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Série Ciências Sociais em Público (XV) - Análise

“Saudades do Brasil em Portugal” — os músicos brasileiros em Lisboa

A presença da música brasileira em Portugal atravessa o século XX, impulsionada pela expansão das indústrias fonográfica e audiovisual para além das fronteiras do Brasil e por trocas entre músicos brasileiros e portugueses. O advento da imigração brasileira no país nos anos 1980 fortaleceu esta presença.

Ao longo do século XX, a música brasileira fez-se presente em Portugal através do encontro entre músicos brasileiros e portugueses, da realização de concertos e da influência das indústrias fonográfica e do audiovisual; o advento da imigração brasileira nos anos 80 fortaleceu esta presença.

Durante a realização do doutoramento em Antropologia, desenvolvi uma investigação sobre a relação entre os movimentos migratórios e a produção de bens culturais, tendo como ponto de partida a análise da experiência vivida por músicos imigrantes brasileiros que atuam em zonas centrais de Lisboa. Ao longo da investigação, realizei trabalho de terreno por 16 meses entre 2015 e 2016, que resultou na tese intitulada Isso aqui É o Brasil: uma etnografia sobre músicos brasileiros em Lisboa (ICS-Ulisboa, 2020).

A música brasileira fazia parte da paisagem sonora portuguesa muito antes da chegada de numerosos contingentes de imigrantes ao país. Em Lisboa, esta presença é notada quer nas zonas mais centrais e turísticas, quer nas zonas mais periféricas. Ouve-se música brasileira por toda a cidade: dos bares com música popular brasileira (MPB) no Bairro Alto às festas de música sertaneja na região de Odivelas; dos concertos de artistas brasileiros consagrados em importantes salas de espetáculos aos músicos anónimos que se apresentam nas ruas da cidade, nas rádios, nas telenovelas e nos programas televisivos. A música brasileira faz-se presente no imaginário musical português desde há décadas, e tem passado por constantes renovações. A chegada de fluxos de imigrantes brasileiros a Portugal na década de 80 fortaleceu esta presença da música brasileira e inaugurou novos espaços de difusão e consumo.

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Bairro Alto Rui Gaudêncio

As relações entre Brasil e Portugal no campo musical remontam às suas relações históricas. Ao longo do século XX, a música brasileira materializou-se no contexto português a partir do encontro entre músicos brasileiros e portugueses, na realização de concertos e na influência das indústrias fonográfica e do audiovisual. Além das relações históricas, estudiosos do tema apontam para a afinidade resultante da partilha da língua portuguesa como elo central desta troca.

Desde o desenvolvimento da modinha, ritmo considerado português e brasileiro, entre os séculos XVIII e XIX até aos intensos diálogos musicais travados entre os dois países na primeira metade do século XX, a troca acontecia nas duas margens do Atlântico. Esta circulação de via dupla perde a sua força, fazendo com que a MPB ocupe um espaço privilegiado no cenário português, principalmente através da rádio, e a presença da música portuguesa no Brasil se torne mais tímida.

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Amália Rodrigues Lusa

Em 1970, Amália Rodrigues gravou Saudades do Brasil em Portugal, fado composto por Vinícius de Morais e Homem Cristo. O encontro icónico entre a voz incontestável do fado português e o célebre compositor e poeta brasileiro ilustra bem a relação entre os dois países no panorama da música popular. Neste período, a primazia da música brasileira em Portugal em comparação com a menor penetração da música portuguesa no Brasil tornou-se evidente. A popularização da bossa nova e de nomes da música popular, como Roberto Carlos, são alguns exemplos que mostram como este bem cultural brasileiro construiu ao longo dos anos um espaço próprio no cenário musical português. Os anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 — coincidentes com o recrudescimento da ditadura militar brasileira — ficaram marcados pela chegada das telenovelas brasileiras ao mercado do audiovisual português, e com elas seguiu-se uma enorme quantidade de concertos de artistas brasileiros renomados que se apresentavam em casas de espetáculos em diversas regiões do país. Surgiram também programas de televisão e rádio dedicados exclusivamente à música brasileira, além de publicações, como o semanário Se7e, cujo conteúdo se pautava pelos comentários acerca das telenovelas e de críticas musicais de artistas da MPB.

Alguns artigos científicos no campo da etnomusicologia sugerem que estes canais de comunicação colaboraram para a construção de imagens e ideias a respeito desta produção musical que moldariam o gosto e definiriam os ritmos e os artistas que entrariam para o hall da “música brasileira de qualidade”. Assim, a valorização de nomes como Chico Buarque, Elis Regina, entre outros, dava-se não somente através da divulgação de suas canções nas bandas sonoras das telenovelas, mas também através da realização de concertos e divulgação em programas televisivos. O concerto de encerramento da Festa do Avante! de 1980, em 13 de julho, no Alto da Ajuda, alguns dias após o falecimento de Vinícius de Moraes (9 de julho), consolidou esta consagração da música brasileira. Subiram ao palco Chico Buarque, Edu Lobo, o quarteto MPB4 e Simone, para fazer um concerto que se tornaria icónico na carreira dos músicos, destacando a importância do público português para o trabalho destes artistas e marcando a incontornável presença da música brasileira em Portugal.

Telenovelas, concertos e imigrantes

Se os anos 80 se iniciaram com a grandiosidade do concerto da Festa do Avante!, a década acabaria marcada pela primeira vaga migratória de brasileiros em Portugal. Enquanto o Brasil vivia o período da redemocratização — a abertura do regime acontecera em 1985 — permeado por intensas crises económicas e políticas, a sociedade portuguesa vivia a sua entrada na União Europeia, atraindo imigrantes brasileiros oriundos de classes médias urbanas do Brasil, ficando também conhecida como “vaga dos dentistas e publicitários”.

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Cartaz da festa do Avante! de 1980 DR

Entre os jovens profissionais brasileiros que chegaram a Portugal entre o fim de 1980 e início de 1990, havia muitos músicos que buscavam dar continuidade às suas carreiras e outros que atuavam como músicos nas horas vagas. Começa então a surgir principalmente na capital, Lisboa, um circuito de música brasileira ao vivo. Os espaços de atuação para estes músicos imigrantes, anónimos, tornavam-se mais numerosos e diversos, somando-se ao contínuo sucesso das telenovelas e o aparecimento de rádios dedicadas à divulgação da música brasileira (como a Rádio Cidade). Novos géneros musicais mais distantes do padrão de consumo que se via entre portugueses até então, como a música sertaneja, o funk e a axé music, ganham um vigor imparável e marcam a multiplicidade de música brasileira ao vivo no país.

Músicos migrantes

Entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2000 assiste-se à chegada de um enorme contingente de imigrantes brasileiros que ficou conhecida como a “segunda vaga migratória”. Eram cidadãos brasileiros de diferentes origens sociais e geográficas que se estabeleciam em Portugal e abriam caminho ao desenvolvimento de diversos circuitos musicais que passaram a coexistir com o circuito de concertos de artistas consagrados. Desde então, é possível encontrar, sobretudo em Lisboa e na sua área metropolitana, uma infinidade de eventos em bares e restaurantes dedicados à divulgação da música brasileira em toda a sua variedade rítmica. Esta paisagem cultural e sonora abre caminho às carreiras artísticas de inúmeros músicos migrantes que, embora desconhecidos do grande público, descrevem uma trajetória de migração fundamentada na produção e difusão da música, o bem cultural brasileiro por excelência.

Durante o trabalho de terreno pude observar que não há prevalência de uma região brasileira específica de origem destes músicos. Por outro lado, identifiquei um maior número de homens do que mulheres, contrariando a tendência de feminização da imigração brasileira em Portugal. A página do Facebook Músicos Brasileiros em Portugal oferece uma boa visão deste cenário, apresentando-se como um espaço de troca de experiências, procura de oportunidades de trabalho e divulgação de eventos.

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Ensaio para o Baile do Periquito, baile de Carnaval realizado em Fevereiro de 2016 no Centro Cultural ArtCasa, na zona da Bica, em Lisboa Keisy Lyra

O caráter laboral da segunda vaga de imigração submete os migrantes a uma condição de subalternidade, fazendo emergir conflitos e animosidades que reforçam estereótipos negativos em relação ao Brasil. Possibilitar o desenvolvimento de uma carreira musical neste cenário compreende uma difícil articulação desta condição subalterna com a conquista de um lugar próprio no âmbito das práticas musicais em Lisboa.

Ao longo do trabalho de terreno acompanhei cerca de uma dezena de músicos brasileiros que atuam em diversos espaços da noite lisboeta, sobretudo nas regiões centrais da cidade. Deste modo, pude delinear o modo como as suas trajetórias de migração se conectam com o desenvolvimento de suas carreiras artísticas, fazendo emergir este movimento constante de articulação entre suas pretensões no ofício musical e a condição de subalternidade que a migração implica.

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Concerto do grupo Samba Sem Fronteiras, na Associação Renovar a Mouraria, em 2015 Amanda F. Guerreiro

Inês, cantora que saiu da região Centro-Oeste do Brasil em 2005, tendo chegado a Lisboa em 2006 após uma breve estadia em Itália, encontrou em Lisboa um terreno fértil para o desenvolvimento da sua carreira musical. Contudo, ao longo da sua trajetória como imigrante teve que trabalhar em outras áreas (como cuidadora, por exemplo), de modo a assegurar a sua sobrevivência financeira e o acesso a uma situação regular perante o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Jorge, guitarrista da região Sudeste brasileira, mesmo tendo uma carreira artística estabelecida no Brasil, encontrou percalços comuns aos migrantes (os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados). Chegando a Portugal em 1992, trabalhou com música, mas passou por períodos em que precisou de trabalhar em áreas não relacionadas com a sua arte, como a construção civil, por exemplo. Quando terminei a investigação, ambos se encontravam numa situação de estabilidade e conseguiam viver exclusivamente das atividades ligadas à música.

Os músicos que se apresentam em bares, restaurantes, praças, ruas e miradouros lisboetas estão a todo o momento a confrontar-se com a precariedade laboral que caracteriza a sua atividade. Atualmente, esta precariedade atinge contornos dramáticos diante da crise desencadeada pela pandemia de covid-19 e pela falta de políticas públicas contundentes que ofereçam auxílio a estas pessoas, cuja atividade profissional é marcada pela informalidade e contacto com o público. Se no momento em que finalizei a minha investigação, os músicos brasileiros viviam um momento de pleno desenvolvimento de suas carreiras impulsionado pelo fortalecimento do turismo no país, hoje defrontam-se com a necessidade de reinventar seu ofício. Desde o início do distanciamento físico organizam-se em busca de novas formas para conseguir sobreviver como músicos e migrantes, muitos têm feito lives nas redes sociais, como uma forma de divulgar seus trabalhos e arrecadar algum dinheiro.

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Concerto do Projeto Samba que te Canto no Bar Água de Beber, na zona do Cais do Sodré, em 2017 Amanda F. Guerreiro

A presença de bens culturais brasileiros ao longo de todo o século XX em Portugal traz à tona as relações históricas entre os dois países, moldando a opinião pública portuguesa sobre o que era (e, em certa medida, ainda é) a “boa música brasileira”. Assim, os músicos que percorrem o circuito da música ao vivo nas zonas centrais de entretenimento da capital lançam mão destas imagens e discursos para pavimentar um caminho que assegura a continuidade de suas carreiras musicais, apesar dos percalços e precariedade que encontram, como a falta de vínculos laborais formais. Atualmente, Lisboa conta com uma vasta programação musical pautada pelas práticas destes músicos brasileiros. As rodas de samba, por exemplo, tornam-se eventos cada vez mais populares; os blocos carnavalescos reproduzem-se na esteira do crescimento da comunidade de imigrantes, e transformam as ruas da cidade mesmo em pleno inverno. Aos grandes nomes da música brasileira, somam-se na capital a atuação quotidiana de músicos migrantes anónimos que contribuem para a difusão daquele que é considerado um bem cultural de destaque na identidade nacional brasileira: a sua música popular.

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