Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Fruta Feia vence prémio europeu Life. É a prova que “funciona”

Projecto venceu dois galardões europeus. É uma “grande vitória”, considera a fundadora Isabel Soares. Prova “que é possível combater o desperdício alimentar devido à aparência”, através de uma “cooperativa de consumo em que a responsabilidade está do lado dos consumidores”.

A Fruta Feia venceu na quarta-feira, 21 de Outubro, o prémio Life da União Europeia na categoria de Ambiente. A cooperativa, inserida no projecto FLAW4LIFE, foi galardoada pela União Europeia pelo seu papel no combate ao desperdício alimentar e por “mudar hábitos de consumo, criando um mercado alternativo para fruta e vegetais que são demasiado pequenos, demasiado grandes ou demasiado feios para serem vendidos” em grandes superfícies.

Além de trazer para Portugal o prémio Life, a FLAW4Life também arrecadou o Citizen; segundo o projecto, é a primeira vez que uma iniciativa vence dois prémios Life na mesma edição.

Para Isabel Soares, fundadora da Fruta Feia, o reconhecimento é uma “grande vitória”, pois não só premeia os resultados que superaram todas as expectativas, mas é também a prova de que “o modelo funciona, que é possível combater o desperdício alimentar devido à aparência”, através de uma “cooperativa de consumo em que a responsabilidade está do lado dos consumidores”.

Por semana, a Fruta Feia evita o desperdício de 15 toneladas de fruta e leguminosas por semana; em seis anos, foram poupadas duas mil toneladas de alimentos. O aproveitamento de fruta e legumes que iriam para o lixo, por não serem bons para ir para os supermercados, rendeu aos agricultores que trabalham com a Fruta Feia cerca de um milhão de euros.

Mas o projecto não quer parar por aqui. Ao P3, Isabel Soares salienta que “a única forma de aumentar o impacto ao nível da redução do desperdício alimentar é através da abertura de novos pontos de entrega”. “Trinta por cento do que é produzido pelos agricultores é desperdiçado devido à aparência e, portanto, ainda há muito trabalho para fazer”, diz a mentora da cooperativa.

A Fruta Feia nasceu em 2013 e, sob o mote “Gente bonita come fruta feia”, já conta com 250 produtores e seis mil consumidores, que recolhem os seus cabazes de frutos e vegetais em 12 pontos de entrega no país. E ainda há 20 mil pessoas inscritas no site em lista de espera.

Este ano, devido à pandemia, o projecto não deve aumentar de tamanho. Mas no próximo ano, avisa a fundadora da cooperativa, o objectivo passa por abrir mais pontos de entrega, logo no início do ano.

Fruta Feia quer continuar a inspirar além fronteiras

O combate ao desperdício alimentar é uma bandeira que deve ficar hasteada muito tempo. Mesmo que as grandes cadeias de supermercados e hipermercados olhem para a luta da Fruta Feia como inspiração e decidam começar a vender fruta e legumes que não têm o melhor aspecto, Isabel Soares não se mostra preocupada, muito pelo contrário.

“O objectivo máximo da Fruta Feia é mesmo mudar este paradigma de consumo de que a qualidade se mede pela aparência. Se os supermercados começarem a comercializar a fruta e os hortícolas independentemente da sua aparência, nós não ficamos sem trabalho: simplesmente, o nosso trabalho foi feito e a batalha foi ganha”, afirma a fundadora da cooperativa.

Além de operar em Portugal, a FLAW4Life também trabalha com associações semelhantes, que procuram diminuir o desperdício alimentar em países como Holanda e Brasil. Nos Estados Unidos, conta Isabel Soares, surgiu uma empresa “inspirada” na Fruta Feia e acabou por criar um modelo semelhante.

“Outro objectivo é inspirar o resto do mundo: damos apoio a associações de outros países que querem montar um modelo semelhante ao nosso, para que esta luta contra o desperdício alimentar devido à aparência se espalhe pelo mundo”, refere a mentora da Fruta Feia.

O projecto é também a primeira cooperativa europeia a ser financiada pela União Europeia, uma distinção que, para Isabel Soares, foi apenas a primeira “vitória”. “Nós introduzimos uma vaga no tipo de entidades que recebem este financiamento. Na altura, éramos uma estrutura muito pequenina, tínhamos apenas três trabalhadores e três pontos de entrega dos nossos cabazes”, recorda.

Em 2015, a União Europeia contribuiu com 275 mil euros para os três parceiros do projecto — além da Fruta Feia, também a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto Superior Técnico participaram na cooperativa.

Os prémios LIFE para as categorias de Natureza e Clima foram entregues aos projectos Dinalp Bear (Eslovénia) e FIRELIFE (Hungria), respectivamente. O primeiro procurou monitorizar as populações ameaçadas de ursos pardos nos Alpes Dináricos e nos Alpes Orientais-Sul; já o projecto Firelife trabalha na prevenção de fogos florestais, informando professores, agricultores, peritos em prevenção de fogos, entre outros trabalhadores.

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