2020/2021: o primeiro ano do resto das nossas vidas

É absolutamente necessário que as circunstâncias em que vivemos não nos façam desperdiçar o ativo mais valioso que possuímos: o talento.

Há mais de um século que todos os anos, nesta altura, o Instituto Superior Técnico renova-se e renasce com a chegada dos seus novos estudantes. Este ano não será diferente: o Técnico receberá cerca de 2000 novos estudantes, provenientes de todas as regiões do país e de vários países da Europa e de outros continentes. Como sempre acontece, chegarão sedentos de aprender como funciona o algoritmo da Google, como se projeta e desenvolve uma aeronave, como se sequencia uma cadeia de DNA ou como se monta uma empresa de base tecnológica.

O Técnico, prepara-se cuidadosamente para receber os seus novos alunos e para lhes dar a formação e a vivência de universitária que esperam aqui receber: uma formação de base sólida, um percurso estimulante e desafiante durante a licenciatura e mestrado, a oportunidade de passar um semestre em Erasmus nas melhores universidades da Europa, uma vivência diversa e enriquecedora, proveniente do contacto com outros colegas de várias especialidades, com centros de investigação científica de ponta, com a possibilidade de participar em diversos núcleos estudantis que constroem carros, motos, barcos ou satélites. Mas, este ano, algumas coisas serão um pouco diferentes.

A primeira é que a vivência nos campi do Técnico, e das outras instituições de ensino superior, terá de ser adaptada à situação pandémica em que vivemos. Teremos de usar máscara e aumentar o distanciamento físico. Isto fará com que as metodologias de ensino e aprendizagem tenham de ser adaptadas a estas circunstâncias, reforçando a disponibilidade a materiais de apoio às aulas, utilizando, de forma mais predominante do que anteriormente, plataformas de transmissão e comunicação entre professores e alunos.

Este será, pois, o ano zero do “ensino misto”, i.e, todas as disciplinas passarão a ter este ano, pela primeira vez, uma componente presencial e uma componente à distância. Daqui a alguns meses há que retirar a lição do melhor daquilo que aprendemos com o “ensino misto”, reajustar processos, caso se justifique, ou tirar ilações para o futuro. Para já, ainda é cedo para tirar conclusões. 

A segunda grande diferença é a atenção que temos de dar a casos como o da Maria. A Maria tem média de 19 e vive a sul, perto do litoral. Tem o sonho de vir para o Técnico ser engenheira mecânica. O pai, que trabalhava num hotel, está desempregado e a mãe tem uma pequena loja onde, desde junho, quando reabriu, a faturação caiu para metade. A Maria, apesar de ser uma aluna brilhante e de há muitos anos trabalhar para isso, não sabe se vai concretizar o seu sonho. Casos como o da Maria, este ano e nos próximos ocorrerão com muito mais frequência do que em anos anteriores. É preciso estar atento. No Técnico estaremos atentos à Maria. Teremos de ser capazes de dar resposta a situações como a da Maria. É absolutamente necessário que as circunstâncias em que vivemos não nos façam desperdiçar o ativo mais valioso que possuímos: o talento.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico