Covid-19: lobby farmacêutico bloqueou Bruxelas na investigação aos coronavírus em 2018, acusam ONG

Entre as áreas negligenciadas que necessitavam de um financiamento significativo, está “a prevenção para epidemias (incluindo as causadas pelos coronavírus), mas “a indústria farmacêutica usou sobretudo o orçamento para financiar projectos em áreas que eram comercialmente mais rentáveis”, dizem organizações.

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Cientista analisa células infectadas com o vírus SARS-CoV-2 Reuters/ANTON VAGANOV

As organizações não governamentais (ONG) Global Health Advocates e Corporate Europe Observatory acusam as grandes farmacêuticas envolvidas em parcerias público-privadas (PPP) com a União Europeia (UE) de terem impedido a investigação sobre coronavírus proposta por Bruxelas em 2018.

“Estamos indignados por encontrar provas de que o lobbying da indústria farmacêutica EFPIA [European Federation of Pharmaceutical Industries and Associations] não só não considerou o financiamento da bioprevenção (ou seja, estar pronto para responder a epidemias como a causada pelo novo coronavírus, [e a doença] covid-19), como se opôs a que a mesma fosse incluída nos trabalhos da IMI [Iniciativa de Inovação Médica] quando essa possibilidade foi levantada pela Comissão Europeia em 2018”, lê-se nas conclusões de um estudo a que a agência Lusa teve acesso.

Contactada pela Lusa, fonte oficial da Comissão Europeia (CE) sublinhou que está a ser investida “uma verba significativa de dinheiro em pesquisa e inovação na saúde, nas alterações demográficas e no bem-estar, assim como na sustentabilidade ambiental e na acção climática, com o foco nos desafios da sociedade e atacando as necessidades médicas e ambientais”.

Segundo o relatório Mais Privada do Que Pública: como as grandes farmacêuticas dominam a Iniciativa de Inovação Médica, integrado num documento mais amplo denominado Em Nome da Inovação, feito pela Global Health Advocates (GHA) e pelo Corporate Europe Observatory (CEO), a indústria farmacêutica beneficiou de 2,6 mil milhões de euros do orçamento público de investigação da UE no período compreendido entre 2008 e 2020, através da IMI, “mas até agora falhou em investir significativamente em áreas de pesquisa em que o financiamento é urgentemente necessário”.

A GHA e o CEO sublinham que, entre as áreas negligenciadas que necessitavam de um financiamento significativo, estão “a prevenção para epidemias (incluindo as causadas pelos coronavírus), o VIH/sida, e as doenças tropicais relacionadas com a pobreza”, mas que, em vez disso, “a indústria farmacêutica usou sobretudo o orçamento para financiar projectos em áreas que eram comercialmente mais rentáveis”.

“Só com uma pandemia global é que a indústria está a mostrar vontade”

As duas ONG assinalam que, desde a aparição do coronavírus SARS, “um primo chegado do novo coronavírus”, em 2003, os investigadores têm pedido que seja acelerado o desenvolvimento de tecnologias médicas para combater este tipo de vírus.

“Na verdade, já houve um ‘candidato promissor para tratar o coronavírus em 2016’, mas não captou a atenção das grandes farmacêuticas para mais desenvolvimentos”, acusam as duas organizações sem fins lucrativos.

E acrescentam: “Só agora, com uma pandemia em curso e quando existem fundos públicos mobilizados para a combater, é que a indústria está a mostrar vontade de ajudar a desenvolver vacinas e tratamentos.”

De acordo com as ONG, a indústria farmacêutica já tinha tratado o ébola de forma semelhante, uma vez que só se dedicou à sua investigação quando o mesmo se tornou uma epidemia em 2014, e depois de a IMI ter começado a financiar projectos de pesquisa relevantes.

“Esse caso mostra como as intervenções tardias, quando uma epidemia já está em andamento, são muito menos úteis do que o tipo de bioprevenção que a indústria rejeitou”, vincaram.

Questionada pela Lusa, Marine Ejuryan, da GHA, considerou que, face à actual crise, “é expectável” que Bruxelas coloque a bioprevenção entre as prioridades do financiamento de projectos nas próximas PPP da área da investigação na saúde.

Contudo, realçou que “é muito pouco e demasiado tarde investir em epidemias após surgirem”, e que uma “resposta efectiva requer tempo e investimentos sustentáveis para garantir que existem as vacinas e os tratamentos necessários quando surgem os surtos epidémicos”.

Sobre a postura das grandes farmacêuticas, a especialista considerou que “muitas multinacionais estão agora envolvidas na pesquisa da vacina e de tratamentos contra o coronavírus, uma vez que agora existem enormes quantias de financiamento público mobilizado na União Europeia e a nível global. Mas não necessariamente por razões altruístas”.

Por seu turno, Martin Pigeon, investigador do Corporate Europe Observatory, considerou que “já é tempo de a política de investigação e inovação da UE receber o escrutínio político e os debates que merece”, a bem do interesse público.

“O que está em jogo aqui é a captura corporativa de grandes áreas da política e dos orçamentos de pesquisa da UE, às custas das necessidades públicas, da nossa saúde e da saúde do nosso planeta”, destacou.

E rematou: “O financiamento público da pesquisa e inovação é um investimento na produção de conhecimento e ferramentas para o futuro, e, num momento de crise em curso, acertar esses investimentos é mais crucial do que nunca.”

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