Editorial

Marcelo e o “beicinho” da direita

Marcelo goza de um vasto apoio popular, e disso a direita, se fosse inteligente, poderia tirar dividendos. Infelizmente, a inteligência é material rarefeito em muitas organizações.

A aversão da direita institucional em apoiar Marcelo começa a ser um problema, antes de mais, familiar. É claramente uma cisão, profunda, dentro de uma família política, porque Marcelo, para os que tenham esquecido, é de direita e neste momento é o seu melhor activo. Ou talvez o único.

Mas parece que o pragmatismo, outrora uma característica atribuída à direita por oposição à “sonhadora” esquerda, mudou de campo. O pragmatismo hoje é de esquerda, enquanto a direita se zanga com os seus, amua, à medida que vai desaparecendo nas sondagens.

O líder do CDS faz beicinho e desafia – inopinadamente ou juvenilmente? – Marcelo a dizer já se é candidato, porque o CDS não pode declarar apoio a alguém que depois não o será. Ou a juventude política de Francisco Rodrigues dos Santos o faz levar à letra qualquer “indecisão” de Marcelo na recandidatura ou está apenas a aproveitar uma possibilidade de se demarcar de Marcelo.

Esta segunda hipótese torna-se mais clara quando o jovem líder desafia o Presidente da República a dizer se, no dia das eleições, “vai querer representar uma vitória do centro-direita ou do centro-esquerda”. Esquece-se de que o cargo é unipessoal, acima dos partidos, e que Marcelo não pode no discurso da vitória da reeleição desatar aos pulinhos em nome da direita e fazer um discurso partidário.

Manuel Monteiro, que foi um líder do CDS estruturalmente à direita e com muito mais sucesso do que até hoje vimos em Rodrigues dos Santos, não teve dúvidas em ir anunciar, ao Sol, que vai votar em Marcelo. Lobo Xavier ameaça sair do CDS se este se recusar a apoiar o Presidente da República. O esfrangalhamento do partido está na praça pública – não será a única razão, mas a incapacidade do seu líder em reconhecer que Marcelo é de direita é capaz de ser uma delas.

É natural que a relação privilegiada entre primeiro-ministro e Presidente da República incomode muitos da família política de Marcelo. Mas dar forma institucional a esse incómodo só vai prejudicar os seus promotores: primeiro, porque toda a esquerda sabe que Marcelo é de direita, mesmo que pontualmente estejam “apaixonados” pelo Presidente da República e dispostos a dar o seu voto, como muitos dirigentes do PS. Em segundo, porque Marcelo goza de um vasto apoio popular, e disso a direita, se fosse inteligente, poderia tirar dividendos. Infelizmente, a inteligência é material rarefeito em muitas organizações.

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