O novo filme de Ai Weiwei é um retrato da covid-19 em Wuhan, onde tudo começou

Com imagens captadas por equipas profissionais e cidadãos que voluntariamente ajudaram o artista no projecto, o documentário Coronation mostra como foi o confinamento da primeira cidade no mundo a ser atingida pela pandemia. Filme está disponível para aluguer ou compra no Vimeo.

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Frame de Coronation DR

A Organização Mundial da Saúde aplaudiu a decisão, chamando-lhe “uma medida sem precedentes na história da saúde pública”. A 23 de Janeiro, o Governo chinês desenhou no seu mapa doméstico um círculo à volta de Wuhan, encerrando a cidade que registou os primeiros casos conhecidos de infecção pelo novo coronavírus. Cedo a imposição se estenderia ao resto da província de Hubei, numa quarentena que manteve em casa cerca de 57 milhões de pessoas durante pouco mais de dois meses. À distância, retido na capital germânica de Berlim, o documentarista e activista Ai Weiwei contratou equipas de filmagem e usou gravações de voluntários com que agora, em Coronation, filme lançado digitalmente na sexta-feira, lança um olhar sobre o confinamento que inaugurou os confinamentos – e analisa os efeitos que este continua a exercer sobre as vidas daqueles que, directa ou indirectamente, foram violentamente beliscados pela covid-19 no epicentro da pandemia.

“Os espectadores têm de perceber que isto é sobre a China”, disse o artista ao New York Times, em solo português, numa entrevista telefónica. “Sim, é sobre a quarentena, mas, acima de tudo, tenta reflectir o que os cidadãos chineses comuns tiveram de enfrentar”, salientou Ai Weiwei. No filme, o artista dissidente do regime chinês deixa que os seus drones ilustrem como Wuhan se transformou numa “cidade-fantasma” e partilha testemunhos de pessoas que explicam como, após testes positivos ou na sequência da perda de familiares, o novo coronavírus revolveu as suas vidas.

Algumas das cenas de Coronation, gravadas de forma dissimulada e quase clandestina, destacam-se porque conseguem levantar o véu e desvendar os tipicamente inacessíveis bastidores da “maquinaria do Estado chinês”, segundo as palavras de Ian Johnson, do New York Times. O filme mostra pequenas cerimónias protocolares nas quais médicos e enfermeiros envolvidos no combate à propagação da pandemia recebem o prémio da adesão ao Partido Comunista Chinês, a agitação dentro das unidades de cuidados intensivos, a construção de hospitais a velocidades meteóricas e profissionais de limpeza com fatos protectores que passam spray desinfectante por tudo o que é superfície. Dentro dos crematórios, ouvem-se lamentos de funcionários que, enquanto amassam sacos de cinzas humanas para que estas possam caber dentro das urnas, dizem que já não conseguem trabalhar mais com as dores que sentem nas mãos.

A mesma inquietação deixam transparecer os intervenientes entrevistados remotamente pela equipa de Ai Weiwei. Numa fase inicial, o documentário acompanha a frustração de um casal que tenta regressar à sua casa em Wuhan e que não consegue fazer a travessia devido às rigorosas limitações de movimento impostas pelas autoridades. Uma parte significativa de Coronation tem que ver com a difícil dicotomia entre liberdade pessoal e segurança pública, que, assinala o crítico Charles Bramesco no jornal britânico The Guardian, actualmente “parecem forças opostas”.

Há também relatos de um estafeta que percorre a cidade para entregar bens de primeira necessidade a habitantes em situação de fragilidade agravada, um filho que precisa de passar por um extenso processo burocrático para poder ficar com as cinzas do pai e um voluntário de emergência da construção civil que, mesmo depois de concluir o seu trabalho, não pode abandonar Wuhan e regressar à sua cidade-natal de Henan, dormindo no carro (o The Guardian soube que o voluntário se suicidou depois de efectivamente regressar a casa).

Weiwei recolheu cerca de 500 horas de gravações para o filme de quase duas horas e contou com a ajuda da esposa Wang Fen, que tem irmãos a viver em Wuhan. “Ela teve um envolvimento emocional muito profundo”, refere ao New York Times o artista e activista, que, nas notas sobre o projecto alojadas no seu site, aponta para a dimensão política de Coronation. “Apesar da escala e da rapidez da quarentena de Wuhan, estamos perante uma questão mais existencial: a civilização consegue sobreviver sem humanidade? As nações conseguem confiar umas nas outras sem transparência?”, pondera, sugerindo que a “vigilância” e a “lavagem cerebral ideológica” terão sido as âncoras do Estado chinês nas suas manobras de controlo da crise sanitária.

O documentário está disponível para aluguer ou compra no Vimeo on Demand. Ai Weiwei admitiu que gostaria de ter podido estreá-lo num festival de cinema, mas sustenta que, depois de um interesse inicial, Veneza e Toronto acabaram por rejeitar a obra. O mesmo terá acontecido com a Amazon e a Netflix. Ao New York Times, o autor diz acreditar que os festivais e as plataformas de streaming mencionados querem manter uma boa relação de negócios com a China e que, como tal, preferirão evitar tópicos “que incomodem Pequim”.

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