Estudo sugere que risco de contágio em espaços fechados é 19 vezes maior do que ao ar livre

“É dentro de portas que as nossas vidas e o nosso trabalho estão numa civilização moderna. A transmissão de infecções respiratórias como o SARS-Cov-2 dos infectados para os vulneráveis é um fenómeno de interiores”, lê-se no estudo que analisou 318 surtos na China.

O risco de transmissão em espaços ao ar livre é menor do que em ambientes fechados, dizem investigadores
Foto
O risco de transmissão em espaços ao ar livre é menor do que em ambientes fechados, dizem investigadores daniel rocha

O risco de contágio do coronavírus SARS-Cov-2 é 19 vezes mais alto em espaços fechados do que ao ar livre, segundo um estudo do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas (NIID) do Japão e de duas universidades japonesas que analisou 11 focos de contágio no país. As conclusões deste estudo coincidem com as de um outro feito na China em que foram analisados 318 surtos de covid-19 (num total de 1245 casos confirmados até 11 de Fevereiro e fora da região de Hubei) e nenhum deles sucedera ao ar livre – a maior parte tinha sido registada em casa e em transportes públicos; em menor número, também foram registados casos em comércios e restaurantes.

Todos os surtos analisados no caso japonês tinham acontecido em “ambientes fechados, como ginásios, um restaurante num barco, hospitais e um festival em que havia espaços para comer em tendas com pouca ventilação”. Neste estudo, publicado em meados de Abril, foram analisados 110 casos distribuídos por dez surtos. “É plausível que os ambientes fechados contribuam para transmissões secundárias de covid-19 e facilitem casos de supercontágios”, refere o estudo. Assim, os autores sugerem que sejam reduzidos todos os contactos desnecessários em espaços fechados para ajudar a reduzir o número de focos de contágio – esperando que tal seja suficiente para conter o alastramento da infecção.

Também no caso chinês é referido que “todos os surtos identificados de três ou mais casos aconteceram em ambientes fechados, o que confirma que partilhar espaços interiores aumenta o risco de infecção por SARS-Cov-2”.

“Em espaços fechados há um contacto mais próximo e prolongado entre pessoas e é mais fácil que se transmita a infecção do que em espaços abertos em que o vírus se dispersa no ar”, explicou ao jornal espanhol La Vanguardia o chefe do serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Clínic de Barcelona, Àlex Soriano – que não considera os resultados surpreendentes. Por este motivo, o risco de contágio poderá ser superior no Outono, com mais pessoas fechadas em salas de aulas, nos trabalhos e outros espaços confinados.

Para Soriano, em actividades ao ar livre não há tanto risco de contágio porque é necessária uma certa quantidade viral para que se produza uma infecção, carga essa que é menor quando há outros factores como o vento, que ajudam a dispersar o vírus.

“Ainda que estes resultados [de maior contágio em espaços fechados] fossem esperados, a sua importância não está a ser muito reconhecida pela comunidade e pelos órgãos legislativos”, lê-se no estudo do caso chinês, com autores da Universidade Tsinghua, da Universidade do Sudeste de Nanjing e da Universidade de Hong Kong. “É dentro de portas que as nossas vidas e o nosso trabalho estão numa civilização moderna. A transmissão de infecções respiratórias como o SARS-Cov-2 dos infectados para os vulneráveis é um fenómeno de interiores.” Os dois estudos datam de Abril, não foram ainda revistos por pares e estão disponíveis para acesso na plataforma de pré-publicações medRxiv.

Outros cientistas têm recomendado que se ventilem espaços fechados e se usem máscaras como medida de prevenção tendo em conta que o vírus SARS-Cov-2 foi detectado em suspensão no ar – ainda que não se saiba se é transmissível desta forma. Um outro estudo de uma universidade norte-americana refere que o acto de falar provoca a emissão de pequenas gotículas respiratórias que permanecem no ar pelo menos durante oito minutos (ainda que possivelmente seja mais tempo), o que pode também ajudar a explicar a frequência de surtos em lares de idosos, em casa, conferências, cruzeiros e outros espaços fechados em que exista uma circulação de ar limitada.