Opinião

Quem pode ser director de museu?

Ser director de museu não é o mesmo que ser conservador-restaurador ou historiador da arte. Estes são profissionais, com formação prolongada própria. Aquele é alguém chamado a desempenhar uma missão, por tempo limitado.

No rescaldo do “caso” Rita Rato, do reclamado incumprimento de critérios de secção e do indisfarçável anti-comunismo primário, subsiste a pergunta: quem pode, afinal, ser director de museu? Apenas os “museólogos”, aqueles que assim se auto-intitulem por terem frequentado cursos ou somente algumas disciplinas de “museologia"? Ou todos os que, habilitados academicamente para saber interrogar criativamente as colecções, apresentem visões que permitam estabelecer laços de interacção com as comunidades envolventes? Trata-se de questão muito actual, de tal modo que entre a primeira e segunda vaga dos concursos recentemente abertos pelo Ministério da Cultura, ou seja em cerca de um mês, os perfis de selecção mudaram e os requisitos da “formação em museologia“ (e não graduação, note-se) passaram de obrigatórios para omitidos, numa espécie de oito e oitenta que tenho por errada em ambos os casos.

Tive já ocasião de me referir ao que entendo serem os equívocos da museologia e da patrimoniologia: nenhuma das duas se me afigura constituir uma ciência, não obstante o sufixo que usam — e aliás não por acaso é evitado pela expressão mais comum usada em inglês e mesmo em alguns cursos portugueses, que preferem falar em “estudos de museu”. Trata-se antes, na melhor das hipóteses, de conhecimentos aplicados, que os profissionais dos museus têm vantagem em adquirir.

Dir-se-á que é isto que sucede actualmente. Mas de facto não é bem assim e a discussão sobre a direcção de museus teve o condão de o iluminar. A observação das mais de duas dezenas de mestrados de 2º ciclo com alguma componente de museologia e património cultural existentes em Portugal no presente ano lectivo é muitíssimo eloquente tanto da sua diversidade como, na maior parte dos casos, da sua debilidade em termos do que realmente se requer nos museus. E o que se requer, então? Teóricos capazes de descobrir a pólvora e fazer “museologia social” em cada novo trabalho ou tese de envelhecimento rápido? Bem, sejamos francos: dados os constrangimentos existentes, talvez seja melhor que esses fiquem onde principalmente estão, ou seja, nos departamentos universitários que os formam. Conservadores no sentido verdadeiro das profissões museais (não curadores, que o Referencial Europeu das Profissões Museais, do ICOM, nem sequer reconhece)? Sim, muitíssimo até, mas é altamente duvidoso que na maior parte dos casos (havendo honrosas excepções) a formação acima indicada garanta tal propósito, mesmo quando o favoreça e não deva por isso ser menosprezada. Mediadores, gestores, marketeers? Sim, igualmente, mas será neste caso normalmente preferível recorrer aos respectivos profissionais, cujas formações de base possuem valências muito mais substantivas para o efeito.

Dever-se-á, então, criar cursos de raiz, logo à saída do Secundário? Este caminho, que entre nós já começou a ser experimentado pelos “patrimoniólogos”, terá talvez o potencial de engolir actuais formações pós-graduadas, como a de “museólogos”, que nele se subsumirão. Mas constituirá uma espécie de emenda pior do que o soneto, dando origem a especialistas de coisa nenhuma. E esta é mesmo a questão: um arqueólogo, um antropólogo, um biólogo, um escultor, um historiador da arte só o são ao fim de 5 anos de estudos (3+2) — o que faz toda a diferença, pela solidez da formação e sobretudo pelo objecto da mesma, ou seja, matérias que permitem transformar coisas comuns em peças de museu, sendo por isso saberes que aos museus conferem sentido de existência e legitimidade social. O mesmo se passa com profissões como as de conservador-restaurador, de bibliotecário e de tantas outras de que os museus carecem e antes eram neles habituais, como aqui mesmo pude referir, dando o meu testemunho. Ora, se já a opção por estudos pós-graduados em “museologia” ou “patrimoniologia” inviabiliza na prática a formação plena, e por conseguinte o exercício da profissão, por parte de quase todos os especialistas de que os museus precisam (os arqueólogos, por exemplo, se terminado o 1º ciclo de estudos optassem por formação em museologia, ficariam impedidos de dirigir escavações), imagine-se o que seria dotá-los apenas de generalistas, sem efectivo conhecimento dos acervos: seria assim como se noivo e noiva, colecções e quem as sabe interpelar, se entregassem pela vida fora nas mãos do mestre-de-cerimónias que um dia lhes serviu o copo de água.

Tudo o que fica dito torna-se particularmente evidente quando se discutem os perfis académicos e curriculares mais adequados para o exercício de direcção. Ser director de museu não é o mesmo que ser conservador-restaurador ou historiador da arte. Estes são profissionais, com formação prolongada própria. Aquele é alguém chamado a desempenhar uma missão, por tempo limitado — e qualquer profissional de disciplina científica relevante para o acervo de cada museu concreto pode ambicionar exercê-la, tenha ou não trabalho anterior em museus. Esta experiência, bem como a formação pós-graduada mais focada em “estudos de museus”, pode, deve mesmo, ser critério favorável de selecção, mas não necessariamente prioritário e muito menos excludente. Saberes ditos de “museologia” podem ser garantidos por outros membros das equipas dos museus. E podem também ser obtidos já em exercício, especialmente no caso mais sensível que é o das competências de gestão, que pouco ou nada têm a ver com as de museologia e são aliás obtidas noutras escolas e cursos. Todos os que exerceram lugares de director de museu no Ministério da Cultura vai para década e meia sabem de resto bem como tal aconteceu, pela frequência que tiveram de fazer dos cursos do INA especialmente desenhados para esse efeito.

Há finalmente algo a acrescentar, um quase grito de alma, por parte de quem, como eu, reconhece a necessidade da validação académica, mas não encerra nela o valor das pessoas e dos seus saberes. Alargássemos o referente do universo dos museus, para nele incluir a grande maioria, ou seja, os de base comunitária, e logo veríamos, como de facto vemos, que mesmo as graduações formais seriam dispensáveis para um bom director de museu. E vivêssemos num outro mundo mais humanista, talvez até um minhoto simples e anti-académico, um dos melhores profissionais de museus que até hoje conheci, de nome Benjamim Pereira, pudesse ter sido director de um museu nacional. O problema é que, com o “prestígio dos canudos” e os agravos que destes recebem com frequência os mais sábios, cada vez menos destes hão-de querer ser directores de museus. E será tanto mais assim, quanto mais nos deixarmos aprisionar pelo “activismo doutoral” que, no campo dos museus, nos pretende impingir a falácia de que as práticas centradas em colecções são as responsáveis pelo elitismo, enquanto futuros de hidromel nos aguardam, desde que revestidos por lantejoulas.

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