Jovens pró-democracia arriscam e criticam a monarquia, um tema tabu na Tailândia

Protestos estudantis contra o Governo e o Exército incluíram um pedido de reforma da monarquia tailandesa. Primeiro-ministro disse que os manifestantes “foram longe de mais”.

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Manifestações anti-Governo decorreram no fim-de-semana e na segunda-feira, em Banguecoque EPA/RUNGROJ YONGRIT
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EPA/NARONG SANGNAK O rei Vajiralongkorn Bodindradebayavarangkun e a rainha Suthida

O regresso dos estudantes tailandeses às ruas de Banguecoque, no último fim-de-semana e na segunda-feira, para protestarem contra a repressão do Governo e pedirem reformas democráticas para a Tailândia, trouxe uma novidade arrojada. Com uma saudação tirada do livro e filmes Jogos da Fome, os manifestantes exigiram uma reforma da monarquia, considerada sagrada, e cuja discussão pública ainda é um tabu num país com um sistema político altamente conservador.

Os líderes estudantis do movimento que juntou cerca de quatro mil pessoas na segunda-feira à noite, na Universidade Thammasat, nos arredores da capital, em protesto contra a detenção de dois activistas na semana anterior, divulgaram um documento com dez propostas de reforma para a monarquia tailandesa, que, segundo a Reuters, se destacam por pedir a reversão de duas leis aprovadas nos últimos anos.

Uma lei de 2019, que transferiu duas unidades do Exército do país para a guarda pessoal do rei Maha Vajiralongkorn; e outra lei de 2017, que deu ao controverso monarca – que sucedeu ao longevo Bhumibol Adulyadej, governante desde 1946, até à sua morte, em 2016 – o controlo total da gestão de todos bens imóveis da Coroa.

O debate sobre os poderes, as funções e as regalias da Família Real é praticamente inexistente na Tailândia e são poucos os grupos pró-democracia que se arriscam a trazê-lo para a praça pública. 

Não só devido à tradição ultraconservadora do regime tailandês, mas também por causa das punições extremamente duras no país para os crimes de lesa-majestade. Insultar ou difamar o rei pode levar a uma pena máxima de 15 anos de prisão.

Desafio ao regime

Num outro protesto, em Junho, já se tinham ouvido cânticos e gritos contra a monarquia, mas a apresentação de um plano concreto de reformas é uma novidade, e um sério desafio ao establishment político, dirigido pelo general e primeiro-ministro, Prayuth Chan-ocha, que liderou um golpe militar em 2014 e que tem governado a Tailândia com mão-de-ferro desde essa altura.

Talvez por isso, a Universidade Thammasat viu-se obrigada a emitir um comunicado a condenar as “expressões problemáticas” e as “referências sobre a monarquia que têm impacto nos sentimentos das pessoas” que se ouviram no seu campus, na segunda-feira à noite.

Na terça-feira, foi o próprio primeiro-ministro Prayuth a reagir negativamente às exigências dos manifestantes, afirmando que “foram longe de mais”. 

“Há imensa gente em sarilhos, que está à espera que os seus problemas sejam resolvidos. Não são só os jovens. Será necessário tudo isto? Desta vez foram longe de mais”, disse aos jornalistas, citado pela Reuters. 

A reacção do chefe do Governo vai ao encontro de uma forma muito concreta do poder militar tailandês – quase paternalista e muito patriótica – de entender o papel dos jovens no país e na sociedade, dizem os analistas.

“Na visão do Governo militar, o estudante ideal, tal como como o cidadão comum, deve ser passivamente subalterno”, explica ao New York Times Giuseppe Bolotta, professor de Antropologia da Universidade de Durham (Reino Unido), que investiga a Tailândia.

O objectivo do poder político e militar tailandês, diz Bolotta, é que os jovens “mostrem lealdade e obediência absolutas e que estejam prontos para se sacrificar pela nação e pelas divindades tutelares: monarquia, budismo e o Exército”.

Vocação patriótica

Foi, precisamente, para demonstrar a Prayuth Chan-ocha que há, na Tailândia, muitos aspirantes a receber e abraçar esse rótulo de “estudante ideal”, que dezenas de pessoas organizaram uma contramanifestação em frente ao Parlamento, no mesmo dia dos protestos na Universidade Thammasat.

A manifestação pró-Governo foi organizada por Sumet Trakulwoonnoo, um activista nacionalista que fundou recentemente uma nova organização estudantil conservadora e patriótica, à qual chamou Centro de Coordenação de Alunos Vocacionados para a Protecção das Instituições Nacionais.

“Queremos alertar os grupos de jovens, os pais, os professores e os governantes sobre o perigo que estas pessoas – que estão instigar a juventude a abandonar Deus e a ficar obcecada com a cultura Ocidental, com as drogas e com o ódio pelos seus pais e professores – representam para a nação”, explicou Sumet, citado pela Al-Jazeera.