Adeus, Intel: “Um dia histórico” para a Apple

O evento anual para programadores começou com a apresentação dos novos sistemas operativos, mas acabou com a revelação do abandono dos chips da Intel. A partir do final deste ano os computadores da Apple vão incorporar uma nova tecnologia.

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Tim Cook, CEO da Apple, na apresentação pré-gravada WWDC 2020 BROOKS KRAFT / APPLE / HANDOUT

Outro tempo, outro modo. O evento anual para programadores (Apple Worldwide Developers Conference, ou WWDC), que todos os anos reúne milhares de pessoas na Califórnia, foi transmitido em vídeo, esta segunda-feira, por imposição das actuais restrições impostas pela pandemia de covid-19.

O “evento” — que pode ver aqui — dedicou-se, como habitualmente, à apresentação dos novos sistemas operativos que vão chegar no Outono ao ecossistema da Apple (telefones, tablets, relógios e computadores), mas terminou com uma notícia já esperada: os processadores da Intel, que desde 2006 equipam os computadores Macintosh, vão ser substituídos por uma nova tecnologia a que a empresa chama de Apple Silicon. O anúncio fez deste “um dia histórico” para Tim Cook, o director executivo da empresa.

Os novos chips vão incorporar novos produtos já no final deste ano e a transição de toda a linha de computadores (portáteis e desktop) deverá demorar dois anos, disse Tim Cook, garantindo que a marca vai continuar a dar suporte aos computadores com processadores Intel durante “vários anos” — tal como aconteceu na transição dos processadores PowerPC para Intel, anunciada há 15 anos por Steve Jobs.

A Apple diz que esta mudança está em preparação desde há uma década e justifica-se com a necessidade de tornar os computadores mais eficientes em termos de performance e consumo energético, à semelhança do que já acontece com o iPhone e com o iPad — além de deixar de estar dependente dos ciclos de renovação tecnológica da Intel. Deste modo, dispositivos móveis e computadores passam a partilhar uma arquitectura idêntica, permitindo a transição de programas entre plataformas. Em termos práticos, será possível, explica a Apple, correr no computador programas disponíveis no iPhone ou iPad.

Contudo, esta mudança no hardware obriga toda a comunidade de programadores a alterar as aplicações. Já aconteceu antes, nada para o qual a Apple não esteja preparada: a partir do próximo mês vão estar disponíveis novas ferramentas de programação para produzir novas (ou reformular as “velhas”) apps.

macOS 11, o “Big Sur”

Das novas versões dos sistemas operativos conhecidas esta segunda-feira, a mais “radical” é talvez a que corre nos computadores. O salto é tão “grande” que a Apple passou a chamar-lhe macOS 11 (em vez da evolução esperada do actual 10.15 para 10.16). Nome de código: “Big Sur”.

O pulo na numeração é justificado pela profundidade do redesenho geral do sistema operativo e das aplicações de base (Mapas, Calendário e Mail, por exemplo), agora mais translúcido e arredondado, com um design mais “limpo” e próximo, também, dos sistemas operativos do iPhone e iPad.

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O novo macOS faz assim a ponte com a interface dos dispositivos móveis, através, por exemplo, da incorporação de uma Central de Controlo e de um sistema de notificações em tudo idênticos à do iPhone. A aplicação de mensagens também sofreu alterações importantes, seguindo de perto as funcionalidades do WhatsApp (quer na versão móvel, quer na do computador).

Mas o destaque mais importante irá talvez para o novo browser. O próximo Safari incorpora novas tecnologias que o tornam 50% mais rápido que o Chrome (diz a Apple) e mais seguro, através de um maior controlo sobre o tracking, ou seja, sobre os acessos que uma determinada página está a tentar obter — esse controlo pretende restringir abusos de sites que procuram apropriar-se de informação como o histórico de navegação e outras preferências ou dados pessoais.

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Outra das novidades relevantes no novo Safari é a introdução, de raiz, de um sistema de tradução automática. Ao visitar um site, o utilizador pode optar pela tradução de todo o conteúdo, que aparecerá “no sítio”, ou seja, o texto original é substituído pela tradução sem alterar a forma da página — ficou por saber a que requisitos terá um site que obedecer para que isso funcione, mas o conceito é promissor.

Basta um iPhone para abrir o carro

O software que opera o iPhone é, tradicionalmente, uma das actualizações mais aguardadas pelos seguidores da Apple. Este ano o iOS 14 (e o iPadOS 14) aparece redesenhado e com novas aplicações: uma nova sistematização de páginas e apps (Apple Library) de organização automática, facilitando o acesso às mais utilizadas; Widgets que passam a poder ser transportados para o ecrã (como acontece no Android); uma actualização do sistema Picture in Picture, que mantém um vídeo a tocar ao mesmo tempo que são usadas outras aplicações; a assistente Siri passa a ser capaz de responder a mais comandos e a Apple Translate vai permitir a tradução online e offline de texto e voz em tempo real.

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A aplicação de mensagens vai ser em tudo semelhante ao que conhecemos do WhatsApp e os Mapas vão incorporar trajectos para bicicletas e desenhar rotas para carros eléctricos, considerando o consumo em tempo real e a localização das estações de carga mais adequadas a cada veículo (para já apenas em algumas cidades ou zonas dos EUA e China).

O CarPlay, que transporta as aplicações do telefone para a consola do carro também recebeu melhorias, mas a grande novidade neste segmento chama-se CarKey, uma app que usa tecnologia NFC para transformar o iPhone numa chave — a série 5 da BMW é a primeira a adoptar o sistema, ainda este ano. A Apple garante que os dados da “chave” ficam guardados no chip do telefone, com um bónus: esta pode ser partilhada através de uma simples mensagem escrita, que garante permissões a quem a recebe para abrir e/ou conduzir o veículo. A CarKey vai estar disponível também no actual iOS 13.

O novo sistema operativo para Apple Watch (watchOS 7) introduz a monitorização do sono e detecta se o utilizador está a lavar as mãos correctamente — o relógio analisa os movimentos e se a duração da lavagem é inferior a 20 segundos. Além disso, o smartwatch passa a incluir a dança como “desporto” na app Fitness e os mapas passam a conter trajectos (e navegação) para bicicleta.

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A privacidade foi uma das palavras-chave da apresentação desta segunda-feira. Em destaque a opção que o utilizador vai passar a ter de dar a uma aplicação a localização aproximada, ao invés da localização precisa (como actualmente). Além disso, a app tracking passa a ter de ser autorizada, ou seja, antes de instalar uma aplicação vai ser possível conhecer que tipo de informação ela vai exigir (acesso à localização ou contactos, por exemplo).

Todos os telefones que correm o iOS 13 vão suportar o IOS 14, ou seja, a partir do iPhone 6s. Já o sistema operativo para o Apple Watch só estará disponível a partir da versão 3. As versões finais dos novos OS deverão ser disponibilizadas, como habitualmente, no início do Outono, quando for posto à venda o novo iPhone.

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