Opinião

Culpar o suicida?

Conversar sobre suicídio não estimula as pessoas a cometerem-no: muito pelo contrário, o diálogo, esclarecimentos e tratamento de doenças consideradas factores de risco são a melhor forma de prevenir o problema.

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Paulo Pimenta

Segundo os dados mais recentes divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos suicidam-se cerca de 800 mil pessoas — uma pessoa a cada 40 segundos, aproximadamente — dados oficiais de 2016, divulgados em 2019. O suicídio figura entre as 20 principais causas de morte em todo o mundo. Em Portugal, suicidaram-se 1450 pessoas, em 2016. A título de exemplo: o suicídio mata mais do que o cancro da mama, causa que move anualmente milhares de portugueses em caminhadas que enchem as cidades de cor-de-rosa. Posto isto, porque não fazemos o mesmo em relação ao suicídio? Será verdade que não se deve falar sobre o assunto? Poderá isso funcionar como estímulo à própria prática do suicídio?

A literatura recente tem mostrado precisamente o oposto: é fundamental conversar sobre o tema, de forma séria e com base científica, podendo esta constituir uma das melhores ferramentas de prevenção do suicídio. Conversar sobre suicídio não estimula as pessoas a cometerem-no: muito pelo contrário, o diálogo, esclarecimentos e tratamento de doenças consideradas factores de risco são a melhor forma de prevenir o problema. Quanto mais falamos (e ouvimos, principalmente), mais promovemos uma rede de apoio às pessoas que passam por algum tipo de sofrimento.

A prevenção do suicídio é difícil porque raramente a família percebe que aquela pessoa pensa terminar com a própria vida – aliás, muitas vezes o próprio suicida nunca pensou anteriormente sobre isso. De facto, quase metade das pessoas que comete tentativa de suicídio fá-lo por impulso. O comportamento suicida está frequentemente associado a perturbações mentais (como depressão e uso excessivo de bebidas alcoólicas), a outros factores, como exposição a situações de abuso, violência, isolamento emocional e dor crónica, e a momentos de crise, como o fim de uma relação, solidão, morte de pessoas próximas ou problemas financeiros (situações associadas à sensação de falta de esperança).

Perante todas estas informações, surge uma questão: o que podemos ou devemos fazer? É preciso dar atenção e ouvir a pessoa que fala sobre suicídio. Frases como “tens tudo”, “pensa na tua família” e “não digas asneiras” devem ser evitadas, uma vez que só fazem que a pessoa se sinta mais culpada. Ao lidarmos com alguém que mencione vontade de se suicidar, devemos procurar compreender o que motiva essa pessoa a pensar sobre suicídio, ouvir as suas razões e sugerir alternativas para lidar com os problemas, recomendando de seguida a procura de ajuda de profissionais especializados. Ao contrário do que o senso comum muitas vezes nos sugere, a depressão não se trata com “a força de vontade”. Numa comparação directa, quando um amigo é diagnosticado com cancro sugerimos “tens de ter força de vontade, para o teu corpo eliminar as células cancerígenas”?

Em 2013 foi criado o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, para os anos 2013-2017, sendo posteriormente interrompida a sua elaboração devido “à crise económica e intervenção da troika” (possivelmente numa fase em que muito seria necessário). Em 2019 foi anunciada a sua reactivação, pelo que aguardamos actualmente por desenvolvimentos neste campo.

N’A Beneficência Familiar é disponibilizado o acompanhamento das famílias enlutadas, sempre que é realizado um serviço fúnebre pela nossa Secção Funerária, de forma a apoiar os associados neste momento particularmente custoso e potencialmente espoletador de reacções difíceis. Para além disso, os nossos profissionais, experientes e atentos à dor do outro, estão preparados para apoiar as famílias e reencaminhá-las para canais especializados de apoio.

Prevenção do Suicídio em Portugal

SOS Voz Amiga
Das 16h às 24h
213 544 545/912 802 669/963 524 660
Linha Verde gratuita: 800 209 899 (Entre as 21h e as 24h) 

Conversa Amiga
Das 15h às 22h
808 237 327/210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de Portugal (Voades Portugal)
Das 16h às 22h
222 030 707

Telefone da Amizade 
Das 16h às 23h
222 080 707

Voz de Apoio 
Das 21h às 24h
225 506 070

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