Populismo e crise

Os populistas, assim como os demagogos, têm a capacidade de tirar o máximo proveito das situações de crise, contribuindo activamente para moldar a sua perceção através dos seus discursos e acções.

Em tempos de crise, de eventos sem precedentes, um dos desafios mais difíceis, mas ao mesmo tempo necessários é, como dizia Hannah Arendt, renovar a nossa maneira de pensar. Um exemplo emblemático duma tal dificuldade foi recentemente dado pelo filósofo italiano Giorgio Agamben. Foram-lhe necessários três artigos de opinião, em que reafirmou uma e outra vez a sua teoria duma deriva autoritária e securitária dos estados contemporâneos, para finalmente admitir, com muita reticência, a gravidade excepcional da crise que estamos a viver. Se não fosse pela dificuldade do desafio, seria fácil qualificar o comportamento de Agamben, sempre recorrendo a Arendt, como o típico comportamento do ideólogo: aquele que quer impor a lógica duma ideia, indiferente a qualquer possível correspondência dessa ideia com os eventos.

Sem entrar nos detalhes do seu argumento, o caso de Agamben é interessante também porque destaca, a contrario, por assim dizer, o comportamento dos populistas perante esta crise. Com efeito, o populista é talvez um dos menos propensos a correr o risco de cair no erro cometido por Agamben. Em lugar da inflexibilidade do ideólogo, o que move o populista é essencialmente o objectivo de transformar cada situação numa oportunidade de lucro político a curto prazo. Ou seja, saber lidar com o que os gregos antigos chamavam o kairos: as oportunidades e os obstáculos que uma situação apresenta para a acção. Nisso, o populista coincide com o demagogo. Recentemente, o escritor italiano Antonio Scurati, que escreveu um romance de grande sucesso sobre Mussolini, relembrou uma definição que este deu de si mesmo. Mussolini definiu-se como um animal que sabe sentir o momento que chega. Eis aqui o talento fundamental de um populista enquanto demagogo: saber como aproveitar o momento.

Por outro lado, isso mostra-nos que também os populistas são escravos de uma ideia, embora muito mais imediata e concreta: a maximização das oportunidades para gerar o consenso. Uma conclusão que podemos retirar destas considerações é que, como escreveu Cas Mudde (um dos estudiosos mais influentes do populismo) há umas semanas, é difícil encontrar um padrão de comportamento comum diante desta crise entre os vários líderes populistas do mundo, porque as respostas dadas por cada um dependem muito do contexto específico onde eles actuam. Vimos, por exemplo, como na Hungria Orban aproveitou a situação para consolidar, ainda mais, a marca autoritária do seu regime. Enquanto Trump e Bolsonaro tentaram o caminho do negacionismo anticientífico para afirmar e consolidar o seu poder político. Em outros países, como Espanha ou Itália, os partidos populistas têm actuado inicialmente com alguma circunspecção, esperando pela evolução dos acontecimentos. Só agora começam a ganhar protagonismo com críticas cada vez mais fortes aos respectivos governos.

Mas, o populismo, diferentemente da demagogia, também tem uma dimensão ideológica. Esta dimensão não se reduz à oposição maniqueísta entre elites e povo, mas inclui outros elementos, entre os quais o anti-intelectualismo, ou uma aversão de princípio à reflexão teórica e à ciência. Esta aversão está relacionada a com outro aspecto da ideologia populista: o voluntarismo e o decisionismo, a predilecção pela acção imediata, centrada na figura do líder. Os comportamentos anticientíficos de Bolsonaro e Trump confirmam estes elementos. Na atitude quase inexplicável de Bolsonaro pode-se entrever a tentativa de utilizar a crise para confirmar a sua própria força como líder carismático, a dum líder que, em conjunto com o seu povo, não mostra medo em frente do inimigo. Trump, por outro lado, parece agora ter um comportamento mais oportunista, mostrando cada dia uma versão diferente, para desta maneira, no fundo, conseguir não assumir alguma responsabilidade.

De qualquer maneira, uma clara incompreensão da natureza da ciência tem-se manifestado não só nos políticos populistas, mas também em vários políticos ‘mainstream’. Há alguns dias, um ministro italiano declarou, em tom firme e sério, que os cientistas devem dar “certezas irrefutáveis” porque sem certeza não há ciência. Atitudes desse tipo confirmam o baixo nível de cultura científica das nossas sociedades: uma incapacidade de entender a ciência, que é, por natureza, experimental e falível.

Evidentemente, a falta de consenso científico sobre o coronavírus, um vírus sobre o qual a comunidade científica sabe ainda pouco, representa um desafio para os políticos, não só pela dificuldade que tal situação implica em relação às decisões que devem ser tomadas, mas também do ponto de vista da comunicação com os cidadãos. Numa situação destas é preciso, mais do que nunca, que a comunicação seja prudente e precisa, evitando meias informações ou informações incoerentes que parecem assumir que os cidadãos não reflectem sobre as mensagens que recebem das autoridades.

Mas, além da relação entre ciência e política, há outra questão política central que esta crise coloca em evidência. A questão do medo. Hobbes, um dos fundadores do pensamento político moderno, considerava que o medo está na raiz da criação do estado. Se, de facto, existe o perigo de mudanças populistas-autoritárias causadas por esta crise, eu diria que elas devem ser buscadas na situação que o medo causado pela pandemia pode criar. Para Hobbes o medo da morte é o único fundamento verdadeiramente sólido sobre o qual estabelecer a autoridade política. Ele achava que os seres humanos só aceitariam renunciar às suas liberdades naturais, para submeter-se a uma autoridade política, para fugir dum medo básico, original: o medo da morte. E este poder não podia ser senão absoluto; um poder que instile, por seu turno, um medo enorme, ou mesmo terror, nos cidadãos, de maneira tal que deva ser respeitado.

É muito interessante neste aspecto relembrar que Hobbes, provavelmente, chegou a essa conclusão reflectindo sobre uma passagem da Guerra do Peloponeso de Tucídides, na qual o historiador grego fala do estado de anarquia - uma dissolução de todas as leis, humanas e divinas - em que Atenas caiu, como resultado de uma praga, no século IV.

Como dissemos, os populistas, assim como os demagogos, têm a capacidade de tirar o máximo proveito das situações de crise, contribuindo activamente para moldar a sua perceção através dos seus discursos e acções. Nesse sentido, a perceção do medo representa um factor importante que populistas autoritários poderiam explorar em prol de viragens autoritárias. Todavia, em geral, esta situação dramática de crise, deixa-nos numa situação de grande incerteza: quanto tempo durará? Como nos vamos organizar até uma vacina estar disponível? Como enfrentarão as nossas sociedades a crise económica e social? Se nas primeiras semanas da pandemia a impressão geral era que - em face da comoção e da necessidade urgente de enfrentar a tragédia - a política tinha sido suspensa agora voltou a sentir-se, com toda a força, que a política ocupa um lugar insubstituível, sobretudo em situações de crise.