Editorial

Papa, uniões gay e Igreja Católica

Francisco acabou de atravessar uma espécie de Rubicão no seu papado. Já não é só acolher os gays, é defender a sua organização familiar em moldes mais ou menos idênticos aos casamentos entre homem e mulher, que os católicos encaram como um sacramento.

E o Papa lançou ontem uma bomba: Francisco, o chefe da Igreja Católica que mais se tem esforçado por acolher gays e famílias gay na congregação, defende a legalização de uniões civis de homossexuais. As palavras do Papa, que vão expressamente contra a posição actual da Igreja, aparecem num documentário apresentado ontem em Roma que tem o seu nome – Francesco. Desta vez, o discurso de Francisco é inequívoco e dificilmente abre espaço a que os serviços de imprensa do Vaticano venham temperar a coisa a não ser para dizer o óbvio: o que o Papa disse não corresponde à doutrina oficial da Igreja.

E é verdade que não corresponde. Francisco esteve entre os “perdedores” no Sínodo de Outubro de 2014, quando os parágrafos do documento preparatório que defendiam uma maior integração dos gays na Igreja Católica não obtiveram a maioria de dois terços necessária à sua aprovação. Os bispos reunidos em Roma, na altura, não aceitaram que ficasse escrito que os homossexuais tinham “qualidades a oferecer à comunidade cristã”. Só foi aprovado que a discriminação contra gays “deve ser evitada”.

Mas Francisco nunca foi tão longe como nesta sua entrevista: “Os homossexuais têm direito a viver em família”; “São criaturas de Deus e têm direito a uma família”; “O que temos de criar é uma lei de união civil. Dessa forma, estarão legalmente protegidos”. E, no documentário, diz ainda que já defendeu as uniões civis, provavelmente quando se discutiu o casamento gay na Argentina, aprovado em 2010. Na época, Bergoglio era cardeal de Buenos Aires e fez campanha contra a legalização do casamento.

Francisco é o chefe da Igreja Católica, mas não é a Igreja Católica – a prova disso foi a sua derrota no Sínodo de há seis anos. Os mais cínicos, como o correspondente da BBC em Roma, dirão que Francisco segue uma linha de fazer pronunciamentos que agradam aos mais liberais, enquanto vai mantendo mais ou menos intacta a ordem tradicional da Igreja Católica.

Contudo, as coisas movem-se, mesmo numa instituição conservadora. Francisco acabou de atravessar uma espécie de Rubicão no seu papado. Já não é só acolher os gays, é defender a sua organização familiar em moldes mais ou menos idênticos aos casamentos entre homem e mulher, que os católicos encaram como um sacramento. Estamos a assistir a um corte epistemológico no Vaticano, contra as leis até agora aprovadas pela congregação. Francisco abre o caminho para que a Igreja Católica não se divorcie totalmente do mundo que quer doutrinar.

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