Dezenas de milhares de pessoas na maior manifestação pró-democracia em anos na Tailândia

Em Banguecoque pede-se a reforma do sistema político, incluindo o papel da monarquia. “Estamos a lutar para pôr a monarquia no lugar certo, não para a abolir.”

Foto
Manifestantes em Sanam Luang, junto ao palácio real de Banguecoque NARONG SANGNAK/EPA

Jovens, menos jovens, estudantes, gente de todas as classes sociais. A multidão que este sábado se juntou em Banguecoque – a polícia estimava que chegassem a 50 mil pessoas, os líderes estudantis acreditam que serão o dobro – em protesto contra as desigualdades económicas e em defesa de uma reforma profunda da política na Tailândia tem dimensões que há muito não se viam no país.

Desde Julho que as manifestações de estudantes regressaram às ruas da capital, reactivando a vaga de agitação aberta no início do ano com a dissolução de um jovem partido pró-democracia, o Partido do Futuro, que se impusera como principal opositor ao antigo presidente da Junta Militar, o primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha. Um movimento que era essencialmente estudantil e que se tem alargado ao resto da população.

Os protestos exigem a demissão de Prayuth, mas não só. “Abaixo o feudalismo, viva o povo”, cantou-se sábado. “Espero que as pessoas no poder percebam a importância do povo”, disse à multidão o líder estudantil Panupong “Mike” Jadnok, escreve a agência Reuters. “Estamos a lutar para pôr a monarquia no lugar certo, não para a abolir.”

Os manifestantes têm discutido abertamente a poderosa monarquia tailandesa, pedindo mesmo que seja reformada e veja os seus poderes reduzidos, um nível de crítica e debate sem precedentes.

O regime tailandês é, por tradição, ultraconservador, mas o maior dissuasor de quem pense em questionar a monarquia são mesmo as punições de 15 anos de prisão para os crimes de lesa-majestade – muitos activistas têm sido detidos e em Junho um activista pró-democracia que estava exilado no Camboja desde o golpe militar de 2014, Wanchalearm Satsaksit, desapareceu, suspeitando-se que tenha sido raptado a mando do Estado.

O movimento tem três reivindicações principais: a dissolução do Parlamento, a reforma da Constituição militarizada e o fim da intimidação dos críticos.

O protesto de sábado promete prolongar-se até domingo. Nas primeiras horas, os manifestantes forçaram a entrada no campus da Universidade Thammasat, símbolo da democracia no país e palco habitual de manifestações, e aproximaram-se da gigantesca praça Sanam Luang, perto do palácio real. Teme-se uma possível acção musculada das autoridades, depois de Prayuth ter avisado os manifestantes para não “violarem o palácio”.

“Estou aqui para ajudar os jovens”, disse Peeja Plahn, citado pela televisão Al-Jazeera. “Muitos nunca viram protestos políticos como este e não saberão o que fazer se as coisas ficarem feias. Estamos aqui em apoio da causa deles e porque o Governo não funciona.” Desde o golpe de 2014 que a Tailândia não assistia a manifestações desta dimensão.