“A verdadeira pandemia chega agora”, avisa virologista alemão

Assessor do Governo alemão recomenda que se mude a abordagem de luta contra a pandemia. “Os custos podem ser graves, se os políticos utilizarem a pandemia nas suas mensagens políticas. Isso é muito complicado e o vírus passa imediatamente a factura.”

Munique
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Munique Michael Dalder

Christian Drosten, virologista de referência e assessor do Governo alemão para os temas da covid-19, advertiu esta quarta-feira que a “verdadeira pandemia” do novo coronavírus só agora está a começar.

“A verdadeira pandemia chega agora. Também aqui [na Alemanha]. Quando muito, poderemos falar das lições da primeira vaga na Europa”, em que as diferenças foram enormes, sublinhou Drosten numa entrevista para a Cimeira Mundial da Saúde (CMS), que decorrerá em Berlim de 25 a 27 deste mês num formato semipresencial devido à covid-19.

O cientista alemão recomendou que, face à forma como a primeira vaga foi combatida, se deve alterar a abordagem de luta contra a pandemia, para que se possa enfrentar a situação nos próximos meses.

“É bastante importante informar bem e amplamente a população”, frisou Drosten. E avisou: “Os custos podem ser graves, se os políticos utilizarem a pandemia nas suas mensagens políticas. Isso é muito complicado e o vírus passa imediatamente a factura. Podemos ver o que está a acontecer nos Estados Unidos”, o país com maior número de casos de covid-19 (quase 6,9 milhões) e de óbitos (200.818), observou.

Nos próximos meses, recomendou, e para controlar a situação, é necessário “alterar as coisas” e também é importante tomar “decisões pragmáticas”.

“Êxito alemão”?

O especialista alemão relativizou os discursos sobre o “êxito alemão” no combate à pandemia, sustentando que tal apenas se deve ao facto de a Alemanha ter reagido quatro semanas mais cedo do que outros países.

“Reagimos exactamente com os mesmos meios. Não há nada em particular que tenhamos feito bem. Simplesmente fizemo-lo antes. Por isso temos tido êxito”, afirmou, negando que as autoridades sanitárias alemãs tenham funcionado melhor do que as francesas ou que os hospitais do país estejam mais bem equipados do que os italianos.

“Se aplicarmos isto ao que vem aí no Outono, então teremos de deixar claro que continuamos sem fazer nada melhor do que os outros”, advertiu.

Drosten deu como exemplo o caso da Argentina, onde a pandemia surgiu no Inverno e, por essa razão, está a ser “muito difícil” controlar a propagação da covid-19, apesar das medidas restritivas. “Na Alemanha deveríamos olhar de forma muito mais diferenciada e precisa para o que se passa no estrangeiro. Temos de deixar de discutir assuntos como estádios de futebol, algo completamente falacioso”, afirmou.

Por outro lado, Drosten lembrou que a ciência goza actualmente de uma “grande credibilidade”, mas advertiu que tal pode mudar “a qualquer momento”. “Só no final se saberá como a ciência o fez, porque esta pandemia, em primeiro lugar, não é um fenómeno científico, mas sim uma catástrofe natural”, observou.

A pandemia de covid-19 já provocou pelo menos 971.677 mortos e mais de 31,6 milhões de casos de infecção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

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