Lisboa é “último reduto desta onda de infecção”. Governo avança com rastreios nas empresas e visitas domiciliárias

Cerca de 90% dos novos casos identificados nas últimas 24 horas foram registados na região de Lisboa e Vale do Tejo. Governo aposta em visitas domiciliárias, testes em empresas e locais alternativos para confinamento domiciliário.

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Hospital Beatriz Ângelo, em Loures Miguel Manso

O Governo deu início neste sábado a uma “operação coordenada de rastreio de trabalhadores em empresas e locais de trabalho com factores de risco na região da Grande Lisboa”, acção que irá decorrer “ao longo dos próximos dias”, anunciou o Ministério da Saúde, em comunicado.

Esta será uma das medidas para conter os riscos de contágio da covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo, que registou, nas últimas 24 horas, mais 231 pessoas infectadas, o que corresponde a 90% dos novos casos (257) identificados este sábado. Desde 25 de Maio que o número diário de infecções nesta zona corresponde a pelo menos 87% do número de novos casos a nível nacional. Os números levaram a ministra da Saúde a classificar a região como o “último reduto desta onda de infecção”.

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O foco principal da operação de rastreio iniciada este sábado — que será realizada pelas autoridades de saúde em conjunto com o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) e o Instituto da Segurança Social (ISS) — incidirá em zonas com mais casos identificados e, em particular, em empresas e locais de trabalho com casos diagnosticados ou com factores de risco associados”, refere a nota.

Durante a conferência de imprensa deste sábado sobre a situação da pandemia em Portugal, a ministra Marta Temido explicou que estão a ser tomadas medidas de saúde pública, tendo em conta as características dos novos casos de covid-19 na Área Metropolitana de Lisboa. A “estratégia de contenção” envolverá o rastreio do novo coronavírus nas actividades em que se tem verificado maior incidência da doença, designadamente as ligadas à construção civil e às cadeias de abastecimento, transporte e distribuição, com “grande rotatividade de uma parte dos trabalhadores” e “recurso a trabalho temporário”.

cerca de 140 pessoas infectadas no sector da construção civil, um número “provisório” que poderá aumentar na próxima semana, disse a directora-geral da Saúde, Graça Freitas.

Marta Temido apelou ainda às pessoas “com sintomas ou doentes” que “não vão trabalhar”. “Procuraremos garantir alternativas a todos os níveis para que a ausência ao trabalho possa ser compensada”, garantiu, pedindo “uma especial atenção” às medidas de segurança que a Direcção-Geral da Saúde (DGS) tem recomendado: a etiqueta respiratória, a não-partilha de objectos, o distanciamento físico e o uso de máscaras.

Alargar a população rastreada

Além deste rastreio, todas as pessoas que tenham sido colocadas pelas autoridades de saúde sob “vigilância activa por serem contactos” dos profissionais destas áreas vão ser testadas, disse a ministra.

Contactado pelo PÚBLICO, o delegado de saúde pública regional da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, Mário Durval, explica que actualmente “as medidas que já estão implementadas” envolvem o rastreamento de contactos conhecidos de pessoas infectadas. “Nós fazemos os testes que são necessários de acordo com o que vamos encontrando”, diz. Os planos do Governo pretendem agora “alargar a população rastreada”, embora não haja ainda previsões sobre o número de pessoas que serão testadas neste âmbito.

“Estes testes são feitos como são feitos os outros todos”, afirma o delegado de saúde, salientando que “as pessoas são referenciadas e enviadas para fazer o teste” aos centros de rastreio. “Não é nada que não se esteja já a fazer”, nota, destacando, porém, que “até há pouco” a DGS indicava que “uma boa parte” dos contactos “eram acompanhados em vigilância passiva ou activa de acordo com as condições”. Agora, o Governo e especialistas recomendam que “essas pessoas, em vez de ficarem em vigilância por parte das autoridades de saúde, sejam logo rastreadas”.

Locais alternativos para confinamento

“Trabalhar no terreno” é a aposta do Governo, que está a trabalhar em articulação com as autarquias dos concelhos mais afectados da Área Metropolitana de Lisboa para que haja uma aposta na sensibilização para o uso das máscaras de protecção e a adequada higienização de espaços, mas sobretudo o “distanciamento físico, que é o que mais nos protege”, anunciou a ministra da Saúde.

Apesar de o número de novos casos registar uma “tendência decrescente” no resto do país, o mesmo não se verifica na região de Lisboa e Vale do Tejo. Os números não se distribuem simetricamente: Loures, Odivelas, Lisboa, Amadora e Sintra são as principais preocupações.

As medidas delineadas pelo Governo para conter a propagação do novo coronavírus na região de Lisboa e Vale do Tejo incluem ainda a “identificação de locais alternativos para o confinamento domiciliário”, caso se comprove que os infectados não têm condições de habitação que permitam garantir um isolamento seguro. Todos os casos confirmados vão ter “acompanhamento diário” por profissionais de saúde para melhor percepção do “contexto”, com possibilidade de haver “visitas domiciliárias”, disse. Segundo Mário Durval, essas visitas devem ser feitas por “profissionais que têm essas competências de análise”, como “enfermeiros das unidades de cuidados continuados ou profissionais das unidades de saúde pública”, visto que se trata de “uma análise das condições de habitação para efeitos de transmissão da covid-19”. Tais visitas domiciliárias não terão como objectivo monitorizar se as pessoas estão ou não a cumprir o confinamento — uma tarefa que cabe à PSP e à GNR.

Quanto à possível identificação de locais alternativos para o cumprimento do confinamento domiciliário, o delegado de saúde afirma que irá depender “das circunstâncias”. “Aquilo que é normal e que fazemos noutras circunstâncias é juntar os parceiros e encontrar soluções, como as autarquias, a Segurança Social, as instituições particulares de solidariedade social e todo o tipo de instituições da comunidade que possam ajudar a encontrar soluções alternativas. Onde se verifique que há necessidade ou se suspeite que há necessidade de fazer essa visita, faz-se”, conclui.

Em resposta à agência Lusa, a ministra da Saúde esclareceu que, tal como aconteceu no passado para utentes de lares, a solução está a ser preparada a partir da rede de Pousadas da Juventude e da colaboração com outros parceiros. O que estamos a considerar é uma actuação conjunta, entre Saúde, Segurança Social e outras entidades, no sentido de também aqui em Lisboa essas estruturas poderem ser direccionadas para esta população-alvo, notou.

Sobre o Hospital Beatriz Ângelo, que tem tido “pressão” acrescida nos últimos dias, a situação foi estabilizada, disse Marta Temido. Este hospital de Loures tem 58 camas dedicadas à covid-19 e dez camas nas unidades de cuidados intensivos. Esta sexta-feira, nove dessas dez camas estavam ocupadas. Mas outros hospitais da zona de Lisboa podem responder também, se a capacidade máxima do Beatriz Ângelo for atingida.

Três em cada cinco infectados já recuperaram

Portugal registou este sábado mais 13 mortes por covid-19, um aumento de 1,5% que eleva para 1396 o total de vítimas mortais. Nas últimas 24 horas, foram detectadas mais 257 pessoas infectadas, o que corresponde a um crescimento de 0,8%. Destes novos casos, 231 são na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Mais 275 pessoas recuperaram da infecção pelo coronavírus SARS-CoV-2, o que faz aumentar o número total de recuperados para 19.186. Quer isto dizer que três em cada cinco infectados já foram considerados curados. Excluindo estes casos e os óbitos, há 11.621 casos activos em Portugal, menos 31 que no dia anterior.

O relatório dá ainda conta de 514 pessoas internadas, das quais 63 estão nos cuidados intensivos (menos três do que na sexta-feira). “A pressão da covid-19 sobre o internamento continua a decrescer”, disse Marta Temido, na conferência de imprensa.

Rt médio de 23 a 27 de Maio é de 1,02 (uma média que variava entre 0,93 no Norte, 0,98 no Centro e 1,05 na região de Lisboa e Vale do Tejo), informou a ministra. Este indicador é o número médio de casos secundários a que cada infectado dá origem. Em Portugal já esteve nos 2,33, lembrou.

Desde o início do surto, foram identificados em Portugal 32.203 casos. A taxa de letalidade global é de 4,3% e de 17% acima de 70 anos. Nas mortes, 1210 das vítimas mortais estão acima dos 70 anos, cerca de 87%.

região de Lisboa e Vale do Tejo voltou a ser a que mais novos casos apresentou, com 231, um crescimento de 2,37%Apesar desta tendência, Lisboa e Vale do Tejo é ainda a segunda região com mais casos e óbitos (10.874 e 354, respectivamente), sendo a região Norte a que concentra o maior número de casos, com 16.739 pessoas infectadas e 773 óbitos – 52% da totalidade dos casos e 55,4% das mortes.

A região Centro tem 3739 casos registados e 238 mortes, seguida do Algarve, com 367 infectados e 15 óbitos. O Alentejo regista até este sábado 259 casos e uma morte.

Os Açores e a Madeira são as regiões com menor número de casos, com 135 e 90, respectivamente. A Madeira é a única região sem mortes por covid-19, sendo que os Açores têm registo de 15 mortes. Os relatórios da DGS não apresentam novos casos ou mortes nestas regiões desde 12 de Maio.

Lisboa continua a ser o concelho com mais casos detectados (2365, mais 41 que na sexta-feira), seguido de Vila Nova de Gaia (1558) e do Porto (1354). Há outros cinco concelhos com mais de mil casos identificados: Matosinhos (1277), Braga (1225), Sintra (1173), Gondomar (1083) e Loures, que com 27 casos nas últimas 24 horas chegou aos 1009 casos.