Ratched é a prequela de Voando Sobre Um Ninho de Cucos que ninguém pediu — agora com torture porn

Evan Romansky e Ryan Murphy dão (talvez demasiados) toques de terror a uma série que não chega perto do filme de Miloš Forman.

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A protagonista é interpretada por Sarah Paulson (12 Anos Escravo ou American Horror Story) DR

Voando Sobre Um Ninho de Cucos (1975) será para muitos um dos melhores filmes de todos os tempos. Uma adaptação do romance homónimo (1962) de Ken Kesey com um elenco de qualidade indiscutível — Jack Nicholson no absolutamente brilhante papel de Randall McMurphy, William Redfield (que foi diagnosticado com leucemia durante as rodagens e morreu não muito tempo depois), Sydney Lassick, Danny DeVito, Christopher Lloyd (na sua estreia cinematográfica, dez anos antes de Regresso Ao Futuro) e Louise Fletcher, que deu vida à tirânica enfermeira Ratched —, a longa-metragem do realizador checo Miloš Forman é um extraordinário ensaio sobre a vida dentro de uma instituição psiquiátrica e o que fazem as regras impostas pelos seus responsáveis aos pacientes que as mesmas deviam ajudar.

Ratched, série de oito episódios que a plataforma de streaming Netflix estreou a 18 de Setembro, dificilmente conseguirá gozar do mesmo estatuto de clássico tão cedo. É uma pena que a associação à obra-prima de Forman comece e acabe no nome: esta história das imaginadas “origens” de uma das personagens mais autoritárias e destrutivamente intransigentes que o grande ecrã alguma vez já viu nunca parece revelar grande interesse no material que poderia reconhecer como inspiração, oferecendo em vez disso pouco mais do que demonstrações vãs de “shock value” e “torture porn”.

Esta tentativa de prequela, criada pelo “novato” Evan Romansky e desenvolvida por Ryan Murphy (Nip/Tuck, Glee, American Horror Story ou, mais recentemente, Hollywood), dá-nos uma jovem Mildred Ratched (Sarah Paulson, conhecida por 12 Anos Escravo e pelas 11 personagens que interpretou em American Horror Story) na década de 1940, marcada pelo que teve de testemunhar enquanto enfermeira na Segunda Guerra Mundial. Mas o trauma não se fica por aqui: ainda no primeiro episódio, ficamos também a saber que a protagonista foi abandonada pelos pais em criança, percorrendo casas de acolhimento com o irmão na adolescência e sofrendo vários maus tratos.

Com um percurso tão acidentado como este, quase podíamos perceber de onde vêm a raiva e a sede de poder que acabam por desaguar na Ratched de Louise Fletcher. E o problema é justamente esse: o abuso torna-se conveniente para Romansky e Murphy, que, julgam, não precisam de explicar mais nada. Pior, convencem-se de que podem apresentar a sua premissa com, nas ocorrências mais graves (e não são poucas, infelizmente), total falta de delicadeza (há, no sexto episódio, uma cena particularmente longa e controversa com um espectáculo de marionetas que mostrará onde queremos chegar — e que, por respeito àqueles que ainda não viram esta série, não explicaremos em demasia).

Mais sangue do que personagens

A preguiça dos argumentistas não é menos pronunciada no hospital psiquiátrico de Lucia State, que o governador George Wilburn — clássico “rico, poderoso e cabeça oca” que não poderia ser mais “rico, poderoso e cabeça oca” se o actor Vincent D’Onofrio tentasse — descuidadamente ignora até Gwendolyn Briggs (Cynthia Nixon, um dos pontos não-negativos de Ratched, se é que isso é um elogio), responsável pela sua campanha presidencial, alertar que a defesa da reabilitação mental pode ser a chave do seu sucesso nas mesas de voto.

Ratched serve-se do seu dom supremo — manipulação — para ganhar um posto de trabalho no centro médico, coordenado por Richard Hanover (o filipino Jon Jon Briones, que também faz o máximo que pode com o material à mão), depois de a instituição acolher o assassino em série Edmund Tolleson (Finn Wittrock), que matou quase uma mão cheia de padres. As suas lutas com a enfermeira Betsy Bucket (a veterana Judy Davis) por um lugar de confiança no topo da pirâmide hierárquica salvam alguns dos episódios — se não falarmos da aparentemente interminável discussão que as duas têm à custa de um pêssego, pelo menos —, mas é desapontante que Romansky e Murphy não “percam” mais tempo com as suas interacções com os pacientes. A cena em que Ratched projecta o seu trauma pessoal na vida de um dos internados, influenciando gravemente as suas decisões, será a que mais corresponderá às expectativas dos fãs de Voando Sobre Um Ninho de Cucos — por mais que aqui falte a subtileza do filme de Forman —, mas, de resto, esta prequela contenta-se com o horripilante e o sangrento.

Há picadores de gelo e tesouras em olhos, brocas em cérebros, “you name it”. Um dos momentos-chave surge quando o hospital apresenta ao governador Wilburn uma demonstração de uma lobotomia, procedimento através do qual Hanover pretende fazer avanços sem precedentes na cura de “doenças” como a “loucura”, a perda de memória e o “lesbianismo” — os anos 1940 em todo o seu esplendor. A experiência corre mal — mostrando todas as entranhas que pode mostrar no processo —, mas o caso nem afecta os espectadores. Em Voando Sobre Um Ninho de Cucos, a primeira ameaça de lobotomia importava pelas implicações que ela podia ter naquele grupo de doentes, pelo golpe sem misericórdia que a “neutralização” do seu novo companheiro e “líder” poderia representar (é de se sublinhar que a longa-metragem consegue comunicar isso mesmo sem sentir a necessidade de filmar cabeças furadas a cada par de minutos). Em Ratched, Evan Romansky e Ryan Murphy dão-nos o “shock value” antes de nos darem as personagens. O problema não está na ocasional cena super-gráfica — não tínhamos todo um género de cinema se assim fosse. O problema está no “estilo acima de substância”.

A estranha banda sonora (que não sabe se quer musicar um mau filme de comédia ou um não muito melhor filme de guerra) e a montagem ao estilo 24, mais exibicionista do que útil, não ajudam a resgatar uma série cujas histórias secundárias nunca concretizam o seu potencial — para além da ligeira imitação de Bonnie e Clyde, temos direito a Sharon Stone com um macaco às costas (outra vez) e um filho (Brandon Flynn, de 13 Reasons Why) que, claro, desfaz os seus braços com uma motosserra. Murphy ainda atira a narrativa de Ratched como uma homossexual reprimida, numa relação com Gwendolyn que dita o rumo de alguns dos episódios, mas a protagonista parece sempre tão controladora que os momentos em que de facto deixa transparecer alguma vulnerabilidade são mais suspeitos do que outra coisa. Ratched promove-se como uma “prequela” de Voando Sobre Um Ninho de Cucos, mas tem mais a ver com American Horror Story do que com o filme de Miloš Forman. No limite, a série lembra a memória de um clássico que merece consistentemente ser revisitado. Podia ser pior.

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