóstico de doença mental prévio pode aumentar o risco de ficar infectado com covid-19. As conclusões são de um estudo publicado na revista cientifica Lancet Psychiatry, que analisou os dados de 62.354 doentes norte-americanos diagnosticados com covid-19.

Já se esperava que a covid-19 tivesse algum tipo de impacto na saúde mental — há vários estudos que a relacionam com sintomas de ansiedade, depressão ou insónias —, mas ainda não havia um estudo a larga escala que o demonstrasse.

Este estudo, da autoria de um grupo de investigadores da universidade de Oxford, no Reino Unido, analisa os dados electrónicos (e anónimos) de mais de 69 milhões de norte-americanos, dos quais 62.354 foram diagnosticados com covid-19 entre 20 de Janeiro e 1 de Agosto. O objectivo era perceber se um diagnóstico de covid-19 estava associado a um risco aumentado de “diagnósticos psiquiátricos subsequentes” e, por outro lado, se o risco de ser diagnosticado com covid-19 podia aumentar devido à existência de uma doença psiquiátrica.

E o que perceberam é que as pessoas que já tiveram covid-19 “têm um risco maior de desenvolver problemas de saúde mental”, afirma Paul Harrison, um dos autores do estudo, à BBC, e esse risco mantém-se mesmo que não tenha sido internado por complicações respiratórias. O especialista admite, no entanto, que as experiências dos doentes noutros países podem ser diferentes

De acordo com o estudo, “a incidência de qualquer diagnóstico psiquiátrico nos 14 a 90 dias após o diagnóstico de covid-19 era de 18,1%, incluindo 5,8% que tiveram o seu primeiro diagnóstico”. Ou seja, os doentes com covid-19 tinham maior risco de também serem diagnosticados com doença mental – pelo menos quando comparados com outros doentes com gripe, infecções cutâneas ou fracturas de ossos. Comparação feita, o risco dos doentes covid-19 era quase o dobro do de outros doentes. 

Os diagnósticos mais frequentes eram os de ansiedade – com uma probabilidade 4,7% maior de diagnóstico, de acordo com o estudo. “Dentro das perturbações de ansiedade, o transtorno de adaptação, ansiedade generalizada e, em menor escala, o transtorno de stress pós-traumático e o transtorno de pânico eram os mais frequentes”, lê-se.

Também os diagnósticos de insónia foram “marcadamente elevados” em doentes com a covid-19, “de acordo com as previsões de distúrbios do ritmo circadiano que se seguem à infecção por covid-19”, lê-se.

Mas, há mais factores que devem ser tidos em conta na interpretação destes dados, como factores socioeconómicos, ou uma probabilidade maior de o doente ter recebido mais acompanhamento médico depois de ter tido covid-19, aumentando as suas hipóteses de diagnóstico de algumas doenças, como a demência, alertam os autores do estudo. 

Doença mental prévia é um factor de risco?

Estes investigadores não tinham antecipado que as doenças psiquiátricas pudessem ser um factor de risco para a covid-19 – mas foram. De acordo com esta análise, o risco aumentado de contrair SARS-CoV-2 verificou-se em pessoas com doença mental de todas as idades, géneros e etnias – e mantém-se mesmo quando “alguns problemas relacionados com a habitação ou outras circunstâncias económicas estavam controlados”, lê-se no estudo. As pessoas com doença mental tinham quase 65% mais hipóteses de serem infectadas com a covid-19, mostra esta análise.

Contudo, os investigadores pedem cautela na leitura destes dados. Como em tudo, há mais factores a ter em conta e os números não mostram todo o cenário. Há vários factores que podem explicar o maior risco: alguns são comportamentais (como uma maior dificuldade em adoptar as medidas de distanciamento social ou uso da máscara) e até mesmo relacionados com o estilo de vida (como o hábito de fumar) que não constam nas bases de dados que foram usadas por estes investigadores. Este risco também pode estar relacionado com a toma de medicação psicotrópica ou com o “estado pró-inflamatório” que se verifica nalgumas doenças psiquiátricas, lê-se.

“Esta descoberta foi inesperada e precisa de maior investigação. Enquanto isso não acontece, ter uma doença mental deve ser listado como um factor de risco para a covid-19”, defende Max Taquet, um dos autores do estudo que falou ao The Guardian.