“A América tem de analisar as suas falhas trágicas”, diz George W. Bush sobre os protestos

Milhares de pessoas não obedeceram ao recolher obrigatório, mas noite de terça-feira foi mais pacífica do que as anteriores. Governador do Minnesota anunciou investigação às práticas de discriminação racial da polícia nos últimos dez anos.

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Manifestantes junto ao Trump Hotel, em Manhattan Reuters/EDUARDO MUNOZ
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Manifestação em Houston, Texas Reuters/ADREES LATIF
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Polícias e manifestantes em Nova Iorque Reuters/JEENAH MOON
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Manifestaçao em Washington LUSA/SHAWN THEW

Sem mencionar Donald Trump, o ex-Presidente norte-americano George W. Bush afirmou que os os Estados Unidos devem “reflectir sobre as suas trágicas falhas. Bush diz-se “angustiado com a brutal asfixia de George Floyd”, o afro-americano assassinado por um polícia de Mineápolis, e “perturbado com a injustiça e o medo que estão a sufocar” o país. 

“A doutrina e os hábitos da superioridade racial, que já quase dividiram o nosso país, ainda ameaçam a nossa União. Para resolver os problemas dos americanos é preciso corresponder aos ideais americanos - à verdade fundamental que todos os seres humanos são criados iguais e dotados por Deus com os mesmos direitos”, afirmou o ex-presidente, conservador e do Partido Republicano, que tentou fazer um discurso de união que o actual inquilino da Casa Branca não tem feito.

Bush, que durante os seus dois mandatos, foi alvo de fortes críticas devido à invasão do Iraque e à resposta ao furacão Katrina, que devastou, sobretudo comunidades afro-americanas, demarcou-se do actual Presidente. “Muitos duvidam da justiça do nosso país, e com boas razões. Os negros assistem à repetida violação dos seus direitos sem uma resposta urgente e adequada das instituições norte-americanas.”

George W. Bush junta-se ao ex-presidente Barack Obama, que, na semana passada, considerou que a situação de discriminação racial que se vive nos EUA “não pode ser normal em 2020” e apelou aos norte-americanos para trabalharem juntos para acabar com a discriminação.

Menos violência

Milhares de pessoas voltaram a sair às rua na terça-feira, desafiando o recolher obrigatório imposto em várias cidades e a resposta musculada da polícia nos últimos dias. Milhares de manifestantes pacíficos, em Nova Iorque, pediram justiça para George Floyd e o fim da violência policial, apesar de o mayor Bill de Blasio ter imposto o recolher obrigatório até ao final desta semana, numa tentativa de pôr fim ao caos que se tem vivido nos últimos dias. 

Apesar de ter diminuído a violência, houve episódios de confrontos com a polícia. Milhares de pessoas ficaram bloqueadas na Ponte de Manhattan pela polícia. Em Seattle, ao final da noite, a polícia dispersou manifestantes com gás pimenta. Os manifestantes responderam atirando garrafas de água.

Nas ruas de Washington, continuaram a ver-se carros militares blindados nas ruas, e houve manifestantes a ajoelharam-se perto da Casa Branca, horas antes de entrar em vigor o recolher obrigatório. Os protestos não foram tão intensos como no dia anterior, quando a polícia abriu caminho entre manifestantes com gás lacrimogéneo, para que Donald Trump fosse a uma histórica igreja da capital - para uma sessão de fotos. Essa investida policial foi a acção mais polémica em termos políticos desta semana de protestos.

A capital norte-americana, contudo, permanece em alerta máximo, com 1600 soldados destacados, enquanto o Presidente Donald Trump continua a ameaçar agir unilateralmente para travar os protestos.

Em Houston, Texas, cidade onde George Floyd cresceu, realizou-se uma marcha de homenagem, com a participação da família do afro-americano de 46 anos e do mayor de Houston, Sylvester Turner. 

Em Mineápolis, a filha de George Floyd, Gianna, de seis anos, apareceu ao lado da sua mãe, Roxie Washington, numa conferência de imprensa, naquela que foi a sua primeira aparição pública. “No final do dia, eles [polícias responsáveis pela morte de Floyd] podem ir para casa e estar com as suas famílias. A Gianna já não tem pai. Ele nunca a verá crescer, nunca verá a sua formatura, nunca a poderá levar ao altar. Se ela tiver um problema e precisar do pai, não o terá”, disse Roxie Washington. “Estou aqui pela minha filha. Quero que seja feita justiça.”

Minnesota investiga racismo

O estado do Minnesota avançou com um processo de alegada violação dos direitos humanos contra o Departamento de Polícia de Mineápolis, do qual fazia parte Derek Chauvin e os outros três polícias que assistiram ao assassínio de George Floyd. O estado vai investigar as práticas e políticas do departamento nos últimos dez anos, para determinar se incorreu em discriminação racial sistemática, revelou o governador democrata do Minnesota, Tim Waltz.

“Não vamos restaurar a paz nas nossas ruas com um maior número de membros da Guarda Nacional. Não vamos estabelecer a paz nas nossas ruas mantendo o recolher obrigatório”, disse Waltz, citado pela CBS News. “Vamos garantir a paz nas ruas quando enfrentarmos as questões sistemáticas que a puseram em causa em primeiro lugar”, acrescentou.

“Existe informação suficiente para investigar se o acusado [Departamento da Polícia de Mineápolis] utiliza padrões ou práticas de discriminação sistemática contra pessoas de cor, especificamente membros da comunidade negra, com base na raça”, lê-se na acusação

Segundo o New York Times, o Departamento de Direitos Humanos não pode levar a cabo acusações criminais, contudo, se as investigações determinarem a existência de comportamentos discriminatórios, as autoridades estaduais podem forçar mudanças nas práticas da polícia e, inclusive, processar o departamento policial.

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