Portugueses satisfeitos com o teletrabalho, mas com dificuldade em equilibrar com a vida pessoal

Segundo inquérito da Escola Nacional de Saúde Pública, 59% dos inquiridos consideram que trabalham mais horas do que o habitual e 42% não ser possível desligar-se do trabalho para poder descansar.

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Dois terços dos inquiridos referiu não ter tido apoio das empresas no teletrabalho Paulo Pimenta

Mais de metade (54%) dos inquiridos do Barómetro Covid-19, da Escola Nacional de Saúde Pública, que respondeu ao inquérito sobre saúde ocupacional e teletrabalho diz estar satisfeito com esta opção, mas apenas 37% se sente satisfeito com o equilíbrio conseguido entre o teletrabalho e a vida pessoal. “Estes dados podem estar relacionados com a percepção dos inquiridos de que as exigências de trabalho são maiores quando se está em teletrabalho”, admitem os investigadores.

Segundo os resultados, 59% dos inquiridos consideram que trabalham mais horas do que o habitual e 42% não ser possível desligar-se do trabalho para poder descansar. Entre os factores que contribuíram para maior satisfação estão o facto de cerca de 70% dos inquiridos considerar que tem total autonomia e flexibilidade para decidir quando termina o trabalho e 41% disseram “por vezes” estabelecer um horário de trabalho.

Sobre se no regresso à normalidade, gostariam que o teletrabalho fizesse parte da respectiva actividade profissional, 59% gostariam de fazer teletrabalho em tempo parcial. Outros 22% não se importam de ter esta opção esporadicamente e 9% disseram que não gostariam que o teletrabalho fosse uma opção.

Estes são os primeiros resultados de um estudo que continua a decorrer e que é dirigido apenas a pessoas que se encontravam ou já tinham estado em teletrabalho durante a pandemia. Foram contabilizadas respostas de 1082 inquiridos, dos quais 93% estavam em teletrabalho desde o estado de emergência. O questionário online esteve disponível entre os dias 12 de Maio e 3 de Junho.

Da amostra, que não é representativa, 75% dos inquiridos são mulheres, 64% têm entre os 30 e os 49 anos, 51% são casados ou em união de facto, 48% têm filhos (entre 1 e 3 filhos) dependentes em casa. Quanto a habilitações literárias, 46% são licenciados, 34% têm o grau de mestrado e 11% o doutoramento.

Falta de apoio

O estudo procurou também avaliar as condições do trabalho em casa e o apoio que os inquiridos recebeu ou não por parte das empresas e da saúde ocupacional. A maioria das pessoas usou um portátil para trabalhar em casa e sem recurso a monitor, teclado ou rato externo. A postura para trabalhar não foi a melhor: 42% usaram posições fora do ângulo de conforto em relação ao teclado e 62% tiveram o monitor abaixo da altura dos olhos, “o que poderá ser um factor de desconforto (ou mesmo dor) cervical”.

Sobre o mobiliário, 62% usaram equipamento não adequado, como uma cadeira da sala ou da cozinha para se sentar. Talvez, por isso, quando questionados sobre o que fariam para melhorar o espaço de trabalho em casa, cerca de metade dos inquiridos disse que compraria uma cadeira e secretárias adequadas.

“A este respeito, quando questionados sobre a existência de alguém da empresa da área da saúde e segurança do trabalho que desse apoio sobre como adequar o mobiliário e os equipamentos informáticos para estar mais confortável e ser mais produtivo, os dados revelam que 75% dos inquiridos não tem qualquer tipo de apoio”, referem as conclusões.

A maioria (73%) dos inquiridos disse sentir que a empresa confia no seu bom desempenho em teletrabalho”. Porém, apenas um terço referiu que lhe foram disponibilizados todas a condições e recursos para trabalhar a partir de casa, de forma eficaz. Apenas 489 inquiridos tiveram acesso a um portátil, 20 a uma cadeira e a oito foi disponibilizada uma secretária. Dos inquiridos, 95% não têm qualquer tipo de comparticipação da empresa na ligação à internet de casa.

“A falta de apoio dado por parte das empresas quer ao nível da saúde e segurança do trabalho, quer ao nível de comparticipação de equipamentos e meios de trabalho, indispensáveis para o desenvolvimento do teletrabalho, é inquestionável”, lê-se nas considerações finais.

Para os investigadores, “exige-se que as estratégias de prevenção dos riscos profissionais e de promoção da saúde e qualidade de vida dos colaboradores sejam repensadas, no sentido de minimizar os efeitos negativos que a falta de apoio poderá causar”. Aos aspectos das relações entre o trabalho e a saúde “deve igualmente ser dado grande destaque”.

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