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Uma salva de palmas aos 40 anos

Cheguei à altura perfeita. Não julgo que consigo abalar o mundo ou muito menos mudá-lo com a minha voz, mas também já não quero saber se a minha opinião ou pessoa incomoda alguém.

Quando fiz 30 anos, passei por uma das situações mais embaraçosas da minha vida. Tive de ir às Finanças e fui atendida por um senhor muito acessível e disponível, que me deu um impresso para preencher, em que, entre muitas outras perguntas, estava a minha data de nascimento e idade. E eu lá o preenchi correctamente, achava eu.

O senhor virou o impresso para mim e apontou para a parte da idade e data de nascimento e disse assim baixinho, como com vergonha: “Tem que corrigir este campo.” Eu olhava e não via nada, estava tudo certo. O pior é que ele repetiu o pedido e eu já me sentia um pouco incomodada. Então, já não bastam as horas de espera e agora também não sei preencher um impresso?

Até que uma colega mulher, já mais velha, chega ao nosso lado e diz, em boa voz: “Estamos em Outubro de 2005, a senhora fez anos em Maio e nasceu em 1975, já deixou de ter 29 há algum tempo, minha filha, lide com isso!” Eu não sei de que cor fiquei, o amável senhor, obviamente um cavalheiro à antiga, sorriu e eu desfiz-me em desculpas. Saí rapidamente e a vergonha era tal que nesse momento aceitaria qualquer coisa que as finanças quisessem. Queria era sair daquele espaço.

Eu sabia, obviamente, que tinha chegado aos 30. Só estava naquela fase do “não me sinto com 30, ainda ontem tinha chegado a maior de idade”.

Duvidei um pouco da minha capacidade de lidar com a idade, mas depois passou. Aliás, a partir dos 30 as coisas começaram a entrar num ritmo tão alucinante, com casamento, filhos, divórcios, família, amigos e trabalho, que não tive muito tempo para parar e reflectir sobre o assunto. Ter tempo para mim sozinha era mais ou menos aquela altura entre a criança estar a dormir e a ida para o trabalho. Realmente, agora que penso nisso, foi uma década bastante atribulada e trabalhosa.

Não parecendo vulgar, e já sendo, foi num piscar de olhos que cheguei aos 40, em glória: grande festa, grandes preparativos, com tudo o que tinha direito ou mais. E esta passagem de década foi completamente diferente.

Sim, as raízes teimavam a ficar brancas a todos os 30 dias, a gravidade mexeu em quase todo o corpo (os pés estão óptimos) e uma ida ao médico já era mais frequente, uma dor aqui e ali e alguns reflexos de uma juventude bem vivida. Cheguei àquela altura em que não sou velha demais para isto, nem nova demais para aquilo.

Em consciência, cheguei à altura perfeita. Não julgo que consigo abalar o mundo ou muito menos mudá-lo com a minha voz, mas também já não quero saber se a minha opinião ou pessoa incomoda alguém. Melhor, se incomodar, faz-se uma selecção natural. Uma mistura de um “je ne sais quoi” de poder versus independência, que agora com os 40 não fica nem mal, nem bem. É o que é. Fiquei mais selectiva, mais ousada, tanto na comunicação como na postura física. Comecei a ter tempo para mim, porque sim! Porque quero e preciso.

Não foi instantâneo, mas o sentimento de realização foi-se preenchendo. Não tenho a vida que queria, mas tenho a que posso e não é propriamente a mais fácil, mas também está longe de ser a mais difícil.

Não, não me contento e está nos meus genes prosseguir sempre para algo melhor, a diferença está no que é o melhor. E no auge dos meus 45, o melhor é o que me deixa feliz e em paz com o mundo e comigo.

O caricato da situação é que nada disso se compra, conquista-se! Está ali, bem perto, basta só um olhar e uma reflexão mais profunda. Uma salva de palmas aos 40!

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