Opinião

Tudo o que devo a Vicente Jorge Silva

Devo imenso a Vicente Jorge Silva, grande criador do jornalismo português. Devo-lhe, desde logo, a profissão que escolhi. Decidi ser jornalista por causa do jornal PÚBLICO que Vicente criou, e esse PÚBLICO, o PÚBLICO da primeira metade da década de 90, quando os meios superabundavam e uma nova geração emergia das faculdades, é bem capaz de constituir a maior agremiação de talento do jornalismo português em democracia, até hoje inultrapassada.

Vicente Jorge Silva morreu na madrugada desta terça-feira, aos 74 anos, no dia em que eu completei 47, e essa triste coincidência de datas e de números fez crescer em mim a vontade de escrever sobre ele e sobre este estranho mistério: o de devermos tanto a quem conhecemos tão pouco. Suponho que a reverência que devotamos aos grandes criadores derive daí – de sentirmos para com eles uma dívida imensa, por ser impossível devolver-lhes algum dia sequer uma ínfima parte daquilo que nos deram.

Devo imenso a Vicente Jorge Silva, grande criador do jornalismo português. Devo-lhe, desde logo, a profissão que escolhi. Decidi ser jornalista por causa do jornal PÚBLICO que Vicente criou, e esse PÚBLICO, o PÚBLICO da primeira metade da década de 90, quando os meios superabundavam e uma nova geração emergia das faculdades, é bem capaz de constituir a maior agremiação de talento do jornalismo português em democracia, até hoje inultrapassada. O Vicente não fez o PÚBLICO por causa de mim. Mas, em 1990, eu senti que o PÚBLICO tinha sido feito à minha medida.

O primeiro número do jornal saiu em Março de 1990, quando tinha 16 anos e estava a um ano e meio de entrar para a faculdade. Pedi aos meus pais para comprarem o primeiro número. E depois o segundo. Depois o terceiro. Depois a primeira semana. E por aí fora, até encher um armazém com a colecção completa de mais de dez anos de PÚBLICO, que guardava meticulosamente em sacos de plástico numerados. A meteorologia e a fauna inimiga do papel haveriam de comprometer irremediavelmente essa colecção, mas o mais importante ficou: após dois anos e meio passados no Técnico, a arrastar-me pela Engenharia Química, decidi que aquilo não era para mim, que queria ser jornalista, e trocar definitivamente as curvas de titulação pela pirâmide invertida. Até hoje.

O PÚBLICO do Vicente não foi apenas um jornal de que gostei muito. O PÚBLICO do Vicente foi a minha escola. Para um miúdo oriundo de Portalegre na era pré-internet, foi através das suas páginas que aprendi muito daquilo que sei e daquilo que sou. Nas longas viagens de autocarro entre Lisboa e Portalegre, ouvia os discos que o Fernando Magalhães, o Nuno Pacheco ou o Luís Maio me diziam para ouvir, num leitor de CD portátil que ganhei num concurso do PÚBLICO. Nas salas do cinema King, via os filmes que o Manuel Cintra Ferreira, o Mário Jorge Torres ou o Vasco Câmara me diziam para ver. À noite, lia os livros que o Eduardo Prado Coelho me aconselhava. De dia, aprendia o que era reportagem com o Adelino Gomes, o Pedro Rosa Mendes ou a Alexandra Lucas Coelho. E sobre todos eles, sobre tudo isto, pairava a figura tutelar do Vicente, que eu lia religiosamente, mesmo quando chamava rasca à minha geração.

A independência, a criatividade e a irreverência do Vicente vinham agarradas às páginas do PÚBLICO, como a tinta ao papel. O verdadeiro jornalista é aquele que gosta de notícias acima de tudo, independentemente da sua origem ou de quem possa incomodar. O verdadeiro jornalista tem convicções ideológicas e preferências políticas, mas o seu amor à notícia está muito acima delas – ele não só se está nas tintas para o facto de uma notícia desfavorecer aqueles que lhe estão mais próximos, como até sente um certo gosto quando isso acontece, por ser mais uma oportunidade para reafirmar a sua independência. Vicente Jorge Silva era um verdadeiro jornalista. E é por isso que ele continua a ser, hoje e sempre, uma verdadeira inspiração.

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