Volume traduzido por autora portuguesa reúne “poesia obscura” da China

Oo volume bilingue Poética Não Oficial, elaborado pela portuguesa Sara F. Costa, reúne trabalhos de 33 poetas chineses marcados pela conturbada História da República Popular da China.

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Praça Tiananmen Reuters/GUANG NIU

Numa rara tradução directa de literatura chinesa para o português, o volume bilingue Poética Não Oficial, elaborado pela portuguesa Sara F. Costa, reúne trabalhos de 33 poetas chineses marcados pela conturbada História da República Popular da China.

“São autores pós a Revolução Cultural (1966-1976), com uma poética não oficial, uma terminologia da literatura chinesa que remete precisamente para o que vai contra o que é designado de poesia oficial durante aquele período”, explicou à agência Lusa Sara F. Costa, que actualmente reside em Pequim.

Licenciada em Estudos Orientais pela Universidade do Minho e mestre em Estudos Interculturais pela Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, a poetisa Sara F. Costa vive em Pequim há dois anos.

No ano passado, venceu o Prémio Literário Glória de Sant'Anna para o melhor livro de poesia, com a obra A Transfiguração da Fome, da editora Labirinto.

Designado Poética Não Oficial, o volume foi publicado também pela editora Labirinto, e reúne as obras de 33 poetas chineses, cada um representado com dois ou três poemas.

Trata-se de uma rara tradução directa de obras literárias chinesas para o português, ilustrando a escassez de tradutores habilitados, mas também as dificuldades em decifrar para uma língua romanizada a expressão literária chinesa, habitualmente subtil e composta por alusões históricas e trocadilhos ou metáforas que recorrem aos caracteres usados no sistema de escrita chinês.

Na tradução dos poemas, Sara F. Costa admite que teve de dar prioridade ao significado, em detrimento da estética. “Tive que pensar no poema por detrás do poema, ou seja, o que é que realmente estava ali a ser dito, para que eu conseguisse transmitir da melhor forma no português”, explicou.

Em Poética Não Oficial - Poesia Chinesa Contemporânea, Sara F. Costa reúne poetas de várias gerações, visando “dar o panorama geral” da literatura contemporânea chinesa, mas com especial atenção para o período da Revolução Cultural e a década seguinte, que culmina com o massacre da Praça Tiananmen, quando, na noite de 3 para 4 de Junho de 1989, tanques do exército foram enviados para pôr fim a sete semanas de protestos pró-democracia.

“É nessa altura que se começam a formar poetas obscuros, que foram contra aquilo que era a tradição da escrita chinesa, um movimento e um período que achei bastante interessante de explorar”, contou.

Alguns dos poemas são abertamente políticos, como é o caso das obras de Hai Zi ou Bei Dao, mas a obra não é “necessariamente política”, ressalvou a portuguesa, destacando, “acima de tudo, um confronto com determinados valores”, como é o caso da poesia de Zuo Fei, de forte pendor católico.

“É uma outra forma de confrontar os valores do sistema chinês”, cuja base teórica marxista promove o ateísmo, resumiu.

O volume inclui ainda autores nascidos no fim do século XIX, como Chen Yinmo. “Eu pensei inicialmente em traduzir autores nascidos após os anos 1980, mas o que me apercebi, falando também com algumas pessoas [em Portugal], do meio literário, é que há muitos nomes de escritores anteriores que não têm tradução para qualquer outra língua”, apontou.

Na China, onde imprensa e narrativa histórica são controladas pelo Partido Comunista, a literatura ficcional oferece as descrições mais fiéis do país, concordou Sara F. Costa.

Segundo a poetisa, “os chineses recorreram sempre à poesia como um escape”. “Quando andamos nos hutongs [os típicos becos de Pequim], encontramos salões literários desconhecidos, muitos poetas, muitas actividades, como o lançamento de revistas independentes. É uma produção que continua a ser muito profícua”, considerou.

“É uma forma de conhecer a história moderna e também o sentimento colectivo do povo chinês e aproximarmo-nos das pessoas, de uma forma que não é possível apenas pela leitura da História”, disse. “Essa forma de conhecer a China, dá-nos uma outra dimensão daquilo que é o país”, resumiu.