Alexei Navalny foi envenenado com Novichok, garante Alemanha

Substância detectada por laboratório militar é a mesma que foi utilizada para envenenar o espião Sergei Skripal, no Reino Unido, em 2018. Líderes europeus pedem explicações à Rússia e exigem que os responsáveis sejam levados à justiça.

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SERGEI ILNITSKY/EPA

O Governo alemão anunciou esta quarta-feira que foram encontrados vestígios de um agente de nervos da família do Novichok nos testes realizados a Alexei Navalny, crítico do Presidente da Rússia, Vladmir Putin, e internado em coma, na Alemanha. Berlim fala em “provas inequívocas”, enquanto o Kremlin diz que ainda não foi informado oficialmente sobre as conclusões da investigação.

“Agora é claro: Alexei Navalny foi vítima de um crime”, afirmou a chanceler alemã, Angela Merkel, pouco depois de o seu porta-voz, Steffen Seibert, ter revelado o resultado dos testes feitos por um laboratório militar alemão. “Tentaram silenciá-lo. Isto levanta questões muito difíceis que apenas o Governo russo pode responder, e que tem de responder”, sublinhou a chanceler, condenando o envenenamento.

O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas disse aos jornalistas que é “urgente” que os responsáveis sejam “identificados”, revelando que convocou o embaixador russo em Berlim para esclarecimentos.

Navalny, principal opositor do Presidente russo, sentiu-se mal depois de ter bebido um chá num aeroporto na Sibéria no dia 20 de Agosto, quando regressava a Moscovo. Foi internado num hospital em Omsk e dias depois transferido para o Hospital Charité, em Berlim.

O Governo alemão disse que vai informar a União Europeia e a NATO sobre os resultados da investigação conduzida até ao momento para “discutir uma resposta conjunta apropriada com os parceiros à luz da resposta russa”. A Rússia está sob sanções de países ocidentais devido à anexação da Crimeia em 2014

Os Estados Unidos e o Reino Unido manifestaram disponibilidade para ajudar a Alemanha na investigação, enquanto Londres e Bruxelas juntaram-se a Berlim para exigir respostas ao Kremlin.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, denunciou um caso “ultrajante” e disse que “o Governo russo deve explicar o que aconteceu a Navalny”. “Trabalharemos com os nossos parceiros internacionais para garantir que será feita justiça”, escreveu Johnson no Twitter. No mesmo sentido, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, denunciou um “acto cobarde” e exigiu que os responsáveis “sejam levados à justiça”. O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, também condenou o envenenamento.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia disse que aguarda respostas, uma vez que a Alemanha ainda não forneceu provas, e acusou Berlim de não estar a colaborar com Moscovo no caso. Noutra declaração, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que a Rússia deseja cooperar com as autoridades alemãs.

Na semana passada, Moscovo considerou que não havia necessidade de investigar o caso e descartou o envolvimento de Vladimir Putin. Por outro lado, os familiares e aliados do advogado, que se tem dedicado a denunciar a corrupção nas altas esferas do poder na Rússia, acusaram de imediato o Kremlin.

O que é o Novichok?

Numa primeira análise feita a Alexei Navalny, os médicos alemães detectaram a presença de uma substância semelhante a um inibidor da colinesterase, que inclui gás sarin, gás VX ou insecticidas, o que levou o Governo alemão a apontar para a possibilidade de envenenamento.

Os médicos que estão a tratar o advogado russo de 44 anos decidiram então pedir ajuda a laboratórios militares especializados em agentes químicos para descobrirem que veneno teria sido utilizado. Um dos laboratórios contactados foi o britânico de Porton Down, que identificou o Novichok como substância utilizada contra o antigo espião Sergei Skripal e a sua filha em Salisbury, em 2018. Os dois sobreviveram, mas uma britânica morreu após ser exposta ao agente que age sobre os nervos. A Rússia negou qualquer envolvimento.

As conclusões após as análises dos laboratórios militares vêm assim confirmar o diagnóstico inicial dos médicos alemães, enquanto os médicos russos que trataram Navalny numa fase inicial descartaram a tese de envenenamento, apontando antes para uma doença metabólica

O agente Novichok é uma arma composta por uma série de químicos, altamente tóxicos, desenvolvida nas décadas de 1970 e 1980, na União Soviética, que pode ser utilizada em pó, dificultando a sua detecção. Ao bloquear a actividade da enzima acetilcolinesterase, causa perturbações na transmissão de informação do cérebro, levando a espasmos musculares contínuos, convulsões, dificuldade em respirar e, em último caso, pode levar à morte por asfixia. O Novichok foi banido o ano passado, depois de ter sido adicionado à lista de substâncias proibidas pela Organização para a Proibição das Armas Químicas.

Esta quarta-feira, os médicos alemães fizeram um ponto de situação sobre a saúde de Navalny, em coma desde 20 de Agosto. O opositor de Putin continua em estado grave, ligado a um ventilador na unidade de cuidados intensivos, apesar de alguns sintomas estarem a regredir. No entanto, os médicos não conseguem prever as consequências a longo prazo do envenenamento e admitem que Navalny possa passar por um longo período de doença.