Aliis Sinisalu/Unsplash
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Megafone

Não deixem os livros morrer em Portugal

Os apoios distribuídos pelo Estado não chegam, face às quebras dramáticas na facturação e às despesas fixas para manter os negócios a funcionar. Se já antes era difícil, imagino que neste momento seja uma tarefa quase impossível, principalmente num país com poucos leitores regulares.

Na condição de filha única de pais separados, os livros foram a minha companhia desde sempre. Fechada numa casa onde nunca faltaram livros e onde passava a maior parte do dia sozinha com a minha avó, foram uma companhia especial desde esse primeiro isolamento. Antes de saber ler, já os levava para todo o lado, fascinavam-me as imagens e as palavras que já sabia de cor e que podia pedir que me relessem.

Por isso, mais de 20 anos volvidos, anunciado o isolamento em meados de Março quando a covid-19 chegou ao nosso país, desatei a comprar ainda mais livros do que antes. Comprei-os, numa tentativa de contrariar o isolamento, um pouco como na infância — mas também porque, se o meu rendimento o continuava a permitir, gostava de dar um contributo necessário para uma indústria em risco, como é a dos livros.

Entre editoras, gráficas, livrarias, livreiros, autores, tradutores e tantos outros protagonistas envolvidos no processo de fazer livros e fazê-los chegar aos seus leitores, senti uma enorme urgência em marcar uma posição. Encomendei desejos de longa duração, alimentados, solidificados e adiados por muitos anos, assim como outros mais espontâneos e recentes. Até e-books foram incluídos na lista. Tudo isto como quem diz: por favor, não deixem de produzir o que tanto prazer, ideias e conhecimento traz à nossa sociedade. Não deixem os livros morrer em Portugal.

Ao longo dos últimos dias, tem-se sabido que muitas livrarias e editoras portuguesas independentes (algumas delas históricas) se encontram em vias de fechar e que dependem das encomendas pela Internet e dos primeiros dias do desconfinamento para sobreviver. Apesar de muitas se terem reinventado, entregarem em casa e pelo correio, diversificarem o catálogo, baixarem preços e dinamizarem actividades na Internet, estes esforços não serão suficientes para muitas. Que triste é saber que se podem extinguir de um dia para o outro.

E, sim, os primeiros sinais de uma crise iminente não se revelam apenas no mundo dos livros. Empresas (e trabalhadores) com todo o tipo de actividades económicas vêem, agora, a sua existência por um fio. No entanto, pelo carinho que tenho pelos livros, pelo gosto que retiro da leitura, por me definirem e fazerem parte da minha história, pelo amor que lhes reservo, esta ameaça específica dói-me como se fosse dor física.

O que será dos livros produzidos e vendidos em Portugal? O garante das histórias, do pensamento livre e desafiante, da partilha de experiências, da diversidade… todo ele frágil como um castelo de cartas que, ao primeiro sopro, cai. Os apoios distribuídos pelo Estado não chegam, face às quebras dramáticas na facturação e às despesas fixas para manter os negócios a funcionar. Se já antes era difícil, imagino que neste momento seja uma tarefa quase impossível, principalmente num país com poucos leitores regulares.

O medo é uma emoção muito comum nestes dias. No entanto, a sugestão que deixo é a seguinte: se tiverem condições para tal, aliviem parte desse medo com livros. Escolham livros que vos consolem, que vos façam companhia, que vos inspirem, que vos informem e (ou) que vos distraiam, que vos façam felizes. Talvez os leiam mal os tenham nas mãos; talvez os leiam daqui a muito tempo. Mesmo que leiam apenas ocasionalmente, ou que só agora estejam a tentar cultivar hábitos de leitura, comprem livros. E, se puderem, comprem-nos a livrarias e editoras nacionais. Com o pouco que temos, podemos contribuir para reavivar um sector tão querido e tão vulnerável.

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