“Falácia” e “propaganda”: Campo Aberto diz que novo PDM não desenha cidade mais verde

Associação ambientalista está satisfeita com aumento dos jardins públicos, mas diz que solo permeável vai diminuir. “A cidade não vai ser melhor ambientalmente”

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Campo Aberto diz que área permeável da cidade vai diminuir e teme que cidade se torne pior ambientalmente Nelson Garrido

O aumento das áreas verdes na cidade do Porto preconizado no novo Plano Director Municipal (PDM), que entrará agora em discussão pública, é para a Campo Aberto uma “falácia” porque esconde outro dado mais importante. A associação ambientalista fala numa “cantiga de embalar” da Câmara do Porto, que garante que o plano para a próxima década é de duplicação destes espaços, e desmonta a argumentação com uma análise mais alargada.

“Esses espaços verdes públicos anunciados vão aparecer em áreas relativamente restritas, que são maioritariamente permeáveis hoje e vão ser urbanizáveis. É verdade que passam a ser espaços públicos e são importantes, mas em termos de funcionamento biofísico o solo permeável é que é importante. E esse diminui”, argumenta José Carlos Marques, um dos fundadores da Campo Aberto.

O argumentário do executivo de Rui Moreira é para o ambientalista uma “técnica de propaganda, consciente ou inconsciente”, que leva os cidadãos a não entender o principal: “Toda essa verdura que a câmara anunciou é uma forma de escamotear o dado principal: a zona verde efectiva diminui”, reforça.

Por causa disso, a Campo Aberto antecipa que o Porto de 2030 possa estar pior do que o actual. “A cidade não vai ser melhor ambientalmente”, afirma convicto. A confirmar-se a “oportunidade perdida” também no caso do terreno da antiga estação ferroviária da Boavista, onde o El Corte Inglés deverá instalar-se, o centro ocidental da cidade tende a “empobrecer” nos próximos tempos, continua José Carlos Marques.

O espaço onde a cadeia espanhola deverá construir poderia ser um jardim, tem defendido a associação ambientalista e outros cidadãos e partidos políticos, e seria até uma forma de Rui Moreira corrigir o “enorme erro” de construção do shopping Cidade do Porto, autorizada no tempo de Fernando Gomes, um processo que ainda corre em tribunal. “O PDM da altura previa a construção de um espaço verde nesse terreno, muito perto deste que agora parece também estar inviabilizado”, lamenta.

Mas há mais. “Parece iminente a perda do jardim da Praça da Galiza”, aponta, referindo-se às obras do metro que prevêem a instalação de uma estação nesse local. “A Metro do Porto diz que irá reconstruir o jardim. Há lá árvores plantadas em 1997, hoje magníficas. Só daqui a 25 anos se conseguirá ter algo igual. E durante os quatro de obras não teremos nada.”

A Campo Aberto não está, por isso, optimista quanto ao futuro da cidade verde. “Na planta do novo PDM, essa zona do centro ocidental, é sobretudo cor de laranja, a cor do espaço construído. As zonas verdes são muito precárias, com excepção do Palácio de Cristal”, aponta.

Cidade mais densa

O novo PDM tenta desenhar uma cidade mais densa em zonas onde a malha urbana está menos consolidada, como arma de combate à carência de habitação da urbe, ao mesmo tempo que persegue uma diminuição da pegada ecológica da mobilidade. Para isso, a autarquia quer criar mais jardins e redesenhar a rede viária de forma a promover deslocações a pé, de bicicleta e em transporte público.

Na reunião de câmara de 28 de Setembro, reservada ao debate do novo PDM, o vereador do urbanismo, Pedro Baganha, sublinhou a existência de uma “estrutura ecológica”, o “esqueleto” deste documento, como uma das suas “grandes novidades” e reforçou a ideia de uma “duplicação do espaço verde” do Porto. Entre as medidas propostas, está o incentivo aos promotores privados para que disponibilizem os seus espaços verdes para usufruto público e a tentativa de fazer coincidir esses mesmos espaços com linhas de água, na promoção de uma “cidade esponja” onde as soluções mais naturais sejam privilegiadas.

Também a desocupação dos logradouros é incentivada, sendo a edificação permitida se as construções tiverem em conta valores arquitectónicos, patrimoniais e ambientais.

A manutenção dos logradouros como pequenos pulmões das cidades é uma mudança urgente e necessária para José Carlos Marques. Apesar de o PDM ainda em vigor já limitar a impermeabilização, a realidade percepcionada é que de poucos cumpriram a norma ao longo dos anos, lamenta. “Passeia-se no centro do porto e vêem-se zonas demolidas onde de certeza que antes havia quintais e agora só se vê solo branco, de areia. Não acredito que em todos eles fosse assim antes.”