Com milhões de votos por contar, Trump declara vitória e antecipa batalha nos tribunais

Presidente dos EUA não espera pelo final da contagem dos boletins em vários estados norte-americanos — alguns decisivos para o desfecho das presidenciais —, denuncia “fraude” eleitoral e confirma que vai recorrer ao Supremo Tribunal.

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Donald Trump Reuters/CARLOS BARRIA

Com milhões de boletins de voto por contabilizar em vários estados decisivos para o desfecho da eleição presidencial dos Estados Unidos, Donald Trump declarou vitória, denunciou uma “fraude” eleitoral e prometeu recorrer ao Supremo Tribunal para assegurar que não são contabilizados votos “acrescentados mais tarde” por um “grupo triste de pessoas”.

Vídeo: Contagem de votos continua nos EUA. Trump ameaça com Tribunal, Biden pede "paciência"

“Estávamos a preparar-nos para uma grande celebração. Estamos a vencer em todo lado e de repente parou tudo. Isto é fraude para com o povo americano. É uma vergonha para o nosso país. Estávamos prontos para vencer esta eleição. Francamente, vencemos esta eleição. E vencemos por muito”, afiançou o Presidente norte-americano, num discurso ao país.

A tomada de posição de Trump surge numa altura em que Joe Biden vai na frente nos votos para o Colégio Eleitoral, mas quando ainda faltam contabilizar tanto os votos em urna como os votos por correspondência, em estados importantes como a Pensilvânia, o Michigan ou o Wisconsin. 

Trump conseguiu vencer nos principais estados do Sul, como a Florida e o Texas, onde os democratas tinham expectativas de quebrar o domínio republicano, pelo que a eleição passou a concentrar-se nos resultados das votações nos estados do Midwest e na Pensilvânia, tal como no acto eleitoral de 2016. 

Biden, por seu lado, está próximo de garantir o Arizona (onde Trump venceu em 2016). Assim, quem conquistar o Michigan e a Pensilvânia tem grandes possibilidades de ser declarado vencedor das presidenciais.

Ou seja, a declaração inédita e polémica de vitória feita pelo Presidente republicano aparece numa fase da contagem em que continua tudo em aberto e em que existe a possibilidade de os votos por correspondência serem contabilizados até três dias depois das eleições, em alguns estados 

Advogados de Biden “a postos”

Trump prometeu recorrer ao Supremo Tribunal para confirmar este suposto triunfo, denunciando, sem apresentar provas, que há votos a serem depositados ilegalmente, e que há “gente muito triste” a querer “marginalizar o povo americano”.

A equipa jurídica de Joe Biden garantiu, no entanto, que está preparada para o combate que se avizinha na principal instância judicial do país, reforçada recentemente com a juíza conservadora Amy Coney Barrett.

“Se o Presidente avançar com a sua ameaça e for a tribunal para tentar impedir a contagem correcta dos votos, temos equipas jurídicas a postos para resistirem a essa tentativa”, afirmou a gestora de campanha de Biden, Jen O’Malley Dillon, em comunicado.

O comunicado dos democratas é muito duro com o Presidente dos EUA, que é acusado de querer “tirar os direitos democráticos aos cidadãos americanos”, através de uma jogada “escandalosa”.

“[A posição de Trump] não tem precedentes, porque, ao longo da nossa História, nunca um Presidente tentou esvaziar a voz dos americanos numa eleição presidencial. E é incorrecta porque não vai acontecer. A contagem [dos votos] não vai parar. Vai continuar até que todos os votos devidamente lançados sejam contados”, insistiu O’Malley Dillon.

Horas antes do discurso do Presidente, Biden já tinha defendido que não compete ao candidato republicano declarar o vencedor da contenda, mas apenas ao eleitorado.

“Aspirante a ditador”

Como previsto, e uma vez que não houve lugar a uma “onda azul” que pudesse encaminhar o Partido Democrata para uma vitória tranquila, ​o desfecho da mais polarizada e tensa eleição norte-americana das últimas décadas promete arrastar-se durante vários dias ou semanas

As reacções às declarações de Donald Trump não se fizeram esperar. Vários analistas e comentadores políticos foram muito críticos com o Presidente, mas reforçaram que ninguém foi propriamente apanhado de surpresa por esta tomada de posição.

“Estamos a ouvir um aspirante a ditador. Pode não conseguir vir a sê-lo, mas é isso que ele é. Esta é uma tentativa de golpe e pode resultar em violência”, disse Bart Bonikowski, sociólogo na New York University, especialista em estudos de cultura e política, no Twitter.

“Como se esperava, acusou falsamente pessoas nefastas de lhe estarem a roubar a eleição. Reclamou vitória na Carolina do Norte e na Georgia, apesar de não se saber ainda quem venceu nos dois estados. Era este o plano desde o início”, considera David Axelrod, antigo estratego de Barack Obama e director do UChiPolitics.

“Depois do que ele disse, os advogados de Trump terão agora de defender o conceito de os votos não serem todos iguais, de o voto de uma pessoa não valer o mesmo que o de outra. O que é inconsistente com a cláusula de protecção igualitária”, afirmou, por sua vez, Jonathan Allen, analista da NBC News.