ColorADD: o “medicamento” para daltónicos nasceu há 20 anos e circula há dez

O código criado por Miguel Neiva está presente em mais de 90 países e existe porque “a sociedade se esqueceu dos daltónicos”.

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Miguel Neiva trabalhou durante oito anos com 146 daltónicos de todo o mundo para criar o código Adriano Miranda

O primeiro “medicamento” criado por um designer foi pensado há 20 anos e é “consumido” há dez. Presente em mais de 90 países, o código da ColorADD destina-se a daltónicos e já chegou a 100 mil pessoas através das escolas. O código “único, inclusivo, universal e transversal” traduz-se na associação das cores primárias (azul, amarelo e magenta) a formas geométricas (triângulos e diagonais).

“Sempre achei que o design é muito mais do que criar objectos bonitos. O design tem a capacidade de, ao criar, fazer a vida melhor para alguém”, afirma Miguel Neiva, o designer português que criou o sistema de identificação de cores com o objectivo de incluir quem tem dificuldades em as interpretar.

O daltonismo é uma limitação não visível, incurável, transmitida hereditariamente e que afecta cerca de 350 milhões de pessoas em todo o mundo, maioritariamente homens. O designer explica que “há diversas maneiras de perceber a cor”. Ou seja, “não há dois daltónicos iguais”. “Há quem confunda verdes, vermelhos e laranjas e quem confunda azuis e verdes, ou malta que nasce a ver a preto e branco”, acrescenta. Assim, o objectivo da sua criação foi “introduzir qualidade de vida”.

Para Miguel Neiva, a ColorADD existe porque “a sociedade se esqueceu dos daltónicos” até que um dia um designer português resolveu criar um código motivado pela “paranóia de poder chegar a uma gráfica e aprovar uma imagem errada por não distinguir bem as cores”. Hoje esse código está espalhado pelo mundo em cerca de cinco milhões de lápis de cor e mais de 100 milhões de etiquetas de roupa.

“Mas não de forma intrusiva, caso contrário correr-se-ia o risco de criar confusão e contribuir para o estigma associado aos daltónicos”, diz Miguel Neiva.

Para desenvolver a tese que deu origem à ferramenta, que apresentou há 12 anos, na Universidade do Minho, Miguel Neiva — que não é daltónico e antes de fazer o código conhecia dois entre os seus contactos pessoais — trabalhou durante oito anos com 146 daltónicos “de todo o mundo para despistar a questão cultural”, bem como com especialistas, cirurgiões oculares, oftalmologistas e professores universitários.

A primeira marca que o implementou foi a CIN, nas suas tintas. Seguiu-se a Viarco, dos lápis de cor. Contudo, a ideia nem sempre foi aceite à primeira. “Em 2014 contactei a Mattel [referência internacional no mercado de jogos didácticos] Portugal, mas o projecto não foi levado à casa-mãe. Era inovador, era como levar sushi a casa dos avós” compara o designer"Em 2017 foi a Mattel 'mãe’ dos Estados Unidos que nos contactou porque queria criar um UNO, o mais famoso jogo de cartas do mundo, inclusivo. Só no mercado americano, no primeiro ano, a Mattel aumentou as vendas em 66%. Mais de 70 canais de televisão noticiaram um produto que gerou um milhão de mensagens nas redes sociais”, recorda.

Hoje, o código está associado a cerca de 300 empresas e entidades, públicas e privadas, bem como a produtos de vários sectores ou a 500 quilómetros de costa balnear, graças à introdução dos símbolos nas bandeiras, entre outros. O São João, no Porto, foi o primeiro hospital a usar o código na identificação dos seus circuitos. Nos transportes, há linhas de metro no Porto e de autocarros em Lisboa com o sistema que inclui quem não distingue cores. O Metro de Madrid usa a ColorADD no seu programa de acessibilidades.

O dia-a-dia com as cores trocadas

No percurso até ao código, Miguel Neiva arrecadou vários exemplos de como a doença afecta o dia-a-dia de quem vive com ela.

“Um padre disse-me que deixou de ter problemas no dia em que se ordenou porque passou a vestir preto e branco, mas que não tinha dúvidas de já ter feito o funeral de alguém com um paramento de cor errada”, relata. Noutra história, explica que “uma senhora todos os dias sentia o posto de trabalho em perigo porque o patrão enviava ficheiros e a verde seguia o que era para pôr e a vermelho o que era para tirar”.

Paralelamente à implementação em produtos, o projecto desdobrou-se na ColorADD Social, uma organização sem fins lucrativos que tem como objectivo levar o código às escolas.

“Foram as minhas filhas que me ensinaram a fazer reciclagem. Também são as crianças de hoje que vão ensinar os pais que é possível ser inclusivo. Não havendo cura, o estigma começa em idade escolar no bullying exercido pelo professor que se zanga com o aluno que não soube pintar a árvore de verde ou não interpretou um gráfico num teste de geografia”, defende Miguel Neiva.

Criada em 2014, a ColorADD Social organizou 260 bibliotecas municipais e escolares, fez mais de 32 mil rastreios de daltonismo no 1.º ciclo e promoveu 3000 acções de sensibilização e capacitação. “Já há manuais escolares que ensinam o código em Portugal, Espanha e no Brasil. E em 2014, a pedido do Ministério [da Educação] os exames nacionais introduziram o código”, reconta. “O daltonismo era um não-assunto e agora é valorizado. Em 2011, a 15 dias do início do campeonato, a Liga [de Clubes] reconsiderou a cor da bola e nunca se fez um jogo com a que estava prevista. O risco era confundir a bola [laranja] com a relva [verde]”, descreve Miguel Neiva.

Na calha, entre projectos com um clube de futebol, com uma farmacêutica ou com um dos maiores hospitais brasileiros, destaca-se uma parceria com a Embaixada de Portugal no Senegal que “vai servir de teste-piloto para que o código venha a ser introduzido na identificação de circuitos, documentos e eventos de outras embaixadas” ou a participação na Expo Dubai adiada para 2021 devido à pandemia da covid-19.

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