Abencerragens do Novo Banco

O que está a suceder no Novo Banco é algo de tal modo aberrante que, numa sociedade saudavelmente participativa, criaria um terramoto social.

A criação do Novo Banco é o extremo oposto do que nos garantiram os governantes que ia ser, um banco saudável sem toxicidade. Era o bom, o outro o mau para onde iam todas as maldades do Dono, garantias dadas para que estivéssemos sossegados… Lá sabiam as razões para nos enganar daquela forma.

O tempo traz sempre tempo atrás dele e atrás daquelas notícias vieram outras e mais outras e a relação entre o que se prometeu e o que sucedeu tende a esbater-se. Se, na vida política, estas condutas passarem a ser normais e o que se prometeu apenas valeu para sacar votos, então o povo vira as costas à política e desacredita até ao dia em que alguém que tudo fez para que as coisas fossem como foram, saia do “sistema” e prometa avançar “contra” ele.

O que está a suceder no Novo Banco é algo de tal modo aberrante que, numa sociedade saudavelmente participativa, criaria um terramoto social.

Na verdade, os portugueses estão a pagar negócios ruinosos que servem para enriquecer ainda mais alguns que de negócio em negócio, neste obscuro mundo de cupidez e gula, se abarrotam com milhões e milhões de euros. Saem diretamente dos que ganham o salário mínimo, médio, até dos que ganham um pouco mais, para donos de fundos sem fundo, funis de receção de milhares de milhões. Sem um euro de risco. O novo paradigma do capitalismo financeiro parasita.

As notícias deste jornal deviam abalar todo o Portugal, mas sacodem apenas a opinião pública e esfumam-se entre os comentários do futuro candidato Marques Mendes, as compras do Benfica, os luxos da nova administradora da TVI, as permanentes notícias das infeções e mortes da pandemia e os incêndios.

O encadeamento das escandalosas negociatas, ao que parece, legais, não pára. Marcelo diz, como sempre, que é urgente esclarecer o que é mais do que claro. O Novo vende a Velhos Abutres por 10 o que valia 50. Por gentileza, empresta essa massa aos compradores. E nós pagamos os 40, por imposição governamental, assim.

Ademais, o Governo tem sempre à mão aquela coisa a que chamam auditoria, que muitas vezes antes ser já o era, como a pescada. Desta vez foi ter com a Deloitte e fez seguramente um contrato que foi incumprido pela auditora. Ou seja, comprometeram-se a entregar no prazo x e não entregaram e não se sabe quando entregam. Uma empresa privada trata deste modo o Estado e ninguém reage… A Deloitte já deu explicações cabais das razões do incumprimento? Quem as conhece? Por que não são públicas? Era o momento? Era o quê?

O Estado não tem auditores que ajam em conformidade com o interesse público? Correu com eles para os privados e agora paga-os (pagamos) a preço do oiro aos que prosseguem apenas o lucro. Que estranho mundo que se orienta no sentido do Estado se desfazer dos seus quadros, os quais ingressam no privado, indo o mesmo Estado pagar os seus serviços por balúrdios que enchem os cofres de todas as Deloittes do mundo… Este é o veneno.

Onde era necessário transparência e rigor, deparamos com águas barrentas que ocultam os fundos dos Fundos.

É estranho que, conhecendo os portugueses as notícias escandalosas deste Novo Banco, se acomodem, em vez de se mobilizarem para que as coisas se passem de outra forma, pois a consciência da cidadania impunha-o. Que diabo, é o dinheiro de todos e a maioria desse dinheiro é de pobres e de remediados. E nem assim, tal a anestesia.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico