Torne-se perito

PSP diz que testemunhas da morte de Bruno Candé afastam motivação racista

Família do actor denunciou o “carácter premeditado e racista” do crime. Para já, a PSP diz não ter provas de motivações raciais. Esquerda pede justiça, Chega desvaloriza “ladainha”.

Bruno Candé
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Bruno Candé Bruno Simao

A morte de Bruno Candé Marques, o actor alvejado mortalmente no sábado, em plena Avenida de Moscavide, Loures, por um homem com cerca de 80 anos, é atribuída pela família da vítima a motivações raciais, mas a Polícia de Segurança Pública (PSP) diz não ter, até ao momento, qualquer informação que comprove a acusação.

A família do actor, negro, adiantou no sábado que o presumível homicida, branco, já o havia ameaçado de morte três dias antes, “proferindo vários insultos racistas” a Bruno Candé e aos seus familiares. “Face a esta circunstância fica evidente o carácter premeditado e racista deste crime hediondo”, escreveu a família em comunicado. 

Em declarações ao PÚBLICO, o comissário do Comando Metropolitano de Lisboa (Cometlis) da PSP, Luís Santos, esclareceu que, “da inquirição das testemunhas todas do local, ninguém fala de actos racistas”. O comissário diz que há relato de “diálogos ou confrontos que podem estar por detrás do incidente, mas não falaram nunca em questões racistas”.

O comissário salvaguarda, no entanto, que “há muita coisa que agora se poderá desenvolver” durante a investigação. Por se tratar de um homicídio, o caso foi entregue à Polícia Judiciária (PJ). O PÚBLICO tentou obter mais informações junto da PJ, mas sem sucesso até ao momento.

Luís Santos acrescentou ainda que o presumível autor do homicídio está sob custódia da PSP num dos departamentos do Comando Metropolitano de Lisboa, e que vai ser presente a um juiz nesta segunda-feira.

Amnistia Internacional e SOS Racismo pedem consequências

A possibilidade de o crime de sábado ter tido motivações raciais tem sido mencionada por responsáveis políticos e organizações cívicas. O director executivo da Amnistia Internacional Portugal, Pedro Neto, sublinha que “tudo leva a crer, e a família da vítima assim o diz, que foi um crime com motivação racista”.

“O racismo existe de forma quotidiana e, pelos vistos, alegada e infelizmente, teve aqui um expoente máximo que causou ódio e a morte de alguém”, lamentou Pedro Neto, que aproveitou para criticar “algumas forças políticas e grupos da sociedade [que] negam a existência de racismo”. “Talvez porque não o sentem”, acrescentou.

Pedro Neto instou ainda o Estado português a “cumprir e fazer cumprir” o compromisso que tem da defesa dos direitos humanos, pondo em prática iniciativas que acabem com os “crimes e a violência gerados pelo racismo”.

Também o SOS Racismo caracterizou o homicídio de sábado como “um crime com motivações de ódio racial”, pedindo “justiça” e que “o assassínio de Bruno Candé Marques não seja mais um sem consequências”.

BE e Joacine pedem justiça, Ventura critica “ladainha”

O Bloco de Esquerda de Loures reagiu no domingo ao homicídio em Moscavide, exigindo “que todos os pormenores e motivações do crime sejam devidamente apurados”.

“O assassínio de Bruno Candé Marques choca-nos profundamente e obriga-nos a todos, enquanto sociedade, a reflectir sobre como foi possível acontecer em plena luz do dia no centro de Moscavide”, escreve o BE de Loures em comunicado.

O crime de Moscavide “choca-nos profundamente e interpela-nos enquanto comunidade”, considerou Beatriz Gomes Dias, deputada do BE, através das redes sociais.

Somos convocados a combater, intransigentemente, o muro de silêncio que cerca o racismo”, escreveu a deputada bloquista.

Também nas redes sociais, a deputada não inscrita Joacine Katar-Moreira escreveu que se perdeu “um filho nas malhas do racismo que é todos os dias alimentado por muita gente”.

“Não à custa do sangue da juventude negra. Não à custa das nossas vidas. Racismo é crime e a justiça será feita”, declarou.

Por seu turno, o deputado e líder do Chega, André Ventura, rejeitou e criticou a leitura de que se está perante mais um crime de contornos raciais. “Não há neste caso um pingo de racismo”, escreveu na rede social Twitter, considerando que a morte de Bruno Candé “é uma tragédia, como seria o assassinato de um branco ou de um chinês”. 

“Acabem lá com essa ladainha habitual do racismo. Não somos um país racista! Nada neste homicídio aponta para crime de ódio racial”, escreveu no Twitter, acusando ainda o Bloco de Esquerda de aproveitamento do caso para “espalhar a suas habituais distorções ideológicas”.

Neste domingo, também o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, repudiou o homicídio de Bruno Candé Marques e defendeu a acção das forças de segurança. “Houve uma intervenção da PSP, que deteve de imediato o alegado responsável”, disse, acrescentando que “as autoridades judiciárias tomarão as suas decisões” perante um crime que o Governo repudia “vivamente”.

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