Torne-se perito Opinião

Os “nossos idosos”

A solução evocada de eventual confinamento dos “nossos idosos” até ao fim do ano ou, quem sabe, até que apareça uma vacina, sob pretexto de os proteger e de assim também proteger o resto da sociedade é, do meu ponto de vista, uma afronta

Confesso que estou bastante farta do paternalismo que encerra a adocicada expressão “os nossos idosos”, ou os “nossos” qualquer coisa. Por duas razões:

Em primeiro lugar porque, fazendo parte do escalão etário definido como os “nossos idosos”, não me reconheço como fazendo parte de nenhum colectivo específico, uniforme, todo ele sujeito às mesmas preocupações, às mesmas atenções, aos mesmos cuidados, todos eles diferentes, aliás, do resto da população. Como se, de facto, os “nossos idosos” fossem um grupo social à parte que, como tal, tem de merecer um tratamento especial. Meu Deus, o que é que isto me lembra…

Como tentou dizer há dias a ministra da Saúde numa entrevista na SIC, conduzida aliás com uma grande agressividade pelo pivot, a faixa etária não é um valor absoluto relativamente à covid – e eu acrescentaria para tudo o resto. O que é de facto um valor absoluto é a diversidade de situações das pessoas que só a elas compete definir no quadro da generalidade das condições impostas ao conjunto da população. Fazer parte de um determinado escalão etário define apenas isso e mais nada.

Nesse sentido, achei inadmissível que, por exemplo, Jerónimo de Sousa tenha sido confrontado publicamente nos media, não pela concentração do 1.º de Maio em si mesma, o que até seria compreensível, mas pelo “mau exemplo” estando ele na tal faixa etária… Por esse andar teríamos de concluir que um sem número de detentores de cargos públicos, de empresários, jornalistas, artistas e outros que pertencem à mesma faixa etária estão diariamente a dar um mau exemplo porque, independentemente das tarefas que desempenham, e cuja relevância não nos cabe julgar, também não estão obviamente em confinamento absoluto.

Em segundo lugar, “quando a esmola é grande, o pobre desconfia…”, ou seja, quando o carinho é tanto, a solicitude tão generosa, o “idoso” desconfia. E desconfia porque entre as palavras e os actos há um abismo que os separa: não é nos chamados lares de idosos que têm morrido mais pessoas devido à falta ou atraso de cuidados de que têm sido alvo? Dir-se-á que é por causa de estarem todos juntos, mas eu conheço países onde não há um único morto em lares desse tipo. Por isso, também desconfio que tanta solicitude oculte de facto a ideia de que, no fundo, já viveram a sua vida e que esta não tem nesta fase o mesmo valor das outras, tanto mais que já não são “úteis”, já não contribuem e ainda por cima fazem subir as estatísticas do infectados e das mortes…

Não quero ser injusta e não generalizo. Sei que detrás da expressão “os nossos idosos” há por parte de muita gente a melhor das intenções e sobretudo sei como pais e avós são queridos por parte dos seus filhos e netos e como estes os querem realmente proteger. Mas também aprendi a suspeitar de juras pletóricas de amores abstractos e globais que acabam por se traduzir em actos de segregação.

A solução evocada de eventual confinamento dos “nossos idosos” até ao fim do ano ou, quem sabe, até que apareça uma vacina, sob pretexto de os proteger e de assim também proteger o resto da sociedade é, do meu ponto de vista, uma afronta. Uma afronta do mesmo calibre da que propõe o confinamento de um determinado grupo étnico, ou de uma região por eventualmente ser povoada por gente “menos educada”. Trata-se de generalizações abusivas que não têm em conta o princípio base de uma sociedade livre e democrática, composta por indivíduos diferentes uns dos outros e com igual direito à liberdade de dispor de si próprio, no respeito dos mesmos condicionalismos que tocam a todos, e não por um aglomerado fragmentado de grupos, etnias, regionalismos, sujeitos cada um a tratamento diferente.

Repito: os “nossos idosos” são em primeiro lugar cidadãos, independentemente da idade, situação social, cultura, etnia ou religião, sujeitos às mesmas obrigações de todos os outros e aos mesmos direitos, nomeadamente ao direito de dispor de si mesmo, no quadro geral da lei e do contexto conjuntural vigente.

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