Morreu Kalidás Barreto, co-fundador da CGTP e antigo deputado do PS

Sindicalista e antifascista, de 88 anos, morreu nesta sexta-feira em Castanheira de Pera.

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Miguel Manso

O sindicalista Kalidás Barreto, que há 50 anos foi um dos fundadores da CGTP, morreu nesta sexta-feira, após de doença prolongada que o afastou da vida pública nos últimos anos.

Luís Maria Kalidás da Costa Barreto, antifascista de 88 anos, morreu ao início da tarde na sua residência, em Castanheira de Pera, avançou a Lusa.

Filho do intelectual republicano de origem goesa Adeodato Barreto, Kalidás nasceu em Montemor-o-Novo, a 16 de Outubro de 1932, distrito de Évora, mas muito jovem radicou-se com a família em Castanheira de Pera, onde trabalhou como contabilista em diversas fábricas têxteis.

Participou em iniciativas de oposição à ditadura de António Salazar e Marcelo Caetano, designadamente como membro da comissão de apoio à candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República, em 1958, e como organizador da Oposição Democrática na Castanheira de Pera, nas eleições de 1969.

Em 1975, na sequência da Revolução do 25 de Abril de 1974, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, nas listas do PS.

Desvinculou-se deste partido e participou, em 1978, na fundação da União da Esquerda para a Democracia Socialista (UEDS), vindo mais tarde a reaproximar-se do PS.

Em 2004, no âmbito das comemorações do 30.º aniversário do 25 de Abril, foi agraciado pelo Presidente da República Jorge Sampaio com o grau de grande-oficial da Ordem da Liberdade.

Após ter participado activamente na criação da Intersindical Nacional, mais tarde Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), em 1970, Kalidás liderou o Sindicato dos Têxteis do Centro, foi dirigente nacional da CGTP e conselheiro técnico de missões portuguesas à Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Colaborou na imprensa regional, sobretudo em jornais de Castanheira de Pera e dos concelhos vizinhos de Figueiró dos Vinhos e Lousã, foi provedor do associado do Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres (INATEL) e tem vários livros publicados.

Promotor cultural na Castanheira de Pera, defensor do intermunicipalismo, foi homenageado em 2019 no sítio comunitário do Santo António da Neve, no âmbito do Encontro dos Povos da Serra da Lousã, do qual foi um dos fundadores, em 1997, por proposta do jornal Trevim, da Lousã, no qual colaborou vários anos.

O presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, manifestou hoje “enorme tristeza” pela morte do antigo deputado constituinte. “Antifascista, pensador, sindicalista e deputado à Assembleia Constituinte, tinha por ele, desde os anos setenta do século passado, uma grande admiração e amizade”, refere a segunda figura do Estado, numa mensagem de pesar.

Ferro Rodrigues recorda Kalidás Barreto como “uma indiscutível referência da luta pelas causas e os direitos dos trabalhadores”.

O coordenador do Observatório sobre Crises e Alternativas, José Reis, realçou o “passado de muita luta e sabedoria” do sindicalista e recordou que o conheceu na década de 1970, em Coimbra, no contexto de uma iniciativa pública em cuja organização esteve envolvido como dirigente estudantil, na qual Kalidás foi um dos oradores.

“Kalidás Barreto tinha características que nessa época fascinavam qualquer jovem militante: experiência, passado de muita luta e sabedoria”, sublinhou José Reis, lembrando que “tinha uma enorme vivacidade e foi uma lufada de ar fresco em determinado momento”, na política e no sindicalismo.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis, Lanifícios e Vestuário do Centro, Fátima Carvalho, recordou que Kalidás Barreto “presidiu durante muitos anos” à assembleia geral desta organização, com sede em Coimbra.

“Estou muito triste”, declarou Fátima Carvalho à Lusa, enaltecendo o papel que o seu “amigo e camarada” desempenhou no sector têxtil, como sindicalista, mas também enquanto co-fundador e dirigente nacional da CGTP durante décadas.

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