Igualdade na Saúde para Todos

É imperativo proceder a um desconfinamento prudente, suportado por apoios sociais muito fortes para evitar as consequências da precariedade.

Nos últimos anos a esperança média de vida da população melhorou significativamente, principalmente devido à melhoria das condições de vida. Contudo, o caminho no sentido de diminuir o seu carácter desigual não tem tido o mesmo sucesso. As circunstâncias onde as pessoas nascem, vivem e trabalham continuam a determinar fortemente a sua possibilidade de ter uma vida longa e saudável.

Apesar de todos os esforços, continuam a verificar-se diferenças sistemáticas na longevidade entre os grupos socioeconómicos: em média, uma pessoa com educação universitária pode esperar viver mais seis anos do que uma com educação inferior, o fosso está a aumentar. O relatório “Health Equity in England: The Marmot Review 10 Years On” refere que houve um aumento nas desigualdades na esperança média de vida em Inglaterra, desde 2010.

Recentemente, a pandemia de covid-19 relembrou que ainda há muito a fazer no campo das desigualdades. Se em alguns países é mais fácil entender estas desigualdades, porque o acesso não é nem gratuito nem universal, no caso de países, como Portugal, dotados de um serviço nacional de saúde, é mais difícil de entender que a mortalidade dos pobres seja muito superior à dos ricos. No entanto, mesmo nestes países, continuam a existir diferenças na distribuição dos fatores de risco de infeção por covid-19.

Por um lado, as pessoas mais pobres estão mais expostas porque vivem em casas mais pequenas e com menores condições para o isolamento, têm menos possibilidade de teletrabalho ou de se ausentar ao trabalho, têm menos recursos em casa em termos de tecnologia, utilizam mais os transportes públicos, e têm menos meios para se protegerem (máscaras, gel, testes, etc.). Ainda, à semelhança de outras patologias, o conhecimento sobre os métodos de prevenção e autocuidado, a capacidade de uso de tecnologias e tratamentos está diretamente associada aos níveis de educação e literacia em saúde. Pelo que a procura por testes e cuidado atempado poderá ser decisivo para evitar a progressão natural da doença.

Por fim, as comorbilidades e doenças crónicas, como a hipertensão, diabetes ou asma, e estilos de vida como a obesidade e o uso de tabaco, foram associadas a maiores complicações da covid-19 e mortalidade. Uma vez que se sabe que estas condições influenciam a severidade da doença e estão muito mais concentradas nos grupos mais desprivilegiados socioeconomicamente, uma vez infetados, estes têm um risco de morte superior, exacerbando muito mais as desigualdades na mortalidade.

Para evitar o congestionamento dos serviços de saúde, os governos promoveram medidas de distanciamento físico e de confinamento. Estas medidas, que têm como último objetivo salvar vidas, podem também elas próprias ser geradoras de desigualdades, uma vez que impedem as populações mais carenciadas de trabalhar e as colocam em risco de não ter o rendimento necessário para subsistir. Neste momento, a Saúde Pública enfrenta um trade-off entre lutar pelo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2, acabar com a fome e garantir uma alimentação equilibrada e nutritiva, e o ODS 3, que pretende assegurar saúde e bem-estar para todos, em todas as fases da vida. E isto não é exclusivo dos países em desenvolvimento, em Portugal observou-se já um aumento dos pedidos de ajuda alimentar​.

Grande parte das desigualdades na esperança de vida e mortalidade seriam modificáveis através de ações de saúde pública, pelo que são consideradas normalmente como injustas. No entanto, as medidas que fazem parte da solução são, elas próprias, parte do problema. Neste sentido, os mais pobres perdem sempre, porque se optamos por medidas de confinamento, perdem rendimento e emprego, e, se não o fazemos, têm maior risco de contágio e mortalidade por covid-19. Assim, é imperativo proceder a um desconfinamento prudente, suportado por apoios sociais muito fortes para evitar as consequências da precariedade.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico