A arrogância meritocrática

Os que aterraram lá em cima tendem a acreditar que o seu sucesso se deve apenas a si mesmos. E na mesma lógica acham que os que ficaram para trás merecem o seu destino. Esse menosprezo gera cada vez mais indignação e rancor.

O distanciamento físico é recente. O social é antigo. Escolas privadas e públicas. Condomínios particulares e bairros periféricos. Classe executiva e económica. Abastados e remediados. Os triunfadores e os triturados pela globalização neoliberal das últimas décadas. A existência em comum cada vez mais a acontecer em bolhas sociais onde se comunica entre pares.

Simplifico? Sim. Mas não tanto quanto gostaria. Nos primeiros meses da pandemia o mantra do “estamos juntos” ainda gerou expectativas, mas, à medida que o vírus avançava, os que realizavam os maiores sacrifícios e punham a vida em risco eram os de sempre: os que foram deixados para trás daquilo que nos dizem terem sido décadas de prosperidade. Os mesmos que têm ouvido, em formato de aviso, que “vem aí uma crise sem precedentes”, forma de preparar o que se vai seguir — serem eles a pagar mais uma fenda que se abre no combalido sistema capitalista. Uma doença que ninguém quer enfrentar apesar de, tanto à esquerda, como à direita, haver quem proclame essa evidência. Há sempre desculpas para o adiar.

Agora é o vírus, apesar de apetecer perguntar que sistema é este em que o bem comum é posto em causa num curto espaço de tempo. Outras vezes, o argumento é que as alternativas à disposição são piores, como se fosse fatalidade repisar o passado. Imaginar outros cenários é “complexo” e não há tempo a perder porque a vida segue dentro de momentos. E enquanto se protela, uma minoria sorri, enquanto os de sempre se vão desgraçando. Um dia a corda de tanto esticar parte-se. Já não são só as desigualdades. É o ressentimento acumulado. Os que aterraram lá em cima tendem a acreditar que o seu sucesso se deve apenas a si mesmos e que merecem todos os benefícios que a sociedade de mercado lhe proporcionou. E na mesma lógica acham que os que ficaram para trás merecem o destino.

Esse menosprezo gera cada vez mais indignação e rancor, seja nos EUA, Brasil ou Portugal. E não é apenas entre os trabalhadores, no sentido clássico. É toda uma miríade de actividades e de diferentes gerações que se sente lesada e com queixas legítimas, encarcerada na imobilidade social. Os partidos de centro-esquerda e centro-direita têm sido surdos ou inábeis e o resultado vê-se com os Trump, Bolsonaro e, até Ventura, agradecendo e explorando esses ressentimentos. O problema é a deficiente distribuição da riqueza. Mas é mais vasto. É uma questão também de reconhecimento e estima social. Daí que esteja tudo ligado, racismo, sexismo, justiça social, acesso à educação, ao saber ou ao poder.

No meio disto tudo, a meritocracia, a ideia de uma ordem socioeconómica baseada apenas nos méritos individuais. Durante anos, especialmente em cenários de grande crescimento económico, parecia inspiradora. Um incentivo. Estudar, obter um canudo, competir e vencer. Mas esquecemo-nos dos lados perversos. Hoje, o crescimento ou é residual, ou dele só beneficia uma minoria, sem que se vislumbrem processos de solidariedade social. Pusemos uma ênfase tão grande na ascensão individual que nos esquecemos de todos os que se foram sentindo postos de lado, na escola, na universidade, no emprego, na vida, e se culpam porque a mensagem endereçada é que não se esforçaram o suficiente. Tudo isto perante um cenário em que obter um curso deixou de ser garantia de se estar em sintonia com os valores definidos pelas instaladas elites tecnocráticas.

E depois ainda passam o tempo a dizer para empreendermos. Certo. Mas uma coisa é arriscar, sabendo que se as expectativas não forem cumpridas existem outras opções ou uma almofada familiar, outra é acabar debaixo da ponte quando se falha. Todas estas lógicas têm um insulto implícito: não subir ou prosperar significa que o fracasso é individual, forma de nunca ser discutido o todo sistémico. No seu último livro, A Tirania do Mérito, o conhecido filósofo político Michael J. Sandel reflecte sobre algo que gera sentimentos de frustração na maioria, defendendo que a mudança depende de políticas, mas também de novas atitudes culturais.

Segundo ele, os bem-sucedidos devem questionar se o sucesso lhes deve ser inteiramente atribuído, ou também à família, à comunidade, aos professores, ao país, às circunstâncias da vida ou à sorte. O problema, aponta, é que as elites meritocráticas são pouco humildes. Muitos nunca se interrogaram sobre os privilégios. Desafiar essa naturalização é importante, propondo o fomentar de espaços comuns de cidadania, onde pessoas de condições e estilos de vida diversos se encontrem, renovando a sociedade civil, furando bolhas, criando experiências partilhadas.

Talvez tenha razão. Mas não sou tão optimista. Os comportamentos só se transformarão com políticas. E este devia ser o momento para as implementar, repensando o valor social da contribuição de quem faz trabalhos que não gozam de prestígio ou mal remunerados. Se existiu altura em que os mais privilegiados tiveram oportunidade de constatar o quão dependemos uns dos outros foi este, através da actividade essencial de muitos daqueles que assumiram riscos enquanto outros estavam protegidos. Se não existir um pingo de humildade agora, será quando?