Hortas de Lisboa conta como em 800 anos se cultivou (n)uma cidade

Exposição no Museu de Lisboa conta a história de como a cidade cultivou os seus terrenos ao longo dos séculos mas funciona sobretudo como um incentivo à acção.

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Não foi assim há tanto tempo que a agricultura foi expulsa do centro de Lisboa. No início do século XX, vários bairros hoje populosos e dominados pelo betão apresentavam autênticos cenários campestres, com hortas, pomares e vinhedos, desafiando a imaginação aos lisboetas de 2020.

Apesar disso, comenta Joana Sousa Monteiro, a evolução histórica das hortas da cidade nunca tinha merecido especial atenção. Mas com as questões alimentares e ambientais na ordem do dia e a procura por espaços de cultivo a exceder largamente a oferta, o trabalho impunha-se. “E porque não fazemos a história das hortas?” foi a pergunta que se fez no Museu de Lisboa, “há mais de três anos”, quando a equipa se propôs a “conhecer melhor os lisboetas de hoje”.

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Daniel Rocha

Descobrir quem são e o que motiva os actuais hortelãos da cidade e perceber porque é longa a fila de espera por um pedaço de terra levou Daniela Araújo, Joana Sousa Monteiro e Mário Nascimento a procurar pelos agricultores de outrora e pela forma como as hortas moldaram a paisagem urbana durante séculos.

O resultado está à vista a partir desta sexta-feira no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta (Campo Grande), na exposição Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI, que terminará em Setembro do próximo ano e ainda há-de dar origem a um catálogo que se pretende que “seja uma publicação de fundo sobre o tema”.

Daniela Araújo, antropóloga do museu e comissária da exposição, passou parte dos últimos anos a entrevistar pessoas que cultivam os seus legumes nos parques hortícolas da Câmara de Lisboa, em hortas espontâneas e hortas escolares. Mais do que um perfil, encontrou motivações. “Muitas vezes as pessoas não referem que têm a horta por subsistência, mas reconhecem a vantagem económica de cultivar. Todos os hortelãos com quem falámos referem a mesma coisa: o bem-estar que sentem numa horta.”

A exposição tem mais futuro do que passado. Para além de mostrar uma sequência cronológica de como se cultivou Lisboa ao longo de 800 anos, é uma chamada à acção e um manual de instruções. Há um núcleo titulado “Ferramentas para uma horta na cidade” e o nome não engana, é mesmo para ensinar aos visitantes como também eles podem criar uma horta na varanda, no terraço, no logradouro ou na cozinha lá de casa. O núcleo seguinte, “A minha horta – O meu mundo”, apresenta os sons, as cores e os testemunhos de quem já se dedica ao cultivo, funcionando como um piscar de olho aos desejosos de pegar na enxada.

O núcleo final, “O dom e o devir das sementes”, é o regresso ao princípio. “A origem de tudo está, e estará sempre, na semente”, afirma Joana Sousa Monteiro junto a uma casa de madeira onde estão depositadas sementes de espécies cultivadas em Lisboa – abóboras, ervilhas, feijões, alhos, rúcula e um sem-fim de hortaliças. Mesmo à saída, uma instalação pendurada no tecto contém 500 das chamadas bombas de sementes. “Irá ser desmontada no último dia da exposição e vamos convidar os visitantes a levarem consigo. É uma mensagem que o museu envia”, afirma Daniela Araújo.

Ir às hortas

Mas dêem-se uns passos atrás. Se hoje “há cerca de 770 talhões” nos parques hortícolas da autarquia e 76 escolas com hortas, segundo números da comissária, o espaço para a agricultura em Lisboa já foi muito maior. Tendo em conta que a área construída da cidade se expandiu quase ininterruptamente desde a Idade Média até ao fim do século XX, não surpreende. Mas, mesmo com todas as transformações urbanas, “há uma certa constância em relação aos modelos de hortas”, explica Joana Sousa Monteiro.

Os conventos e mosteiros medievais da cidade dispunham dos seus terrenos mais férteis, os que ladeavam as grandes ribeiras nos vales da Av. da Liberdade e da Av. Almirante Reis, para aí cultivar alimentos e ervas usadas na elaboração de produtos farmacêuticos. No tratado Tacuinum Sanitatis, original árabe do século XI que mais tarde seria difundido na Europa, já se “refere a horta como espaço de bem-estar e remete-se para uma horticultura terapêutica”, faz notar Daniela Araújo, sublinhando as similitudes com os hortelãos de hoje.

O gosto pelo cultivo, nem sempre movido pela necessidade, levará ao surgimento de almanaques e lunários que ajudam o agricultor a escolher as melhores sementeiras para cada época do ano. “No século XIX, com o advento da impressão em modos mais económicos, o conhecimento técnico-científico é divulgado pela Europa de uma forma mais rápida e eficaz”, explica Mário Nascimento, co-comissário da exposição.

Até que, no advento dos anos 1900, torna-se uma verdadeira moda fazer passeios às hortas, localizadas “nos pontos de ligação à cidade”, para fazer piqueniques. No seu livro Volúpia, de 1939, Albino Forjaz de Sampaio fala desses tempos com saudade: “Era moda ter uma amante espanhola, andar a cavalo, fazer parte de um grupo de moços de forcado e ao domingo ir para as hortas, ou para um dos inúmeros retiros que então havia, enxugar uns litritos do roxo com uma caldeirada daquelas que só pelas suas amaviosidades olfactivas são capazes de ressuscitar um morto.”