O fim do século americano

O que se conta a partir do que se diz.

“Havia uma percepção, apesar das não tão pouco frequentes guinadas para a desventura, que a América era, na sua essência, uma força para o bem. O que imbuía os Estados Unidos com a autoridade e a base para a sua projecção era o soft power”. Editorial do The Gleaner, jornal da Jamaica

O regresso ao século XIX

Se não se pode confiar nos Estados Unidos, que assumiram há muito o papel de “garantidores da ordem global, com os seus sistemas assentes em regras” bem definidas, em quem se pode confiar então, perguntava o The Gleaner no editorial de terça-feira, que não poderia ser mais hiperbólico no título: “Na esperança que acabe o pesadelo americano”. Havia fé nas instituições americanas e na sua democracia, mas um mandato de Donald Trump levou à conclusão que a sua agenda, de “a América primeiro, significou uma vontade de destruir a ordem global e substituí-la por um novo arranjo cuja substância exclui a protecção dos países pequenos e vulneráveis”. Aquilo que a América deu ao mundo, explica o editorial do diário jamaicano “é uma versão do século XXI da política das grandes potências do século XIX”. John Adams lembrava que as democracias nunca duravam muito porque se esgotam, cansam e acabam por cometer suicídio e para o The Gleaner, outros quatro anos de Trump podem transformar-se na concretização do pensamento do segundo Presidente dos Estados Unidos. “Tememos pela sobrevivência das instituições americanas”, refere o diário, publicado num país um pouco maior que o estado do Maryland, fundado 30 anos antes da Guerra Civil americana.

Menos respeito e poder

O declínio do soft power norte-americano não é uma consequência directa da eleição de Donad Trump, mas o impacto da sua presidência dos Estados Unidos veio acentuar essa curva descendente. Joseph Nye, o cientista político que cunhou o conceito no final dos anos 1980, é peremptório, em entrevista ao jornal argentino Clarín: “Com Donald Trump, os EUA perderam respeito e poder no mundo”. Trump olha para a política externa com uma visão transaccional, um toma lá dá cá que, ainda por cima, só é completamente satisfatório quando apenas ele sai a ganhar e isso trouxe dissabores para a imagem externa do país, mesmo entre aliados históricos como Japão e Reino Unido. Nye cita sondagens da Gallup e do Pew Reserch Center que mostram uma deterioração de 20% na imagem do país desde 2017. “Os EUA continuarão a ser o país mais poderoso durante as próximas décadas, embora não tanto como antes”, acrescenta Nye, autor de um livro que poderia explicar a Trump O Paradoxo do Poder Americano: Por que é que a Única Superpotência Mundial não pode Actuar Isoladamente. Nye não acredita que os danos sejam irreversíveis, mas terão os EUA de fazer alguma coisa porque a China está a aproveitar a pandemia para melhorar a sua influência no mundo.

Etiqueta e civilidade chinesas

O título da pequena notícia da agência Xinhua mostra o que podemos esperar da política externa chinesa na próxima década, ao revelar os planos de Xi Jinping para conquistar o mundo… para a causa chinesa e para superar os Estados Unidos como superpotência mundial: A China quer aumentar o seu soft power cultural. O objectivo vem descrito no documento de propostas de desenvolvimento do Comité Central do Partido Comunista Chinês que esta semana foi divulgado na totalidade. Para o alcançar, Pequim vai reforçar os seus investimentos nas indústrias culturais de modo a melhorar o poder de influência do país no mundo. “A China deve melhorar a sua etiqueta social e civilidade, melhorar os seus serviços culturais públicos e melhorar o sistema de indústrias culturais modernas”, refere a Xinhua. É uma das políticas do 14.º Plano Quinquenal (2021-2025) para o Desenvolvimento Económico e Social Nacional e dos Objectivos a Longo Prazo até ao Ano de 2035, aprovado na quinta sessão plenária do Comité Central que terminou a 29 de Outubro. Até agora, a China apostou no poder financeiro para arregimentar aliados, mas a imagem do país e a sua reputação externa precisam de melhorar substancialmente para aprofundar o seu poder de influência. O Presidente chinês quer mudar isso.

A fantasia americana desfaz-se

Um estudo do Pew Research Center, divulgado em Setembro, mostra que o número de países com uma opinião favorável dos Estados Unidos desceu para o seu nível mais baixo desde que o centro começou a realizar sondagens sobre o assunto há quase duas décadas. A confiança no Presidente dos Estados Unidos varia entre os 9% da Bélgica e os 25% do Japão. Para Liam Kennedy, professor de Estudos Americanos, da University College Dublin, aquilo a que estamos assistir é ao fim do século americano. “Os EUA funcionam há muito como um espelho global que muitas nações vêem como o epítome da modernidade ao qual comparam o seu ‘progresso’”, refere Kennedy, para quem “a eleição de 2020 se alinha simbolicamente com a mudança do paradigma na ordem mundial, desmontando o domínio ocidental e especialmente americano”. A ideia dos EUA como líder do mundo livre, uma ideia modelada pelo ensaio O Século Americano, de Henry Luce, de 1941, está “a dissolver-se rapidamente” e com ele o excepcionalismo americano. “A fantasia está agora a desfazer-se rapidamente à medida que o século americano chega ao fim”, acrescenta o académico. O que começou com a Guerra Fria termina agora com a implosão das democracias liberais, tomadas desde dentro por um poder populista desrespeitador das instituições que usa sem pudor o poder em seu proveito.