“O silêncio é cúmplice.” Carta aberta pede acção política para combater racismo em Portugal

“A negação e inacção sistemáticas é o leito da impunidade do racismo que tem escalado para níveis a que já nos tínhamos desabituado”, dizem associações de afrodescendentes e ciganos.

A fachada da sede do SOS Racismo foi vandalizada na noite de 17 para 18 de Julho
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A fachada da sede do SOS Racismo foi vandalizada na noite de 17 para 18 de Julho

Uma carta aberta de várias associações e de colectivos de afrodescendentes e ciganos exigiu esta quarta-feira aos responsáveis políticos que combatam o racismo e o crescimento da extrema-direita em Portugal e que demonstrem solidariedade às vítimas de ataques raciais. 

A iniciativa, com o nome “O silêncio é cúmplice”, pede que os responsáveis políticos e instituições “accionem os mecanismos processuais para combater o racismo e o crescimento da extrema-direita” e que dêem “um sinal inequívoco e público sobre a inaceitabilidade de actos e organizações políticas e partidárias racistas”. A carta pede ainda que “demonstrem a sua solidariedade para com as vítimas destes ataques”.

“A negação e inacção sistemáticas é o leito da impunidade do racismo que tem escalado para níveis a que já nos tínhamos desabituado. As nossas vidas importam. O silêncio das instituições é cúmplice”, realça o documento enviado ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e ao primeiro-ministro, António Costa, entre outras responsáveis políticos.

A iniciativa, que junta 34 grupos anti-racistas de vários pontos do país, como a SOS Racismo, Movimento Negro, Afrolis, Djass, Consciência Negra, Femafro ou Aurora Negra, destaca que, “no curto período de quatro semanas, a sociedade portuguesa foi palco de manifestações racistas”, defendendo que esta escalada exige “uma resposta célere e um posicionamento explícito das entidades competentes num Estado de direito democrático”.

A missiva refere ainda que no sábado, em frente à sede da associação SOS Racismo, em Lisboa, houve “uma parada de um grupo neonazi, de rosto tapado e tochas” e que perante a “escalada dos ataques” não houve “qualquer demonstração institucional pública de repúdio”.

O documento lembra também que após o “assassinato brutal” do actor negro Bruno Candé “às mãos de um ex-combatente da guerra colonial” não houve “uma declaração institucional de pesar e comprometida com o anti-racismo”.

“As condolências e suporte institucionais nunca chegaram à família. Ao invés disso, da parte do Estado, tivemos a pronta declaração pública do comissário do Comando Metropolitano de Lisboa (Cometlis) da PSP, minimizando as motivações racistas neste assassinato”, frisa ainda.

Esta iniciativa critica ainda o facto de os líderes do PSD e do PCP terem negado a existência de racismo em Portugal. “Vieram agora outras figuras desses partidos timidamente tentar dar sinal contrário, mas sem emendar o erro. O líder do PSD chega ao ponto de mostrar-se disponível para um entendimento com o Chega, se este for mais moderado, mostrando o quão indiferente lhe é, política e eticamente, o trajecto de incitamento ao ódio racial e desprezo pela democracia que o Chega tem realizado”, destaca a carta.

O texto realça igualmente que as “duas contramanifestações” do partido Chega “por baixo da capa ‘Portugal não é racista’” incitam “ao antianti-racismo”.

“Chega-se ao ponto de devassar a vida privada de uma criança negra, de difundir informação caluniosa sobre Bruno Candé, poucos dias depois da sua morte. Num jantar em Leiria, André Ventura [líder do Chega], o mesmo que propôs o confinamento da comunidade cigana e que desde a sua candidatura a Loures tem incitado ao ódio e perseguido essa comunidade, volta a insultar uma das deputadas negras: ‘Elas que vão para os países delas, porque é lá que fazem falta’”, aponta a carta.

“Perante este abalroar constante da nossa Constituição, a acção das entidades competentes tem sido nula”, alerta o texto.

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