“Fechar o Algarve”? Presidente da ARS fala em “declarações catastrofistas” da Ordem dos Médicos

“Se nós, de repente, tivermos um surto de cem casos em Faro ou em Portimão, vamos ter de fechar o Algarve”, disse o presidente da Ordem dos Médicos do Sul. O presidente da Autoridade Regional de Saúde discorda: “Temos capacidade de internamento instalada para 250 doentes com covid”.

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Quarteira, Algarve Duarte Drago

O presidente da Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve, Paulo Morgado, considera que o “dramatismo” das declarações do presidente da Ordem dos Médicos do Sul não tem razão de ser: “Temos capacidade de internamento instalada em Faro e Portimão para 250 doentes com covid. Porque é que o Algarve há-de fechar com 100 casos?”. 

“Neste momento, temos três doentes internados e zero nos Cuidados Intensivos”, reforça Paulo Morgado. “Não acompanho essas declarações catastrofistas.”

O presidente da ARS do Algarve reage desta forma, em declarações ao PÚBLICO, à entrevista de Alexandre Valentim Lourenço ao Diário de Notícias, esta quinta-feira. Nessa entrevista, o responsável da Ordem dos Médicos defendeu medidas mais rigorosas para evitar um surto de covid-19 no Algarve nos meses de Verão e alertou para o facto de a região não ter recursos suficientes para lidar com uma situação epidemiológica como a que está a acontecer em Lisboa ou aconteceu no Norte. As declarações de Valentim Lourenço foram feitas antes de o boletim da Direcção-Geral da Saúde dar conta de 35 novos casos no Algarve, o maior número de novos casos desde o início da pandemia.

“A minha preocupação com a abertura de uma área turística está relacionada com o facto de as estruturas de saúde pública serem ou não capazes de lidar com os desafios para conter a infecção”, defendeu Valentim Lourenço. Num ano normal, a região já tem falta de médicos nos meses de Verão e num ano como este a falta de recursos humanos pode ter consequências ainda mais graves: “Puseram-se 500 ventiladores no Algarve, mas, se não houver médicos, estes não trabalham”. Na mesma linha, reforçar as medidas de isolamento dos casos suspeitos e contactos próximos já “é difícil em alguns bairros de Lisboa e em população jovem. Transpor [essas medidas] para o Algarve pode ser mais preocupante.”

Antevendo um cenário complexo nos meses de Verão, o presidente da Ordem dos Médicos do Sul espera, por isso, que haja uma “dotação de meios suplementares” e “que se aprenda com o que aconteceu no Norte e agora em Lisboa [e Vale do Tejo] porque o que vai acontecer daqui a um mês no Algarve será muito semelhante.” 

“Como se viu agora em Pequim, com um surto de cem casos, eles fecharam novamente a capital da China. Se nós, de repente, tivermos um surto de cem casos em Faro ou em Portimão, vamos ter de fechar o Algarve”, antevê. “Estamos numa fase em que a tomada de decisões para bem da saúde pública pode ser dolorosa para a economia e para o turismo nacional. Temos um problema acrescido, porque a economia do Algarve é muito dependente dos meses de Julho e Agosto.”

O presidente da Administração Regional de Saúde discorda desta análise e diz que, mesmo que a região fosse atingida repentinamente por um surto de 100 casos, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) estaria à altura do desafio: “Os nossos profissionais têm dado uma excelente resposta à pandemia”. 

O surto no concelho de Lagos, associado a uma festa por onde terão passado dezenas de pessoas, com pelo menos 37 infectados (números de quarta-feira), não põe em causa a resposta do SNS, defende Paulo Morgado. “Na maior parte, são casos leves em que as pessoas ficam em casa”, esclareceu.

Quanto à possibilidade da vinda de médicos de outras regiões para reforçar a época do Verão, em regime de voluntariado, Morgado reconhece que o convite não tem surtido o efeito desejado. “O reforço tem sido sempre pouco, mas nunca aconteceu uma tragédia por causa disso – e este ano também não vai acontecer. Porque é que as pessoas hão-de estar a prever a tragédia?”, interroga.

Urgência de Portimão “a rebentar pelas costuras”

A falta de profissionais de saúde no Algarve não atinge apenas a classe médica. A região “necessita de mais 500 enfermeiros em permanência, a Urgência do Hospital do Barlavento (Portimão) está a rebentar pelas costuras”, diz o coordenador regional do Sindicato dos Enfermeiros, Nuno Manjua, ao PÚBLICO.

O sindicato tem marcada para esta quinta-feira uma manifestação frente à Assembleia da República para reclamar, a nível nacional, a contratação de mais enfermeiros e o descongelamento da progressão nas carreiras.

Nuno Manjua exemplifica: “A equipa de enfermagem do Hospital de Portimão, 65 profissionais, tem 1400 horas extraordinárias acumuladas – o equivalente ao horário de trabalho de um ano inteiro”. 

No que diz respeito à mobilidade, autorizada pelo Ministério da Saúde para suprir faltas no Algarve e noutras regiões, o sindicalista afirma: “Aquilo que queremos é uma solução que não fique dependente da vontade das pessoas, que também lá fazem falta. Precisamos de pessoas integradas e motivadas a trabalhar.”