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Precisamos de um Exército pelo ambiente?

Um Exército pelo ambiente, em Portugal ou na Europa, seria a face visível de um esforço para reinventar o nosso estilo de vida, coordenando a sua acção com acções de voluntariado ou iniciativas cidadãs.

Neste Dia do Exército Português, que se assinala a 24 de Outubro, lembra-se o papel do Exército na resposta à pandemia: houve acções de descontaminação, distribuíram-se refeições, montaram-se centros de acolhimento e hospitais de campanha. As Forças Armadas mostraram como fazer a diferença quando surge um desafio inesperado. Mas neste ano surpreendente, outros desafios vão dar que falar. É o caso da crise climática, que segundo António Guterres, Secretário-Geral da ONU, é muito mais grave do que a pandemia: não há vacina capaz de trazer de volta o clima da nossa infância, o compasso das quatro estações e os glaciares imponentes do passado. 

O nosso desconhecimento sobre a extensão das alterações climáticas é, em si mesmo, uma fragilidade. Ignoramos até que ponto, e em que momento iremos mudar as nossas rotinas. Têm sido batidos recordes sucessivos de temperatura global, quase ano após ano, e tudo aponta para que os efeitos de um clima em mudança sejam cada vez mais expressivos. Poder-se-á dizer que o estudo das variações do clima é um assunto de climatólogos. Que devem ser os biólogos a avaliar o estado da biodiversidade. Que devem ser os cidadãos a exigir novas políticas climáticas. Mas até que ponto as alterações climáticas são problema de soberania nacional?

Várias ilhas-estado do Índico e do Pacífico já vêem na subida do nível do mar uma ameaça existencial: são países que, estando em média menos de dois metros acima do nível do mar, poderão desaparecer em décadas. Mas a subida do nível do mar é um problema global, que afecta todos os países com linha costeira, em que as praias recuam e a superfície terrestre diminui.

A ameaça de termos um clima irremediavelmente diferente, num planeta irreconhecível, é verdadeiramente global. Tal como os vírus não têm passaporte, uma tempestade não encontra fronteiras. É precisamente nesse sentido que os exércitos nacionais podem fazer a diferença: proteger e a adaptar as linhas costeiras, responder em caso de catástrofe ou sensibilizar a população. No caso português, faria pouco sentido celebrar oito séculos de história (e de Exército) sem proteger um dos recursos mais valiosos: o solo fértil. Porque, depois de centenas de anos em que as árvores deixam no solo ramos e folhas, enfim, matéria orgânica, um incêndio ou desmatamento inconsciente podem fazer com que a terra arável se perca na enxurrada de uma tarde, obstruindo rios que antes suportavam vida e provocando cheias pelo caminho.

O combate à erosão é, precisamente, uma das missões em que o Exército pode ajudar: na instalação de estruturas ou de troncos de árvore que contrariem a fúria das águas ao descer a encosta. O Exército já tem desenvolvido vários projectos ambientais, onde se inclui naturalmente o combate aos incêndios. Mas a defesa do ambiente pode ser, por si só, um projecto mobilizador do Exército. O que está em causa é muito mais do que uma renovação da imagem: é também uma nova visão do território. Sem prejuízo das alianças militares, haverá boas oportunidades para criar novas formas de diálogo além-fronteiras, disseminar boas práticas e partilhar conhecimento. Um Exército pelo ambiente, em Portugal ou na Europa, seria a face visível de um esforço para reinventar o nosso estilo de vida, coordenando a sua acção com acções de voluntariado ou iniciativas cidadãs. Há uma nova geração capaz de se mobilizar pelo clima, pela vida no planeta, de se identificar com o território.

É claro que um Exército pelo ambiente em nada impede que as Forças Armadas continuem a adaptar-se, respondendo às novas ameaças: do terrorismo à pirataria informática. Mesmo que os cenários não se verifiquem, a preparação para qualquer eventualidade aumenta a confiança nas instituições e na sociedade em geral. É certo que, se o Exército cuidar do ambiente, o combate não terá fim à vista. Mas os problemas ambientais que enfrentamos também são uma oportunidade para esbatermos as nossas diferenças e defendermos a vida no nosso planeta.

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