Pela primeira vez, Papa Francisco defende uniões de facto para casais homossexuais

Francisco defende, num documentário, a criação de uma lei da união civil que abranja os casais homossexuais.

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Papa Francisco ANGELO CARCONI/EPA

O Papa Francisco defendeu a regulação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, dizendo que os “homossexuais têm direito a fazer parte de uma família”. As declarações do chefe da Igreja Católica representam a demonstração mais forte de apoio aos direitos LGBT e marcam uma distância considerável em relação às posições tradicionais do Vaticano.

Francisco já tinha manifestado intenção de se aproximar dos crentes homossexuais e de promover o seu acolhimento pela Igreja Católica. Porém, esta é a primeira vez que defende publicamente a união civil entre pessoas do mesmo sexo, dizendo-o abertamente.

“O que precisamos é de uma lei de união civil. Dessa forma, estão legalmente assegurados. Defendi isso”, disse o Papa, durante um documentário que estreou esta quarta-feira em Itália e cujas declarações foram divulgadas pelo site Catholic News Agency.

“Os homossexuais têm o direito de fazer parte de uma família. Ninguém deve ser deixado de fora ou sentir-se arrasado por causa disso”, afirmou Francisco.

A posição do Papa foi revelada durante o documentário Francesco, que estreou esta quarta-feira no Festival de Cinema de Roma. O filme incide sobre a forma como o Papa, escolhido em 2013, aborda questões sociais, sobretudo entre aqueles que vivem “nas periferias existenciais”, explica a Catholic News Agency.

Havia uma grande expectativa de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse abordado durante o sínodo da família, em 2015, mas não houve desenvolvimentos. Na altura, o Vaticano vivia uma “guerra surda” entre as alas conservadora e progressista, onde Francisco se insere. Nessa altura, o Papa afirmou que “não deve haver nenhuma confusão entre a família desejada por Deus e outros tipos de união”.

“Penso que é um grande passo em frente”, disse ao The Washington Post o reverendo James Martin, que há muito defende o acolhimento de homossexuais na igreja. “No passado, até as uniões civis eram olhadas de lado em vários quadrantes da igreja. Ele está a pôr o seu peso a favor do reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo”, acrescentou.

Quando era arcebispo de Buenos Aires, Francisco opôs-se aos planos do Governo de aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas mostrou-se favorável a outro tipo de reconhecimento legal. No livro On Heaven and Earth, publicado em 2013, o Papa não rejeitava a possibilidade de reconhecimento de uniões civis, mas defendia que leis que “equiparam” uniões homossexuais a casamentos são uma “regressão antropológica”.

As declarações de Francisco podem não marcar uma alteração imediata da doutrina da Igreja Católica em relação ao acolhimento de homossexuais, mas representam uma abertura e uma mudança de mentalidades. O seu antecessor, Bento XVI, descrevia a homossexualidade como um “intrínseco mal moral”.

Em 2003, a Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé, então chefiada pelo cardeal Joseph Ratzinger, determinava que “o respeito pelos homossexuais não pode levar, em caso algum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal de uniões homossexuais”.

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