Nova temporada do CCB espelha os tempos híbridos que se vivem

Tempos de transição, seja socialmente, na criação artística e também na própria estrutura de programação do Centro Cultural de Belém. Até Janeiro, o CCB aposta essencialmente na criação portuguesa.

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Anesthetize da coreógrafa Maurícia Neves DR
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O que Vêem as Nuvens de Ricardo Vaz Trindade DR
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Hip, a Pussy Point of View, coreografia de Piny João Peixoto

Dois bateristas — Hélio Morais e Joaquim Albergaria do grupo Paus — flanqueando cada um dos lados do palco do grande auditório do Centro Cultural de Belém, com jornalistas, funcionários ou membros da administração dispostos numa bancada no próprio palco. Foi assim que se iniciou, esta quarta-feira, a conferência de imprensa de apresentação da nova temporada da instituição. Um dispositivo que contraria apresentações em moldes clássicos, o que não parece acaso, sugerindo os tempos raros que se vivem, mas também transições no interior do CCB.

A começar pelo facto de existir uma nova liderança no pelouro da programação, a do curador e professor Delfim Sardo, que desde Março iniciou funções, regressando a uma instituição da qual foi director do Centro de Exposições entre 2003 e 2006, para além do reforço, na área da programação, do coreógrafo Rui Horta. Como já havia dito ao PÚBLICO, em Julho, Delfim Sardo voltou a salientar que este é um ano complexo em termos de planeamento, pelos imprevistos, reajustes e reagendamentos.

Daí que só tenham sido comunicadas as iniciativas previstas até Janeiro do próximo ano, essencialmente por causa da pandemia, mas também pela presidência portuguesa da União Europeia, no primeiro semestre de 2021, que ocupará parte das instalações do CCB. Neste contexto, vão ser articulados espectáculos que tinham sido adiados da temporada anterior, com novas propostas que dão atenção a jovens criadores ou a co-produções. “Não deixamos cair os artistas”, lançou às tantas Rui Horta, naquela que parece ter sido uma mensagem endereçada a pensar no tecido artístico português, tendo em atenção o contexto difícil que se vive.

PÚBLICO - Os bateristas Hélio Morais e Joaquim Albergaria do grupo Paus fizeram a apresentação da nova temporada do CCB
Os bateristas Hélio Morais e Joaquim Albergaria do grupo Paus fizeram a apresentação da nova temporada do CCB cortesia ccb
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Travessia, ponte, suspensão. Foram essas algumas das metáforas utilizadas pelos oradores para classificar os tempos que se vivem que, segundo Delfim Sardo, serviram para enquadrar o conceito aglutinador de toda a programação: Entre. Um Entre que simboliza um tempo liminar, inusitado e paradoxal, como aquele que estamos a passar, mas também um Entre como mediador de modelos, de géneros artísticos, de tipologias, de práticas, de momentos históricos ou de identidades, ou, como referiu Delfim Sardo, é o CCB a “assumir o seu carácter híbrido.” E noutra perspectiva, com a bengala da língua portuguesa, um Entre no sentido de ser também um convite declarado ao público para a entrada no CCB. 

A forte componente de criação foi sublinhada por Rui Horta, com cerca de trinta artistas envolvidos. É o caso do coreógrafo Miguel Filipe, que apresentará a 20 e 21 de Novembro, a peça multidisciplinar Bo(u)ichecha, ou das coreógrafas Marta Reis Jardim e Diana Niepce, que de 11 a 13 de Dezembro levarão a palco Travessias e Dueto. Ainda a 18 de Dezembro o Quorum Ballet interpretará, sob direcção de Daniel Cardoso, A Sagração da Primavera – Made in China. Antes, nas artes performativas, destaque ainda para Anesthetize (9 a 11 de Outubro) da coreógrafa Maurícia Neves, no âmbito do festival Temps d’ Images, do qual será também visto O que Vêem as Nuvens de Ricardo Vaz Trindade, de 11 a 13; Hip, a Pussy Point of View, com coreografia de Piny e sonoplastia do músico Batida, poderá ser visto a 30 e 31 de Outubro.

PÚBLICO - O professor e curador Delfim Sardo no pelouro da programação
O professor e curador Delfim Sardo no pelouro da programação
PÚBLICO - Coreógrafo Rui Horta, uma novidade na equipa de programação
Coreógrafo Rui Horta, uma novidade na equipa de programação
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No teatro, uma das primeiras propostas da nova temporada será, a 12 e 15 de Novembro, A confissão de Lúcio, de André Murraças, a partir da novela de Mário de Sá-Carneiro, seguindo-se o Teatro da Cidade, com texto (Invocação do Meu Corpo) e encenação de Guilherme Gomes, a 20 e 23 de Novembro. No final de Janeiro haverá encenações de Nuno Cardoso, do Teatro Nacional São João, do Porto: Castro, de António Ferreira, e O balcão, de Jean Genet. No campo da música popular haverá concertos dos Pop Dell’ Arte (8 Outubro), Stereossauro (30 Outubro) ou Glockenwise (23 Janeiro), enquanto o fado se fará ouvir por Camané (20 Novembro) ou Aldina Duarte (3 Dezembro). No centenário de Amália Rodrigues, será mostrado a 26 e 27 de Novembro o espectáculo Amália – A Voz maior do que o Fado, com encenação do cineasta João Botelho e participação de Camané, Ricardo Ribeiro, Gaspar Varela ou Mário Laginha.

Na música erudita, para além da Orquestra Sinfónica Portuguesa (Mahler, Haydn, Mozart) ou da Orquestra Metropolitana de Lisboa, o programador André Cunha Leal salientou que, apesar de Beethoven ter “sido muito prejudicado” pelo cancelamento dos Dias da Música (que estará a ser repensado para o próximo ano) e onde iria ser o grande destaque pelos 250 anos do seu nascimento, não foi esquecido nesta temporada. Exemplos? Já a 8 de Outubro o DSCH – Schostakovich Ensemble proporá o concerto Beethovenfest, que inclui os dois trios para piano, clarinete e violoncelo, Opus 11 e 38. A 31 de Outubro, a Orquestra Metropolitana apresenta o programa Sinfonia do Destino, onde se ouvirá a Quinta Sinfonia, enquanto a 21 de Janeiro a pianista Melissa Fontoura junta-se ao barítono José Corvelo e à soprano Inês Simões para a união entre palavra e música.

A Garagem Sul do CCB volta a ser o destino de projectos com arquitectura, como a exposição Em casa - Projectos para habitação contemporânea, concebida a partir do acervo do museu MAXXI, em Roma, enquanto no serviço educativo Fábrica das Artes em evidência vai estar o ciclo Festa de Desaniversário, a partir de duas obras literárias de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro lado do Espelho).

Segundo o presidente do conselho de administração do CCB, Elísio Summavielle, a programação foi concebida com cerca de 1,8 milhões de euros. Desde Março, segundo Summavielle, o CCB terá perdido cerca de 2,5 milhões de euros no aluguer de espaços para conferências, congressos e outros eventos, o que, segundo o responsável, não impedirá que a instituição chegue até ao final do ano com as contas equilibradas.

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