Editorial

A TAP assim não serve o país

Uma empresa privada tem toda a legitimidade para estabelecer os planos de voo que pretende. É mais duvidoso que o possa fazer se o Estado se sentar na sua comissão executiva.

A estratégia de retoma da actividade da TAP não se preocupa em adaptar a sua oferta em função das necessidades da população ou das necessidades da economia porque esta é uma empresa privada na qual o Estado é um accionista sem capacidade de intervenção.

A tentativa de criação de uma placa giratória em Lisboa, pela qual transitariam passageiros em trânsito para outros destinos, concentrou a maior parte das ligações na capital, reduziu os voos entre os dois principais aeroportos do país a uma ponte aérea nem sempre funcional e obedeceu a uma lógica óbvia de rentabilização. É a mesma lógica que a empresa aplica neste momento.

O problema reside na hibridez da empresa, ou como diz o presidente da Câmara do Porto: “A TAP não é nem carne nem peixe: é uma empresa privada quando quer tomar decisões; e é uma empresa pública quando quer que os portugueses paguem os seus vícios.”

Quando a TAP concentra a maioria das ligações a partir de Lisboa, está a desconsiderar a necessidade da retoma da actividade económica noutros pontos do país, sobretudo a norte, a região que sempre mais exportou e cujo contributo se torna ainda mais importante no período actual.

Limitar a área do país servida pelo Aeroporto Francisco Sá Carneiro a 10% dos voos totais da companhia e a três ligações semanais para fora do país é uma visão muito pouco nacional, que ignora o tecido industrial da região. Nos planos da TAP nunca estará a concentração no Porto dos voos para Milão, apesar dos elos comerciais entre o Norte de Portugal e o Norte de Itália.

Os autarcas que nesta terça-feira contestaram a repartição desigual do número de voos, assim como o presidente do Turismo e do Porto e Norte de Portugal ou o sindicato dos pilotos, têm todas as razões para protestar quando estamos perante a possibilidade de a empresa ser financiada pelo Estado. Um plano desigual não agrada a quem dele é excluído.

Não faz sentido que o Estado invista na empresa se a mesma não se empenhar em rentabilizar a sua operação com base numa operação mais bem distribuída — um hub concentra, distribui e não se preocupa com o resto. Uma empresa privada tem toda a legitimidade para estabelecer os planos de voo que pretende. É mais duvidoso que o possa fazer se o Estado a financiar e se sentar na sua comissão executiva. E não é certo que venha a ser rentável, seja ela híbrida, privada ou nacionalizada. Mas, assim, a TAP não serve o país. Serve apenas uma parte dele.