Opinião

A “verdade” do Chega

O livro de Riccardo Marchi é um mero exercício panegírico ao Chega. É pouco para um cientista social, mas chega perfeitamente como panfleto partidário.

A polémica do Verão, no que diz respeito às ciências sociais, foi sem dúvida a carta publicada no jornal PÚBLICO por umas dezenas de investigadores e professores universitários, denunciando a posição apologética do professor universitário Riccardo Marchi nas televisões e jornais quando convidado a falar do Chega. Ora, rapidamente se percebeu que a crítica havido sido feita sem os subscritores da carta terem lido o livro do politólogo sobre esse partido. Trata-se de uma injustiça para com o visado, que, sendo cientista social e tendo publicado um livro, merece ser avaliado, sobretudo por esse prisma. Li, pois, o livro de Riccardo Marchi, com o intuito de o recensear, até porque este estudo foi considerado “sério e desapaixonado”.

Constatei por isso, com alguma surpresa, que não se trata de um estudo de ciência política nem de história. É uma simples narrativa pormenorizada do percurso de Ventura e do aparecimento do Chega. Lê-se como um daqueles livros que os políticos lançam antes de uma campanha eleitoral, para mobilizar o seu eleitorado e que são rapidamente esquecidos depois da eleição.

De facto, o livro não cumpre critérios mínimos de distanciamento do objeto de estudo, nem do ponto de vista da ciência política nem da história. O livro não tem um enquadramento analítico, nem teórico, nem quaisquer comparações históricas ou da atualidade portuguesa ou europeia que possam iluminar o percurso deste novo partido. Também não inclui fontes alternativas de investigação, para além de notícias de jornal, nem sequer entrevistas a políticos que não sejam do Chega, para enquadrar devidamente as afirmações que vão sendo apresentadas por parte do núcleo duro do partido como “verdades”.

O livro está dividido em três partes – sobre o líder, o partido e as ideias. Quando se centra no percurso biográfico de Ventura, a ideia principal é retratá-lo como um outsider do regime. Ventura tem origens modestas, mas nesse ponto não se destaca nem de Passos Coelho nem do principal líder do PSD das últimas décadas, Cavaco Silva. Marchi nunca refere tal coisa. Pelo contrário, afirma que o caso de Ventura é “inovador e único” (p.19), porque “os líderes fundadores de anteriores partidos já tinham estruturas montadas em 1974 de forma rápida e consistente, graças à convergência de recursos materiais maciços”. Ora, tal não é verdade: os líderes fundadores lutaram num contexto de absoluta fluidez constitucional, institucional, económica, social e política. Ou seja, num contexto de enormes dificuldades.

Além disso, o “regime” foi suave para com o jovem Ventura. Depois do curso de Direito na Nova, foi trabalhar num dos grandes escritórios de advogados, a Uria Menendez, tirou o doutoramento na Irlanda pago pelo Estado português, deu aulas em várias universidades. Passado pouco tempo tornou-se comentador na BTV e na CMTV, e rapidamente integrou órgãos dirigentes do PSD-Lisboa e foi candidato às autárquicas em Loures por esse partido.

Parece um início de carreira fulgurante com o apoio de alguns insiders, mas o autor prefere singularizá-lo sempre como outsider. Afirma que o sucesso eleitoral nas legislativas se deveu apesar da oposição dos media tradicionais, tendo sido todo feito através de meios incipientes nas redes sociais, onde o líder do Chega contactava e era contactado pelos cidadãos comuns, omitindo nessa parte do livro que André Ventura já desde 2015 vinha ganhando enorme notoriedade em programas sobre crime e futebol na BTV e CMTV. Marchi também se esquece de mencionar na parte biográfica as ligações do líder do Chega à sociedade de advogados Caiado e Guerreiro, ou à consultora financeira FinPartner (referido apenas en passant já noutro capítulo).

De facto, comparativamente, Ventura é muito mais insider do que, por exemplo, André Silva do PAN, ou mesmo do que Carlos Guimarães Pinto da Iniciativa Liberal, ambos realmente desconhecidos do grande público e dos tradicionais circuitos de poder político-partidário.

No que concerne ao percurso político, o autor centra-se na carreira política de André Ventura, mas unicamente do ponto de vista dele e dos que lhe são próximos. Com efeito, Ventura saiu do PSD em outubro de 2018, mas Riccardo Marchi não entrevista um único dirigente deste partido para ouvir o outro lado da história. Nas eleições europeias de 2019, o Chega/Basta aliou-se ao PPM e ao movimento Dem-21. O autor também não considerou relevante falar com ninguém destas forças políticas para explicar as razões do desfecho da coligação.

E aqui chegamos ao real propósito do livro, a saber, a legitimação do partido e do líder do ponto de vista político. Estamos perante um partido que não é racista, nem de extrema-direita, mas sim, tal como indica o título do livro, uma nova direita anti-sistema. O facto de André Ventura ter politizado o tema dos ciganos em Loures, acusando toda uma comunidade por comportamentos individuais, é visto como uma justa oposição dos cidadãos comuns à subsidiodependência; os repetidos ataques a Katar Moreira são descartados como “provocações”; os posts racistas de dirigentes do Chega, desculpados com o crescimento desordenado do partido; a infiltração de membros de grupos de extrema-direita, um mero acaso a resolver, pois todos estão de boa fé. Marchi cita estudos em que se menciona que nas eleições legislativas de 2019 o Chega teve mais êxito em círculos onde a comunidade cigana ou a imigração estarão mais presentes. Isto, no entanto, não o leva a retirar a ilação que o apelo de Ventura poderá dever-se a ter jogado a carta da discriminação racial e étnica. Apenas afirma que nos estatutos o partido se afirma como não sendo racista, pelo que o partido não é racista.

Quanto à questão da extrema-direita, o trabalho também é subtil. Como explica o autor, todo o ideário do partido se fica a dever a dois indivíduos, Jorge Castela e Diogo Pacheco de Amorim, dissociando assim o líder das ideias programáticas. Ora, o programa de 2019 defendia, entre outras coisas, o fim do Sistema Nacional de Saúde e da Educação pública. Propunha o combate à imigração ilegal, uma Europa das nações e soberanista, defendia a família tradicional e o combate à ideologia de género. Tendo eu codificado o posicionamento do PNR ao longo de vários atos eleitorais passados, não vejo diferenças sérias entre o programa do Chega e do PNR. Teria sido útil que Marchi tentasse fazer o mesmo exercício para 2019 no livro, mas isso não acontece.

Já no mês passado, em Julho, o Chega aderiu ao grupo europeu Identidade e Democracia, que integra o partido de Marine Le Pen e a Lega de Salvini. Logo Ventura se apressou a dizer que havia nesse grupo uns partidos mais radicais que outros, mas que o Chega não era de extrema-direita. Marchi seguramente argumentará que estes partidos italiano e francês também não são de extrema-direita, mas apenas populistas de direita. No entanto, os casos húngaro e polaco mostram o contrário.

Talvez o autor pudesse fazer um esforço para fazer o teste do pato: se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato. Mas isso nunca acontece ao longo do livro, pois estamos perante um exercício panegírico ao Chega. É pouco para um cientista social, realmente, quer seja de história ou de ciência política. Mas chega perfeitamente como um panfleto partidário.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

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