Editorial

A segunda vaga

A oposição não pode deixar de cumprir o seu papel, especialmente depois de passada a fase pior e quando o Governo dá mostras de comportamento errático.

Ao longo da crise de saúde pública que vivemos, o facto de Governo e oposição terem conseguido partilhar um terreno comum sobre o que comunicar aos portugueses durante o arranque da pandemia talvez não tenha sido devidamente valorizado por todos. Ou, pelo menos olhando para o que se passou ontem após a reunião com especialistas no Infarmed, o valor dessa união parece estar a ser ultrapassado pela vontade de “fazer política”.

Se olharmos para os desastrosos números de países como os Estados Unidos, Brasil ou Reino Unido, onde o poder político andou a arrepio do que ditavam os conselhos dos especialistas, talvez tenhamos uma noção mais aproximada da importância de existir um discurso uno e claro que guie a população na atitude a ter perante o vírus. A existência de agentes políticos que desvalorizaram a ameaça serviu, infelizmente, para legitimar comportamentos de risco de algumas faixas da população quando o comportamento individual, em atitudes como o distanciamento social ou o uso de máscaras, persiste como mais determinante do que as condições de assistência médica ou actuação das autoridades de saúde pública, para podermos ultrapassar esta crise.

Não será por isso demais enaltecer o papel da oposição, nomeadamente do líder do principal partido, Rui Rio, em fortalecer uma posição comum que, mesmo perante as incertezas desta ameaça, desse aos cidadãos o conforto de percepcionarem que quem estava à frente deste combate sabia minimamente o que estava a fazer.

Obviamente isso não quer dizer que a oposição possa deixar de cumprir o seu papel, especialmente depois de passada a fase pior e quando o Governo dá mostras de comportamento errático, na sua tentativa de equilibrar a necessidade de regresso à actividade económica com a manutenção do combate à propagação da covid-19.

Critique-se a atitude pouco empenhada do executivo perante os números da região de Lisboa, o laxismo perante algumas manifestações públicas, a falta de um plano claro para a educação ou a escassez de medidas de apoio para os trabalhadores. Mas evitem-se as disputas estéreis como as protagonizadas entre Salvador Malheiro e Fernando Medina e, muito particularmente, não se traga confusão política para o debate em torno do que dizem os especialistas, nomeadamente alarmando a população com a ideia de estarmos perante uma segunda vaga.

Não sigam o mau exemplo do Governo em tentar encontrar explicações (aumento de testes, comportamento de jovens) para algo (o número de casos em Lisboa) em que pode ter responsabilidades, mas para o qual os especialistas ainda não têm uma resposta. A política pode já ter desconfinado, mas não deve esquecer que o caminho é ainda demasiado incerto para deitar fora boas práticas e regressar aos velhos hábitos.

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