Opinião

A cultura do privilégio sente-se cancelada

A “cultura do cancelamento” não acaba com debate nenhum, mas parece estar a desafiar uma velha ordem instituída que se sente posta em causa.

Anda para aí uma grande confusão. Não é recente. Mas ganhou visibilidade nas últimas semanas por causa de uma carta assinada por 150 artistas e intelectuais que intensificou o debate da chamada “cultura do cancelamento”. Como aconteceu com a designação “politicamente correcto” trata-se de fazer crer que existe uma forma de estar no espaço público, conotada essencialmente com sectores progressistas de esquerda, que seria orientada para tentativas de regular o discurso político, definindo como intolerantes pontos de vistas opostos. Agora a lógica é idêntica.

Querem que acreditemos que existe um clima de censura, de intransigência perante visões contrárias, e uma tendência para dissolver questões políticas complexas em certezas morais. A expressão já serve para tudo. Veja-se o que aconteceu nos últimos dias em Portugal. Um artigo assinado por 67 subscritores, maioritariamente académicos, exercendo o direito de contestar uma intervenção televisiva que, na sua visão, branqueava o racismo do Chega, foi habilidosamente colocado no caldeirão da “cultura do cancelamento”, como se crítica e debate fosse o mesmo que censura.

A mesma tentativa de confundir vislumbra-se quando se quer fazer equivaler o direito à opinião ou de manifestação anti-racistas, com o ódio, a intimidação e a violência física, incluindo o assassinato, por parte de militantes de extrema-direita. E o que dizer do momento actual?  Enquanto a brutalidade policial é exposta no mundo inteiro, o que, pelos vistos, algumas personalidades querem discutir e contestar é uma fantasiosa “polícia” dos costumes.

O que os subscritores da carta consideram ser ameaças à liberdade de expressão são, na verdade, actos de liberdade de expressão. “Cancelar a cultura”, se alguém lhe quiser chamar isso, é uma indicação de que a liberdade de expressão está viva, embora circulando de forma orgânica, caótica e veloz, não formando um todo coerente, e sendo por isso difícil de classificar, inclusive à luz de categorias ideológicas, e isso é que confunde.

Há uma audiência que se envolve com o trabalho de outras pessoas e que se sente livre para criticar o que não gosta, seja individual ou colectivamente. Têm sido cometidos excessos, e até injustiças, nos últimos anos, no contexto do complexo ecossistema digital, ou no âmbito de movimentos como o #MeToo ou #BlackLivesMatter? É plausível, e isso não deve ser relativizado, embora em processos de mudança sejam inevitáveis.

Estão a ser criadas novas conflitualidades? Inevitavelmente, porque é de transformação que falamos e de hierarquias de dominação ou de privilégio que foram naturalizadas e agora são contestadas, em lutas de justiça social, ambientais, feministas, anti-racismo e outras. Todas essas lutas traduzem um interesse análogo por mudança, e embora não formem um projecto comum, abriram espaço para novos actores e posicionamentos. E isso incomoda. O que avulta é um sentimento de perda por parte de quem até há pouco só trocava satisfações com os seus pares e agora é confrontado por um espaço público que mudou. Existe desconforto. Entende-se crítica como se fosse censura. Não se entende o lugar privilegiado que se ocupa, perante quem apenas deseja também alcançar um lugar de fala.

No meio da conflitualidade está a liberdade de expressão. Ela é a base fundamental de uma sociedade livre, mas para que todos possam usufruir dos seus benefícios, é preciso afiná-la com igualdade e responsabilidade. Sem igualdade, os que estão no poder poderão utilizar a sua liberdade de expressão para marginalizar os outros. Sem responsabilidade, a liberdade pode transformar-se em impunidade. Não é isso que vemos em lideranças autoritárias e musculadas? Não é isso que, noutro prisma, levou há dias a congressista americana Alexandria Ocasio-Cortez a criticar a impunidade da linguagem sexista depois de ter sido insultada? Não foi isso que vimos também no rosto do ex-polícia Derek Chauvin, enquanto mantinha o joelho no pescoço de Floyd por oito minutos e 46 segundos? A chamada “cultura do cancelamento” não acaba com debate nenhum, mas definitivamente parece estar a desafiar uma velha ordem instituída, com gente de todos os quadrantes a sentir-se posta em causa. 

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