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Pré-publicação

O cartão de estudante sem fotografia

O primeiro hospital psiquiátrico português, o Miguel Bombarda, em Lisboa, fechou portas em 2011. No sótão do edifício principal ficou durante meses uma caixa de cartão com objectos pessoais de antigos doentes. Nunca reclamados. Na série especial do PÚBLICO “O que eles deixaram no manicómio” Catarina Gomes começou a contar a história de alguns deles. No livro Coisas de loucos (Tinta da China), que chega esta semana às livrarias, percorre a vida de oito pessoas a partir dos pertences que deixaram para trás, e que Paulo Porfírio fotografou. Um deles foi Clemente.

Quando Clemente foi levado para o Manicómio Bombarda, transportava poucas coisas consigo. Dele ficou apenas uma agenda, um calendário, dois bilhetes de eléctrico, cinco cartões‑de‑visita. Eram objectos banais, qualquer um podia trazê‑los consigo. Apenas o seu cartão de estudante da “Faculdade de Sciências” fazia dele, à época, um português de excepção.

A agenda está em branco, os bilhetes de eléctrico só têm duas viagens picadas, restavam‑lhe ainda 12, e se tinha cinco cartões‑de‑visita presume‑se que seriam os que tinham ficado por distribuir, porque ninguém manda fazer tão poucos. São pertences que remetem para o que Clemente deixou por fazer. Para o inacabado. Com o seu cartão da “Faculdade de Sciências” da Universidade de Lisboa, de 1921 — que tem o espaço para a fotografia vazio —, é essa a dúvida que fica: terá chegado a concluir o curso?

No cartão alguém escreveu a lápis de carvão que o estudante Clemente da Costa Santos tinha 19 anos. Estar na universidade significa, em teoria, ter projectos, uma vida em continuação, futuro.

Os dados hospitalares revelam que daí a oito anos estaria a ser internado no manicómio, o que, em teoria, lhe teria dado tempo suficiente para terminar o seu curso universitário, qualquer que ele fosse. Mas às vezes não basta ter tempo.

Clemente pertencia, apenas por estar inscrito no ensino superior na década de 1920, a uma pequena minoria de portugueses a quem a jovem República, inaugurada em 1910, vaticinava futuro. Na verdade, bastava saber ler e escrever para se pertencer a uma espécie de elite (menos de 30% tinham essa competência). No tempo de Clemente, os portugueses na universidade não chegavam a quatro mil. Hoje rondam os 380 mil.

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Escadaria do Miguel Bombarda

A República entendia a universidade como o viveiro de “uma sociedade nova”, onde se forjaria “um homem novo”, escreve ‑se no livro Uma História da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Clemente fazia parte desse contingente de esperança.

No processo clínico do manicómio, a sua “história da doença” inicia‑se com os estudos. A tia de Clemente, com quem vivia, recorda como ele era “muito estudioso”, dando a entender que era precoce, o rapaz: “Tinha o curso dos liceus aos 17 anos.”

Clemente perdera a mãe com dois anos e meio. No processo regista‑se que, por causa da doença, a mãe não pôde amamentar o filho, que teve de ser alimentado a biberão. Era demasiado pequeno, não terá ficado com memórias da tosse repetitiva, da febre, dos suores nocturnos. Conceição Costa morre de tuberculose pulmonar em 1905, aos 36 anos.

No início do século XX chamava ‑se à tuberculose “a peste branca”. O clima era de alarme social. Um médico da época, citado por António Ramalho Almeida em A Tuberculose: Doença do passado, do presente e do futuro, descreve o cenário em que encontravam muitos dos “infelizes” infectados: “Caídos na cama, emagrecendo dia-a-dia”, “desfazendo‑se‑lhes a pouco e pouco os pulmões, que são expelidos com os escarros e por fim a perda completa das forças, e depois a morte”.

A propaganda médica da altura multiplicava‑se em conselhos. Havia que fazer exercício, apanhar os ares sãos da beira‑mar e das montanhas altas, práticas a que só uma pequena parcela da população podia aceder. A família de Clemente vivia no centro de Lisboa, o pai era tipógrafo. A “explosão” de casos acontecia nas grandes cidades.

Cicatrizes

No processo clínico de Clemente anotou‑se ainda que, quando a mãe estava grávida, caíra. A queda era a razão por que o filho bebé tinha uma cicatriz na cabeça, que foi aumentado com a idade. Os médicos do manicómio registam no seu processo as cicatrizes que tinha no crânio, uma alongada e outra arredondada.

As páginas da agenda que Clemente trazia consigo, de 1927, estão em branco. O pequeno volume tinha sido um “brinde” oferecido pela tipografia Maria da Fonte, talvez por ter sido aí que mandou fazer os seus cartões‑de‑visita; lê ‑se: “Todos os trabalhos executados nesta casa são feitos com a máxima perfeição, arte e gosto. Bilhetes postais e cartões de visita.”

Em dois dos cinco cartões‑de‑visita amarelecidos ficaram vestígios de vida. O papel tem gravadas circunferências sobrepostas, demasiado pequenas para terem sido de um copo sujo, marcas de um qualquer objecto em desassossego.

A quem terá distribuído o resto dos seus cartões? Aos colegas da faculdade? Neles não consta ainda uma profissão, mas o facto de os ter mandado imprimir parece mostrar uma vontade que Clemente teria de se apresentar ao mundo, aos outros. Sou Clemente da Costa Santos, moro na “Rua de São Marçal, 87 s/loja, Lisboa”, lê‑se.

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A casa onde vivia com a tia ficava no centro histórico de Lisboa. Deslocando‑me ao prédio para lhe ir bater à porta constato como Clemente estudava tão perto de casa. Ia a pé para a faculdade, que ficava ao fundo da rua, em plano inclinado. Da sua rua ainda via uma nesga de Tejo.

O seu é um prédio de quatro andares e águas furtadas em malva. Clemente habitava um espaço de permeio entre o rés‑do‑chão e o 1.º andar — a sobreloja fica entre dois pisos. Ainda existe. Ninguém atende nas várias vezes em que lá vou tocar à campainha. Informam‑me de que não habita lá ninguém em permanência. “Isto era uma aldeia, agora não”, lamenta uma das moradoras mais velhas, apontando para a porta que fica colada à sua, “aqui não sei quem está”. Na casa onde vivia Clemente estão pessoas desconhecidas da vizinhança, talvez operários, “entram e saem”.

Quando se sentava nos bancos da “Faculdade de Sciências” de Lisboa, a instituição era mais jovem do que ele, que tinha 19 anos. Existia há apenas dez. Quando passava as portas do edifício onde vinha às aulas, ainda não sei de que curso, o rinoceronte preto não ocupava o átrio marmóreo da entrada, como agora, não tinha sequer sido capturado junto ao rio Lingué, Cuando‑Lubango, Angola, diz a legenda que foi em 1954.

O sítio onde Clemente ia às aulas não era ainda, como agora, um Museu de História Natural, nem se ouviam meninos estrangeiros como este que grita “uau!” à frente de uma lula gigante, de mão dada com a mãe de braços tatuados. Muitos dos animais embalsamados não tinham sequer nascido, muito menos sido conservados em formol para serem observados pelo menino louro e barulhento.

No tempo de Clemente reinaria decerto o silêncio e o decoro nesta escadaria que uma turma do ensino secundário enche de vozearia. Era sítio de acesso restrito. No verso do cartão de estudante diz‑se que, ao abrigo de um decreto de 1914, o aluno é obrigado a apresentar o bilhete de identidade sempre que tal seja exigido por qualquer empregado da universidade.

Quando Clemente subia estas escadas monumentais, era obrigatório ir às aulas práticas, que duravam duas horas, mas não às aulas teóricas, de uma hora, razão que alguns autores de Uma História da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa apontam para a elevada taxa de insucesso dos alunos.

O Museu de História Natural tem uma “Sala da Memória” para lembrar o tempo em que era aqui a Faculdade de Ciências. Na década de 1970 ainda havia aulas no edifício, mas leio que em 1978 houve um grande incêndio que destruiu parte do recheio. Nas vitrines mostram‑se objectos que resistiram ao fogo: um quartzo brilhante com fissuras cor de carvão, uma amonite e um tronco enegrecidos. Terão os processos académicos antigos sobrevivido? Haverá neles uma imagem do estudante Clemente?

Um processo magro

A resposta já não está no edifício que é museu. Quarenta anos depois de Clemente frequentar a faculdade, “Sciências” agora é “Ciências” e a instituição passou para outro local, aonde vou à procura da sua história, no campus da Cidade Universitária, onde Clemente não poderia ir a pé de sua casa. Alguém gravou com stencil, em várias paredes exteriores, a frase “Isto um dia vão ser ruínas”.

A Faculdade de Ciências de Lisboa é feita de pavilhões modulares desenhados para serem modernos, mas que já parecem datados. No C5 fica a secretaria, onde pergunto se terão o processo de um aluno de 1921. Está calor, estudantes afogueados aguardam a sua vez de serem atendidos, cada mudança de número de senha lembra o som de uma cigarra. A funcionária mais nova, dos seus 40 anos, faz a minha pergunta à colega, que há‑de andar pelos 60 anos, como se as duas décadas de vida que esta leva de avanço pudessem torná‑la mais útil nesta busca por um aluno mais antigo que o edifício onde trabalham. Se fosse vivo, Clemente teria 117 anos.

É a funcionária sexagenária quem esclarece que ali só é possível recuar 30 anos. O passado ainda mais remoto estará, se estiver, no edifício grande da Reitoria da Universidade de Lisboa. Aí, os “serviços académicos” são para alunos vivos, remetem‑me para o “Arquivo e Expediente”, onde me dão uma folha em branco para que solicite acesso a esse passado. À espera, num átrio grandioso e frio, lembro o tanto tempo que tive para imaginar — cinco meses de espera — o que aqui viria encontrar sobre Clemente.

“É um processo magro”, avisa a funcionária, conduzindo‑me através dos corredores largos forrados a pedra polida brilhante. Faltava ao cartão de estudante universitário uma fotografia, que também não existe no seu processo académico. Clemente permanece sem rosto. Ali vejo delineada a caligrafia cuidada, a mesma com que assinou o seu cartão: “Clemente da Costa Santos desejando fazer exame de…”.

Vejo que concluiu o ensino liceal, na área de Ciências, no Liceu Passos Manuel, que também lhe ficava perto de casa. Mas apesar de a faculdade ser de ciências, Clemente estava nela porque queria ser engenheiro militar. Recordo que o seu certificado de baptismo referia que o pai era tipógrafo, mas que o padrinho era oficial do Exército, talvez estivessem convencidos de que este o poderia ajudar a arranjar emprego depois do curso.

Embora criada pela República para incutir nos alunos “o ideal da investigação científica”, a “Faculdade de Sciências” manteve muito do espírito da antecessora, a Escola Politécnica, refere a obra Novas Memórias de Professores Cientistas. Ou seja, preparava sobretudo os alunos para profissões técnicas, nomeadamente carreiras militares, que necessitavam de base científica. “Não era inicialmente claro o que significava ser cientista.” Era evidente o que se esperava de um engenheiro.

Mas a frequência universitária de Clemente parece ter sido sobretudo um plano de intenções. O estudante surge em múltiplos ofícios a pedir inscrições, comprovativos de frequência, idas a exames: a Álgebra Superior, a Geometria Analítica, a Trigonometria Esférica, a Desenho Rigoroso e Desenho de Máquinas. Em lado nenhum se diz que conclui qualquer uma destas cadeiras. Apenas uma: “Certifico que frequentou no ano lectivo de 1921‑22 os trabalhos práticos de Química Geral, tendo sido habilitado”, refere o ofício. O curso universitário de Clemente foi sobretudo ambição.

A tia, descrita pelos médicos como sendo “nervosa”, repetirá que o sobrinho era “bom estudante, cumpridor dos seus deveres, brioso, respeitador” e, parecendo ser um bónus, até requisito desta sua descrição, que “não era namorador”. Dois anos depois da sua inscrição na Faculdade, em 1921, a tia adoeceu gravemente, “sendo julgada irremediavelmente perdida”. No seu processo académico, o último ofício que Clemente redige é de 15 de Junho de 1923. A doença da tia abalou‑o “profundamente”, escreve‑se no seu processo clínico. “Temendo a sua morte próxima, abandonou os estudos e pensou empregar‑se, o que não conseguiu, depois de várias tentativas. Tornou‑se nervoso, triste, pensativo”, escrevem os médicos do manicómio.

“Tinha frequentes crises de choro, falta de apetite e insónias.” “Aborrecido com a vida, dizia desejar suicidar‑se, atirando ‑se ao Tejo.” “Às vezes fugia de casa e era trazido pela polícia.”

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